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Vestir o passado

Se a moda é um eterno retorno, as roupas de outras épocas deixam de ser velhas, ganham o estatuto de ‘vintage’. Está cada vez mais na moda comprar peças de vestuário em segunda mão

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O tempo é relativo e, por vezes, a história repete-se. E veste-se. As roupas de outras épocas — para muitos consideradas velhas — passam a ser vintage no presente e vão conquistando cada vez mais entusiastas em Portugal. Despe-se o preconceito vetusto de adquirir vestuário em segunda mão. Usada mas como nova, os trajes e acessórios que marcaram, indelevelmente, várias épocas ganham um novo brilho, sobretudo junto de um público em busca de marcar pela diferença.

O fascínio por uma indumentária antiga torna-se um hábito moderno. Nada é novo, tudo se reinventa, transforma e reaproveita. A moda é um eterno retorno e vive-se a primavera revivalista de uma estética retro, onde abundam os padrões florais. Mais do que uma tendência, é uma forma de estar, não alinhada com a lógica contemporânea, dominada pelo efémero e o descartável. O Expresso leva-o numa odisseia, desde os anos 20 até ao final da década de 90, para percorrer este admirável modo novo de ser fashion com as coleções de um passado muito trendy.

Em busca do vestido perdido

As opções são várias e esta febre aquece o interesse de um público sobejamente heterogéneo. Para o menino e para a menina. Para o avô e para a avó. Para todas as carteiras. As lojas de roupa vintage proliferam nos grandes centros urbanos e enchem-se de curiosos. Esta é uma paixão que entrou no quotidiano de Ana Cardoso aos 16 anos, quando assistia a um filme. Já não se recorda do título, mas bem viva na memória está, no entanto, a cena em que viu uma das personagens usar “o vestido mais lindo que já tinha visto na vida”. Procurou-o em toda a parte, principalmente nos estabelecimentos mais mainstream, até que um amigo lhe sugeriu uma loja de roupa, no Porto, com artigos em segunda mão.

“Apaixonei-me por este estilo”, confessa Ana, atualmente com 20 anos, ao Expresso. “Tenho uma camisola que me roubou o coração e ainda hoje a uso com o maior carinho. Parece que foi feita para mim e que estava à minha espera. Comprei-a a 50 cêntimos”, recorda esta estudante de Design de Comunicação. “É de malha azul, comprida e para homem. Não sei por que motivo, mas, sempre que a uso, imagino a história que está por detrás daquela peça”, prossegue na explicação. “Pode ter sido de um senhor que agora tem os netos ao colo e que lhes está a contar histórias. Talvez seja por isso que gosto tanto de roupa em segunda mão. Puxa pela minha imaginação e isso deixa-me muito feliz”, acrescenta a jovem, natural da Maia, para quem o fator económico e a oportunidade de ter um “estilo único” são argumentos preponderantes.

Quando lhe perguntam quais são os estabelecimentos comerciais que melhor satisfazem o seu gosto por peças vintage, a resposta é tecida prontamente e com humor. “Costumo dizer que os meus preferidos são o armário da minha mãe e todas as lojas de roupa em segunda mão do Porto.”

Porto vintage

Num Porto que se descobre e redescobre, sempre aberto a quem chega, também o baú de outras épocas se destapa. É um Porto vintage, onde nem os trapos são velhos e o tempo pode ser vestido em segunda mão.

Bem perto da Torre dos Clérigos, no nº 7 da Rua da Assunção, está instalada a Ornitorrinco. “Acho que o nome assenta que nem uma luva, sendo um animal tão curioso e original, que vai buscar características a vários outros animais, um pouco como o vintage vai buscar inspiração a várias épocas e locais”, explica a gerente Daniela Pinto, de 28 anos. Trata-se de um pequeno e acolhedor estabelecimento comercial onde é possível encontrar, sobretudo, peças das décadas 60, 70, 80 e 90, tanto para homem como para mulher.

As peças desportivas — como sweatshirts, casacos e calças de fato de treino, principalmente de marcas como Adidas, Nike e Champion — são uma das especialidades da casa. Saias, vestidos, camisas e camisolas (formais e informais, com os cortes típicos de cada época), assim como calçado e acessórios são outras das raridades que podem ser encontradas nesta loja. Os preços podem oscilar entre 1 e 25 euros. “Quem procura este género de roupa faz porque gosta do estilo, de ter uma peça original”, começa por explicar a responsável pelo espaço. “Mas muita gente procura as pechinchas, principalmente nas roupas de marca. Há ainda algumas pessoas que adquirem roupa em segunda mão por uma questão de sustentabilidade ambiental”, acrescenta Daniela Pinto, para as pessoas que “se habituaram ao conceito já não lhes faz confusão e aderem”.

A loja de vestuário vintage Mon Père fica perto do Teatro Carlos Alberto e é incontornável no panorama portuense

A loja de vestuário vintage Mon Père fica perto do Teatro Carlos Alberto e é incontornável no panorama portuense

Rui Duarte Silva

Bem perto do Teatro Carlos Alberto encontra-se outra das lojas de vestuário vintage, incontornável no panorama portuense. Chama-se Mon Père e é um local de passagem obrigatória para todos os fregueses desta revigorada tendência. Camisas com padrões exuberantes, camisolas de malha, casacos e kispos de outras épocas, saias, vestidos ou óculos de sol. Há um pouco de tudo, de toda a parte, desde os artigos que Mariana adquire a fornecedores nacionais e internacionais ou em viagens que efetua pelo mundo, numa constante busca por raridades, às quais se juntam o calçado novo e os quimonos desenhados pela proprietária. O espaço, localizado no nº 80 da Rua da Conceição e inaugurado em 2013, está atualmente em remodelação e reabre a 17 de março com nova coleção.

Um edifício requalificado da década de 50, na Rua da Alegria, nº 5, serve de casa para a loja Mão Esquerda, onde a aposta recai no vintage japonês, com os quimonos e os vestidos de um “preciosismo muito interessante” e camisas masculinas com padrões coloridos, explica Ana Carolina Mendonça ao Expresso. Os tesouros são para todos os preços, desde uns módicos 5 euros até artigos que podem custar 85 euros. Desde os anos 20 até à última década do milénio, é possível encontrar igualmente carteiras, sapatos, chapéus ou cintos. “Temos muitos clientes masculinos e, infelizmente, há menos oferta para os homens. Há menos peças no mercado”, lamenta Ana Carolina Mendonça.

A outra face 
do negócio da moda

Do Porto passamos para Lisboa, porque na capital também já atracou a propensão pelos artigos vintage e em segunda mão. Na Baixa lisboeta, encontramos A Outra Face da Lua, onde os preços acessíveis são um chamariz para adquirir roupa e acessórios, desde os anos 50 até 90. O estabelecimento comercial, situado no nº 22 da Rua da Assunção, conta ainda com uma zona de restauração. A conversa com a curadora do espaço, Carla Belchior, leva-nos para outros temas, relacionados com a indústria da moda e alguns mitos que ainda prevalecem relativamente às lojas de roupa em segunda mão. “O preconceito é uma ideia errada que as pessoas têm de um conceito. O vintage — ou slow fashion — prende-se com peças de boa qualidade e com uma durabilidade acima da média das que se fabricam atualmente”, evidencia a gerente da loja.

“Com o aumento da poluição e ao sabermos que a indústria da moda é a segunda mais poluidora do mundo, o termo vintage ganhou um novo significado, que não tem apenas a ver com a durabilidade”, nota Carla Belchior. “À medida que se vai descobrindo todo o impacto negativo da moda contra o nosso planeta e contra as pessoas que nele habitam, as lojas vintage vão ganhando uma nova força, que tem a ver com criatividade e ecologia”, acrescenta a proprietária d’A Outra Face da Lua, com uma missão comercial mas também “ativista”, motivo pelo qual os sacos de plástico ficam à porta.

Ainda sobre o estigma inerente aos produtos em segunda mão, Carla Belchior estranha que “uma pessoa não compre roupa em segunda mão por ter sido utilizada por outra, mas, no entanto, compre um carro usado, sem ter a certeza de que os estofos tenham sido mudados e não tem qualquer problema com isso”.

Artigos de primeira 
em segunda mão

Para quem procura artigos de grandes marcas e considerados de primeira linha, saiba que em Lisboa também é possível adquiri-los em segunda mão. Carteiras, sapatos e roupa de marcas como Yves Saint Laurent, Prada, Louis Vuitton, Chanel, Carolina Herrera, Valentino, Gucci ou Carolina Herrera fazem as delícias do público feminino e podem ser encontradas — a metade do preço de mercado — nas lojas Addicta LX (Largo Machado de Assis, Loja 9B) e Du Chic À Vendre (Rua Azedo Gneco, 80A).

Madalena Pinheiro, de 60 anos, é a proprietária da Addicta LX e revela que o seu público é constituído por “pessoas que sabem o que querem e o que gostavam de ter”. Ao mesmo tempo, são clientes que sabem o que não querem de todo, por vergonha ou reserva. “As pessoas não gostam de ser vistas a comprar produtos em segunda mão. Ainda há algum estigma”, acrescenta a proprietária da loja, próxima da Avenida de Roma.

Já a proprietária da loja Du Chic À Vendre, Monique Gealland — libanesa de origem, mas a viver em Portugal há cinco décadas —, defende que “a vantagem destas lojas é possuírem peças que já não são reeditadas e o cliente tem a oportunidade de vestir algo único”.
“É uma maneira de vestir com personalidade, algo que ainda faz falta em Portugal. As pessoas ainda são muito padronizadas. Só um pequeno nicho é que gosta de ousar e de ser diferente”, conclui a lojista de 59 anos.