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“O teu amor salvou-me”: carta de um pai ao filho que perdeu a mãe quando tinha um ano

Cândido Gomes e o filho, Salvador

Cortesia Cândido Gomes

O filho de Cândido Gomes, Salvador, de quatro anos, tinha um quando a mãe, Gintare, morreu de cancro. A propósito do Dia do Pai que se assinala esta segunda-feira, Cândido decidiu escrever-lhe uma carta para lhe falar da luta da mãe para que ele nascesse – uma das histórias que inspirou o livro “Filhos da Quimio” – e de como encontrou a salvação no amor dele

Cândido Gomes

Querido Salvador,

“O dia mais feliz da minha vida” foi sempre mudando à medida que ficava mais velho. Recordo com carinho a primeira consola, a primeira namorada, o fim do curso. E nunca me esquecerei do dia em que casei com a mulher mais divertida que conheci, a Gintare, tua mãe.

Foi há seis anos que casámos. Era então “o dia mais feliz da minha vida”, mais certo do passo que estava a dar era impossível. Adorava a tua mãe, uma mulher lindíssima, super divertida e fascinada pela vida. Tinha certeza que seria difícil superar esse dia, mas bastou um ano para perceber que estava redondamente enganado. O dia mais feliz da minha vida foi o dia em que nasceste.

Quando te tive nos braços, alguns segundos depois de teres nascido, foi como se tivesse sido atingido por um relâmpago. Nunca tinha sentido um amor assim. Foi amor verdadeiro? Acredito que sim, um amor inexplicável, por ti e pela tua mãe. Nesse momento, soube que aquele sim era o “dia mais feliz da minha vida”.

Gintare, Cândido e o pequeno Salvador, poucos meses antes da morte dela, em 2014

Gintare, Cândido e o pequeno Salvador, poucos meses antes da morte dela, em 2014

António Camilo

Recordo, antes de nasceres, da mamã dizer: “Não podemos ficar loucos de amor pelo Salvador, quando crescer vai sair de casa e viver a vida dele. Nós, sim, devemos continuar enamorados um pelo outro”. Achei piada, a pessoa que corria um risco enorme para ser tua mãe, que te amava mais do que à própria vida ainda antes de nasceres, achava que podia controlar algo que já estava totalmente descontrolado.

Comigo foi diferente, o meu amor por ti só surgiu mais tarde, quando te colocaram nos meus braços e te vi pela primeira vez. Estava apavorado com a hipótese de te deixar cair, ou de as minhas mãos te magoarem. Mas tu logo me sossegaste quando agarraste um dos meus dedos com toda a força. Imaginei então que eles já não eram feitos de carne e osso mas de algodão, que tu agarravas o que te dava segurança. Nesse toque de Midas, imaginei que te abraçava forte e que, nesse abraço, te protegia para sempre.

Hoje, olhando para trás, para a vida que tivemos a três, acredito que fui um homem com uma sorte imensa. Vivemos pouco mais do que um ano juntos, mas fizemo-lo numa casa cheia de amor, com imensas historias divertidas. Tu ajudaste imenso. Eras um bebé super bem disposto, curioso, que raramente chorava. Eras mesmo impecável, pá!

Cândido e o filho, Salvador.
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Cândido e o filho, Salvador.

Cortesia Cândido Gomes

Cândido e Salvador, poucos meses depois de ele nascer, em 2013
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Cândido e Salvador, poucos meses depois de ele nascer, em 2013

Cortesia Cândido Gomes

Gintare e Salvador, quando tudo ainda eram sorrisos.
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Gintare e Salvador, quando tudo ainda eram sorrisos.

António Camilo

Gintare e o filho Salvador, em 2014.
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Gintare e o filho Salvador, em 2014.

António Camilo

Depois, a mãe ficou novamente doente, muito doente. Fui egoísta e disse-lhe para lutar uma vez mais para ficar connosco, sem ela a vida era inimaginável... Ela lutou, como prometera, até onde pôde, até a dor física e psicológica se tornarem insuportáveis. Lembro-me desse dia como fosse hoje. Sentada numa cama no Hospital da Cruz Vermelha, ela disse-me: “Não aguento mais. Espero morrer em breve”.

Nesse momento deixei de ser egoísta para ser marido. A mamã, que era verdadeiramente apaixonada por nós, que adorava viver e a vida que tinha, queria partir - tinha de ser uma dor tão grande para esquecer tudo e todos. Poucas horas depois, teve a sua vontade. Partiu para um lugar melhor, onde a dor e o sofrimento não existem. Fico feliz por a dor dela ter desaparecido, não a queria ver sofrer mais. E de tão inspiradora que era a sua história acabou num livro sobre este amor maior do que a própria vida, graças ao Nelson Marques e ao seu “Filhos da quimio”.

A história de Gintare, Cândido e Salvador é uma das que fazem parte do livro "Filhos da Quimio", de Nelson Marques, editado este mês pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. Na capa, Raquel Soeiro e a filha, Isabel

A história de Gintare, Cândido e Salvador é uma das que fazem parte do livro "Filhos da Quimio", de Nelson Marques, editado este mês pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. Na capa, Raquel Soeiro e a filha, Isabel

FFMS

Hoje, somos tu e eu. A mãe sempre disse que tu eras o salvador dela, afinal foi graças a ti que descobriu a doença. Mas a tua mãe enganou-se. Quem tu vieste salvar foi a mim. Com as tuas brincadeiras e sorriso constantes, com os abraços que me fazem sentir amado. O teu amor salvou-me. Por mim, não crescias jamais, para não te esqueceres de me amar sempre.

Sei que vais crescer, que vais querer ganhar asas, que um dia vais achar-me antiquado... Mas, enquanto esse dia não chega, quero ser teu pai sem deixar de ser teu amigo. Quero abraçar-te, beijar-te e dizer que te amo. Quero ensinar-te a educação e o respeito pelo próximo. E se for bem sucedido, sei que até podes achar-me antiquado mas vais continuar a amar-me. É só isso que te peço: amor. Porque o amor é a resposta para uma vida feliz. Obrigado por seres o filho que sempre sonhei.

“Quero ser o teu amigo. Nem demais e nem de menos.
Nem tão longe e nem tão perto.
Na medida mais precisa que eu puder.
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,
Da maneira mais discreta que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.
Sem forçar tua vontade.
Sem falar, quando for hora de calar.
E sem calar, quando for hora de falar.
Nem ausente, nem presente por demais.
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amigo, mas confesso é tão difícil aprender!
E por isso eu te suplico paciência.
Vou encher este teu rosto de lembranças,
Dá-me tempo, de acertar nossas distâncias...”

José Fernandes de Oliveira

Um beijo do teu pai,

Cândido

19 de março de 2018