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Os argumentos de um relatório que arrasa a prevenção e a resposta à tragédia de 15 de outubro

luís barra

Morreram 48 pessoas, quase todas com mais de 70 anos. Não fugiram do fogo, foram surpreendidas e estavam a tentar salvar os seus bens. Entre a tarde de 15 de outubro e a madrugada de 16 de outubro, as chamas queimaram o equivalente a dez mil campos de futebol por hora. O que aconteceu podia ter sido prevenido, escrevem os autores de um relatório entregue esta terça-feira no Parlamento. Havia informação que permitia preparar devidamente o combate às chamas, lê-se no texto, que diz ainda que a população não foi devidamente socorrida (os peritos falam mesmo em “dramático abandono”)

“Nunca assisti nada assim”, “tempestade de fogo”, “megaincêndios”, “turbilhão de fogo”, “ciclone de fogo”, “mar de fogo”, “bolas de fogo a projetarem-se a quilómetros”, “em 40 anos nunca vi nada disto”. Os testemunhos dos comandantes das mais variadas cooperações de bombeiros não deixam margem para dúvida: o que aconteceu no dia 15 de outubro e que se estendeu ao dia seguinte foi algo como nunca antes visto. Foram os primeiros incêndios de tão grande dimensão a acontecerem na Europa no outono.

As conclusões do relatório “Avaliação dos incêndios ocorridos entre 14 e 16 de outubro de 2017 em Portugal Continental”, entregue esta terça-feira na Assembleia da República, deixam críticas à prevenção e à resposta à tragédia de 15 de outubro no centro do país. Morreram 48 pessoas. A primeira conclusão é que o que aconteceu podia ter sido prevenido. “Perante as condições meteorológicas de outubro poderia (deveria) ter-se antecipado o aumento do número de ignições e, por isso, poderia ter-se atuado, com medidas robustas de pré-posicionamento e de pré-supressão, de forma a prevenir o que era esperado”, lê-se no documento com 274 páginas.

Ao longo do relatório é várias vezes referido que o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) e a Proteção Civil (ANPC) alertaram para a especificidade daqueles dias. Foi até emitido um comunicado que “chamava à atenção para as referidas condições e admitindo que deveria haver perigo de incêndio florestal”. O estado de alerta deveria ter passado para vermelho, o mais alto, e isso não aconteceu. No entanto, o mesmo comunicado foi também “responsável por criar uma expectativa claramente contraditória, admitindo uma situação de precipitação que seria previsível para a tarde de 16 de outubro”.

“O modelo de alertas que é adotado pelo IPMA e pela ANPC necessita de ser credibilizado de forma a evitar a sua banalização ou o entendimento de que se trata de uma rotina”, lê-se ainda no relatório dos peritos que analisaram o que se passou em outubro, que acrescentam que a informação, ao ser passada pelos diversos interlocutores, foi sendo amenizada. Quando chegou à população, estava “muito suavizada”.

O que falhou na resposta?

O primeiro ataque aos incêndios aconteceu como estava previsto, mas as normas deixaram rapidamente de ser cumpridas. Quem estava no terreno percebeu que era “impossível” que as normas instituídas fossem seguidas: havia “dificuldade em mobilizar forças suficientes” para todos os focos de incêndio e os bombeiros também não conseguiam dar resposta a todos os pedidos de socorro.

O relatório de avaliação faz também questão de sublinhar que, à data dos acontecimentos, os incêndios já se encontravam “fora de um período considerado crítico” e que por isso mesmo uma série de meios já não estava disponível. “Um número significativo de forças nacionais já estavam descontinuado, designadamente os meios aéreos” e “não havia possibilidade alguma de combater o incêndio”.

As simulações do desenvolvimento inicial do comportamento do fogo indicam que a maioria dos megaincêndios não é controlável se não existir intervenção de meios terrestres entre os três e cinco minutos. No centro do país, “a maioria das ocorrências foi combatida em cinco ou dez minutos após o alerta, mas a primeira intervenção terá essencialmente acontecido quando o incêndio já estava para lá da capacidade de extinção”.

A dado momento, entre as 16h do dia 15 e as 05h do dia 16, o fogo começou a tomar proporções gigantescas. Nesse período arderam em média dez mil hectares por hora, ou seja, ardeu uma área equivalente a dez mil campos de futebol por cada hora que passou. E foi nesse período que se registaram mais mortos.

“O panorama vivido nestes dias, sobretudo no dia 15 de outubro, traduziu-se numa situação de dramático abandono, com escassez de meios, ficando as populações entregues a si próprias.”

Perfil das vítimas mortais diferente de Pedrógão

No total, em 2017, morreram nos incêndios 114 pessoas. Destas, 48 foram vítimas dos incêndios de outubro, sobretudo no período entre as 16h de dia 15 e as 5h do dia 16. Até às 23h, já 39 pessoas tinham morrido.

A maioria das vítimas - mais de metade - já tinha passado os 65 anos. “A inserção em classes etárias revelou uma diferença substancial em relação às vítimas de Pedrógão. As fatalidades no período em análise atingiram maioritariamente idosos, com especial expressão para a classe etária dos 70 aos 79 anos. Além disso, a maior parte das vítimas (85%) era residente permanentes nas respetivas zonas”, lê-se no relatório.

Com esta característica das idades, segundo o documento, as vítimas mortais de outubro podem ser separadas em duas tipologias: aquelas que tentaram salvar os seus bens e foram surpreendidas pelo fogo junto a casa e aquelas que devido a problemas de saúde e dificuldades de mobilidade não foram retiradas a tempo das habitações. “A maioria das vítimas não estava em fuga, o que revela a severidade do fogo e a velocidade da sua expansão, surpreendendo de forma violenta os diversos locais que foi visitando.”

Outra das conclusões é que as mortes aconteceram em lugares muito dispersos: registaram-se vítimas em Coimbra, Sever do Vouga, Pinhel e Oliveira do Hospital (de 14 concelhos), o que também “distingue as fatalidades deste período das do incêndio da zona de Pedrógão”. Além disso, os peritos referem ainda que na maior parte dos lugares em causa “as medidas vigentes de prevenção estrutural não estavam executadas, com realce para as estradas”.

Notícia atualizada às 22h05