Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Ninguém quis salvar Sudan. E parece que ninguém continua a querer saber

DAI KUROKAWA/ EPA

Restam apenas duas fêmeas de rinoceronte-branco do norte. Sudan, o último macho, morreu. O Homem matou-os e destruiu o seu habitat. E continua a fazê-lo. Ninguém quis salvar o rinoceronte branco do norte. E quem quer saber de salvar os outros milhares de animais ameaçados?

Sudan morreu. Morreu ele e todos as possibilidades de continuação dos rinocerontes-brancos do norte. Já não vão nascer mais porque ele era o último macho desta subespécie. Tinha 45 anos, que em idade humana seria perto de 90, e embora já não fosse possível reproduzir-se, era uma quase uma lenda na reserva Ol Pejeta, no Quénia. “O último que resta” e “o melhor solteiro disponível”, chamavam-lhe. Sudan morreu porque a idade lhe trouxe muitos problemas de saúde e o sofrimento era “gigante”.

“O que tinha de especial era ser um rinoceronte, que é um dos grandes mamíferos que ainda existe em África. É uma subespécie de rinoceronte-branco que se extingue, resta apenas a subespécie do sul. Vivia numa zona bastante complicada no nordeste da República Democrática do Congo, norte da Tanzânia e no sul do Quénia”, explica João Branco, presidente da Quercus - Associação Nacional de Conservação da Natureza.

Sudan não é caso único. As previsões apontam para que na próximas décadas, caso nada seja feito, notícias como esta se tornem mais frequentes, talvez até deixem de ser motivo de noticia devido à regularidade com que algumas espécies e subespécies vão desaparecer. “Prevê-se que se extinga um grande número de animais.” Em 2017, a União Internacional de Conservação da Natureza estimava que mais de 20 mil espécies estavam sob ameaça.

“Há uns dias vi um artigo sobre o tigre da Tâsmania, ‘a espécie que ninguém quis salvar’. Há cem anos, havia animais destes em cativeiro e sabia-se que iram desaparecer e ninguém os quis salvar. Mais uma vez, volta a acontecer: ninguém quis salvar o rinoceronte-branco do norte. E isso continua a acontecer com outras espécies, por exemplo, os rinocerontes asiáticos, a girafa e vários outros mamíferos de grande porte em África.”

Esta segunda-feira, a equipa de veterinários da reserva natural queniana decidiu que era hora de terminar com as dores do animal, que já nem se conseguia erguer. “Sofria de uma série de problemas de saúde devido à idade avançada e tinha várias infeções. O seu estado piorou significativamente”, explicou a Ol Pejeta em comunicado.

O rinoceronte africano - a espécie a que pertence o rinoceronte-branco - faz parte dos “big five”, os cinco mamíferos selvagens de grande porte que, além de serem o grande chamariz turístico em África, são dos mais difíceis de serem caçados pelo homem, também por isso dos alvos mais apetecíveis para os caçadores furtivos. O grupo fica completo com o leão, o elefante, o búfalo-africano e o leopardo.

O ambientalista da Quercus sublinha que a caça é precisamente um dos fatores para o desaparecimento da subespécie de Sudan. E, embora a maioria se encontre nos parques e reservas naturais, que são vedados e fortemente vigiados, os caçadores continuam a conseguir entrar, matar e sair com o animal.

Mas a razão mais grave para o desaparecimento do rinoceronte é a destruição do habitat. Precisam de espaços selvagens e, mesmo sendo herbívoros, são extremamente perigosos para o Homem, porque atacam e matam – pesam mais de uma tonelada e é muito violento. Quando entra em culturas agrícolas, devido ao peso, destrói tudo, por exemplo. Portanto, não conseguem sobreviver em harmonia com o homem.

Agora restam apenas duas fêmeas: a filha e a neta de Sudan, Najin e Fatu. “Não é possível fazer reaparecer depois de se extinguir completamente. Neste caso, ainda existem fêmeas e, eventualmente, podem ser cruzadas com o rinoceronte-branco do sul mas não é o mesmo - o cromossoma do macho perde-se para sempre”, diz João Branco.

O solteiro que chegou a ter um perfil no Tinder

O nome de Sudan foi-lhe dado pelo país onde nasceu, o Sudão. Aos dois anos foi recolhido do ambiente selvagem e levado para um jardim zoológico na República Checa, que foi a sua casa até 2009 - ano em que foi declarada a extinção desta subspécie no habitat natural. Depois transferiram-o com mais cinco rinocerontes-brancos do norte para a reserva natural queniana.

Há menos de um ano, devido ao título de “melhor solteiro disponível”, foi criado um perfil no Tinder para Sudan. A ideia fazia parte de um campanha de angariação de fundos para proteção e reabitação de rinocerontes. Mais de 85 mil dólares foram recolhidos (perto de 70 mil euros).

Sudan tornou-se o único macho dos rinocerontes-brancos do norte em 2014, quando Suni e Angalifu morreram. O ritmo da extinção das espécies continua a aumentar em larga escala. Os habitats estão a ser destruídos a um ritmo galopante, que acompanha o ritmo de crescimento populacional e o ritmo da industrialização, do desbravamento da selva para a agricultura, as minas e construção de autoestradas.

O ambientalista diz que “gostava de acreditar” que a história de Sudan conseguisse fazer a diferença, mas a experiência mostra algo diferente. “As espécies extinguem-se umas a seguir às outras e continua a não haver grande interesse por parte dos Estados em manter a conservação da espécie.”