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Os “efeitos multiplicadores” dos novos desafios dos mares

Regina Salvador é a professora responsável pela cátedra Jean Monnet dedicada ao Mar e denominada Oceanid

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Em vésperas da primeira conferência da única cátedra dedicada ao mar na Europa, a investigadora Regina Salvador lembra que “as novas atividades têm efeitos multiplicadores”. Mas é preciso “cautela” na exploração dos novos recursos.

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

A Europa tem a maior zona económica marítima do mundo e Portugal uma das maiores e com tendência a crescer com a nova proposta de alargamento da plataforma marítima continental. Por isso não é de estranhar que Bruxelas tenha atribuído a uma Universidade portuguesa – a Nova de Lisboa – a única Cátedra dedicada ao Mar na Europa. A regê-la está a economista e geógrafa Regina Salvador, com quem o Expresso falou a propósito da conferência “Política Marítima Integrada e Crescimento Azul na UE”, que decorre esta terça-feira na Reitoria da Universidade Nova de Lisboa.

A conferência conta com a presença da ministra do Mar, Ana Paula Vitorino, na abertura, e com o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, no encerramento e contará com a participação de representantes de várias instituições nacionais e europeias ligadas ao mar.

Para a professora do Departamento de Geografia e Planeamento Regional da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova esta cátedra “é muito importante por ser única” no panorama de cátedras Jean Monnet criadas na União Europeia e por “Portugal ser o país com a maior zona económica exclusiva (ZEE) da UE e estar em negociações para o alargamento da plataforma continental”.

Para já a zona económica exclusiva de Portugal estende-se por 1.8 milhões de quilómetros quadrados, o que, sublinha a investigadora, “já mostra como somos muito mais mar do que terra”. A área marítima nacional é cerca de 18 vezes superior à área terrestre e o objetivo é mais que duplicá-la. Os números da proposta atual em análise na Organização das Nações Unidas não são públicos, mas chegou a apontar-se paraa 3,8 milhões de quilómetros quadrados.

“Explorar os mares de forma sustentável”

Regina Salvador lembra que “cerca de 50% do PIB europeu está no litoral, onde se concentram as empresas”. E que, a longo prazo, “o mar é cada vez mais importante porque a população mundial continuar a aumentar e temos de pensar em novos tipos de alimentação e em recursos para a biotecnologia”. No fundo do mar podem explorar-se novos recursos biológicos e genéticos para produtos farmacêuticos, assim como minerais como ferro, cobalto, níquel ou hidrocarbonetos.

Porém estas explorações acarretam riscos para os ecossistemas marinhos. “Ninguém sabe exatamente o que temos nos montes submarinos e não se sabe quais as consequências ambientais”, afirma Regina Salvador, argumentando que “temos de controlar esta área gigantesca e saber como a defender e negociar com multinacionais para explorar o fundo dos oceanos de forma sustentável”. Daí que “os pedidos para explorar montes submarinos nos Açores estejam suspensos, porque a UE é muito cautelosa em matéria ambiental”, explica.

Sobre o projeto de pesquisa e exploração de petróleo ao largo de Aljezur, a académica apenas diz que “temos de ver se essas reservas naturais têm valor, mas com o preço do petróleo a descer se calhar não é bom negócio avançar [para a exploração]”.

Uma nova estratégia para as energias renováveis do vento e das ondas ‘offshore’ é outra das potencialidades a explorar e que pode representar “59 mil milhões de euros para Portugal até 2030”. Segundo a investigadora “uma das razões que terá levado os chineses a comprar a EDP é por termos uma tecnologia portuguesa de eólica offshore que estão a vender para os EUA”. E lembra: “As novas atividades têm efeitos multiplicadores”.

“Governança de interesses”

A cátedra dedicada ao mar conta com 30 alunos de mestrado, doutoramento e pós-doutoramento e tem para já três linhas de investigação que visam “promover plataformas de cooperação, criação de emprego e desenvolvimento sustentável em Portugal”.

A primeira pretende comparar “cidades portuárias inteligentes”, pegando em cidades como Lisboa, Porto e Sines e comparando-as com Málaga, Vigo e Roterdão “para ver o que falta às cidades portuguesas para cumprir este conceito”, esclarece a académica.

A segunda linha de estudo vira-se para as principais comunidades piscatórias e de construção naval com o objetivo de verificar amortecer os efeitos de uma crise nas atividades em redor do sector da pesca. Já a terceira tem como finalidade uma proposta de uniformização de critérios sobre as atividades na orla costeira para encontrar o que Regina Salvador chama de “governança de interesses” ou equilíbrio entre interesses opostos.