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Polémica nos Açores: “Água para abastecimento público não está poluída”

Cota Rodrigues junto à Lagoa das Patas, no interior da ilha Terceira

nuno botelho

O maior especialista em hidrogeologia do arquipélago, Francisco Cota Rodrigues, investigador e professor da Universidade dos Açores, defende em entrevista ao Expresso que “a ilha continua a ser um paraíso limpo”

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

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Redator Principal

Nuno Botelho

Nuno Botelho

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Fotojornalista

A existência de aquíferos contaminados e derrames de hidrocarbonetos próximo de furos de captação de água para consumo público na Praia da Vitória (Terceira), devido à Base das Lajes, está a ser denunciada por peritos locais como António Félix Ribeiro, investigador e professor da Universidade dos Açores, ou Orlando Lima, que trabalhou na gestão de programas ambientais na base americana. Mas Francisco Cota Rodrigues, também investigador e professor da Universidade dos Açores, considerado o maior especialista em hidrogeologia do arquipélago, fala em entrevista ao Expresso em “infundadas especulações”, diz que se trata “de uma situação pontual” e defende que “a ilha continua a ser um paraíso limpo”.

A contaminação da Terceira com hidrocarbonetos e metais pesados, devido à atividade da Base das Lajes, já atingiu os aquíferos e a água para consumo público?
A Base das Lajes encontra-se implantada numa estrutura hidrologicamente complexa onde, numa área truncada por numerosas falhas geológicas e com menos de 20 km2, coexistem três aquíferos sobrepostos. Apenas uma dessas massas de água subterrânea, a mais profunda, é explorada para consumo humano. Em nenhuma das suas seis captações foram detetados teores de metais pesados e de hidrocarbonetos superiores ao estabelecido pela legislação portuguesa e internacional usada neste tipo de avaliações, como a canadiana e a holandesa.

Pode garantir que a água proveniente dos furos de abastecimento público é de boa qualidade?
A água para abastecimento público no concelho da Praia da Vitória provém de vários sistemas aquíferos, a maioria sem qualquer relação com a massa subterrânea profunda basal que referi. A captada nas imediações da Base das Lajes obedece aos critérios de salubridade estipulados na legislação nacional sendo, portanto, considerada de boa qualidade. Esta constatação resulta de milhares de análises efetuadas nos últimos 20 anos.

Haverá uma ligação entre incidência de cancro em certas zonas da Praia da Vitória — como a Estrada 25 de Abril — e consumo de água?
A água que abastece a Estrada 25 de Abril também abastece outros locais do concelho. Provém de captações onde os teores de metais pesados e de hidrocarbonetos estão em conformidade com a lei. O Centro de Oncologia dos Açores apresentou estatísticas dos últimos 18 anos em que demonstra que não há uma maior incidência de casos de cancro na Praia da Vitória relativamente à média dos Açores. Por outro lado, não me parece ser cientificamente válido associar-se a ocorrência de certos casos raros de cancro ao consumo de água nas imediações da Base das Lajes, tendo por base amostragens muito reduzidas e sem significância, como as de um estudo que foi noticiado [conduzido pela Escola de Saúde Pública da Universidade dos Açores].

O que dizem os relatórios do LNEC sobre o estado das águas?
Todos dizem que a água para consumo público não está poluída. As questões técnico-ambientais relacionadas com a contaminação de solos e aquíferos na Base das Lajes estão documentadas em mais de duas dezenas de relatórios. Mas em todos eles são feitos levantamentos da situação existente no período da sua publicação baseados em ações de prospeção, monitorização ambiental, análises de risco e processos de reabilitação ambiental projetados, em curso ou já efetuados.

Mesmo assim, é urgente descontaminar os solos para não pôr em risco os aquíferos?
A descontaminação dos solos tem de ser encarada face ao risco que comporta, sobretudo para as massas de água subterrâneas utilizadas no abastecimento humano. Perante os processos de descontaminação em curso, uns com mais sucesso do que outros, há que tomar medidas que reforcem os primeiros e que reformulem os segundos, adaptando as intervenções face à evolução verificada. Um dos aspetos fundamentais é a seriação das captações de água para abastecimento público em função de eventuais riscos de contaminação e, caso se justifique, com a definição de um plano alternativo de abastecimento que contemple novas captações em zonas de maior altitude onde em estudos recentes foram identificados excelentes aquíferos, e de sistemas complementares de adução e armazenamento de água.

Os níveis de contaminação estão a diminuir com as ações em curso ou já concluídas?
As ações levadas a cabo nos últimos anos envolveram a eliminação de focos ativos de contaminação, a remoção de solos contaminados e a extração de hidrocarbonetos em suspensão no aquífero mais superficial, que, dada a sua pequena capacidade de armazenamento, não tem água suficiente para ser captado. Em termos globais, os resultados obtidos apontam para a diminuição progressiva dos valores de hidrocarbonetos inicialmente registados. Todavia, alguns dados revelam oscilações, pelo que as ações de descontaminação e monitorização têm de prosseguir.

E na zona do Pico Celeiro, onde se diz que foram enterrados aditivos de chumbo?
A deposição de lamas com chumbo ocorreu na década de 70. Esse facto, referenciado nos relatórios americanos e confirmado por antigos funcionários da Base das Lajes, foi constatado em 2010 quando, após a desativação dos reservatórios no local, foram detetados numa camada arenosa superficial disposta na base dos tanques elevados teores de chumbo. Este facto, que vem alimentando infundadas especulações, deixou de ter grande relevância quando no ano seguinte, em análises aos solos feitas em sondagens profundas, os valores registados revelaram-se significativamente mais baixos.

O fluxo hídrico subterrâneo na ilha processa-se do centro montanhoso para o mar. Os poluentes que contaminam a água podem ser arrastados para o mar, reduzindo os riscos para a população?
Os sistemas hídricos subterrâneos insulares são dinâmicos. Dos 638.900.000 m3 de água da chuva que se precipitam anualmente na ilha, sensivelmente 212.400.000 m3 infiltram-se. A circulação da água subterrânea faz-se de forma radial — do centro para a periferia — descarregando em nascentes, umas submarinas, outras dispostas na linha de costa e ainda outras, como no caso especifico da baía da Praia da Vitória, em áreas baixas do terreno formando pântanos com pequenas zonas lagunares (pauis). Os três pauis atualmente existentes na baía devem-se, em grande parte, a descargas de água subterrânea infiltrada no interior da ilha e em zonas limítrofes da Base das Lajes. Numa monitorização mensal levada a efeito nos últimos cinco anos, os registos de metais pesados e de hidrocarbonetos estão muito abaixo dos valores-limite da água para consumo humano referenciados na legislação portuguesa, canadiana e holandesa, apresentando as suas águas uma saudável biodiversidade.

Como vê toda a polémica sobre a contaminação da Terceira?
Quem a apregoa fá-lo por ignorância, por demagogia ou, lamentavelmente, por razões de ordem político-partidária. Trata-se de uma situação pontual, circunscrita aos locais onde se implantavam os sistemas de armazenamento e transporte de combustível para a Base das Lajes, que tem naturalmente de ser solucionada, mas que não põe em perigo a saúde pública nem justifica a celeuma criada. A ilha continua a ser um paraíso limpo, com produções agropecuárias de inquestionável qualidade e sempre apetecível de visitar.