Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Aprender a estar preparado para o fogo

Kelvin Hirsch visitou as áreas afetadas pelos incêndios de 2017 e percebeu a “complexidade” portuguesa

Programa canadiano para criar comunidades rurais mais resilientes ao fogo pode ser adaptado à realidade portuguesa

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Na berma da “estrada da morte”, a nacional 236 onde perderam a vida 47 das 66 vítimas fatais do grande incêndio de Pedrógão Grande, Kelvin Hirsch mostra-se emocionado. O perito canadiano imagina “a situação difícil de quem tentava perceber o que fazer e para onde fugir”. Duas horas depois, na antiga escola primária de Figueira, que serve de sede à Associação de Vítimas de Pedrógão, Hirsch explica como em Fort McMurray, no Canadá, conseguiram evacuar 88 mil pessoas em quatro horas, sem fatalidades, em 2016.

Convidado pela Estrutura de Missão que está a montar o sistema de gestão de fogos rurais, Hirsch esteve esta semana em Portugal para partilhar o seu conhecimento e experiência e lembrar que “quem vive na floresta tem de ter consciência de que vive numa área inflamável e deve saber como se proteger”. O programa FireSmart Communities, que envolve 37 comunidades, é uma das formas de estarem preparados. “A questão não é se uma determinada comunidade pode ser afetada por um incêndio, mas sim quando será”, sublinha. Isto independentemente das diferenças entre os dois países — o Canadá é 180 vezes maior do que Portugal e 94% da propriedade florestal é estatal quando em Portugal 98% são privados.

O programa de “comunidades resilientes” canadiano gira em torno de um conjunto de princípios como a articulação de entidades, a legislação, o planeamento, a cooperação, a gestão de combustíveis ou a cultura de segurança. Contudo, “o risco nunca se elimina por completo”, lembra Hirsch perante uma plateia de duas dezenas de pessoas, entre membros das associações de vítimas dos incêndios de 2017, agentes da proteção civil e da gestão florestal e especialistas.

O chefe da Estrutura de Missão, Tiago Oliveira, concorda: “Não basta limpar mato em redor das casas e aldeias, é preciso garantir liderança, educar, comunicar, ter conhecimento, fazer gestão e planeamento de emergência e cooperar”. Por isso reforça a importância de ter peritos como Hirsch na bolsa de especialistas que está a ser criada para “injetar conhecimento de forma rápida” em Portugal. Fruto de recomendações da Comissão Técnica Independente, por cá já começaram a surgir embriões do que Tiago Oliveira chama “comunidades mais adaptadas ao fogo”.

Projetos em marcha

Entre estes projetos destaca-se o das “Aldeias Resilientes”, liderado pela Associação das Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande, que envolve 25 comunidades da zona do Pinhal Interior. Arrancou no final de 2017, mas entrará em velocidade de cruzeiro “para o final do ano”, diz Nádia Piazza, que preside à associação. No terreno já avançaram com o questionário às populações, identificaram potenciais líderes das comunidades, inventariaram maquinaria como tratores, roçadoras, etc., georreferenciaram aldeias e fizeram o levantamento de pontos de água e de potenciais lugares de refúgio. O próximo passo é treinar e equipar as equipas, mas faltam verbas e para obtê-las estão “em conversações” com eventuais mecenas.

“É impossível ter um bombeiro em cada comunidade e a população tem de tomar as rédeas da autoproteção”, sublinha Nádia Piazza. E lembra que “as pessoas têm de permitir que a equipa as coloque seguras”, tendo em conta as resistências de muitos em deixar a sua casa.

Porém, “por vezes o melhor refúgio são as casas”, afirma Domingos Xavier Viegas. O diretor do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais da Universidade de Coimbra, que investigou os incêndios de Pedrógão, desaconselha evacuações maciças e diz que “o importante é tornar as casas mais resilientes e as aldeias mais seguras”. Segundo o especialista, evacuações como as de Fort McMurray “só são possíveis quando conseguimos prever o comportamento do fogo e antecipadamente retirar as pessoas, o que não aconteceu nos incêndios de 2017 em Portugal”. Os exemplos do Canadá servem para “tirar lições e adaptar”.

O problema dos incêndios em Portugal “é um assunto muito complexo”, admite Kelvin Hirsch. Porém, em seu entender “há a consciência das questões essenciais e muitas ideias boas que têm de ser coordenadas e apoiadas pelo Governo”.

Entre os bons exemplos vistos entre muitos quilómetros de terra queimada no interior do país, destaca dois: a gestão de combustíveis feita em Candal, uma das aldeias de xisto da Lousã, que com essa limpeza “é menos provável ser destruída por um incêndio”; e a iniciativa da gente de Alvares, no concelho de Góis, onde “os proprietários se juntaram para gerir as terras de forma cooperativa, reconhecendo que as suas casas estão inseridas numa paisagem muito inflamável”.

A pedido da comunidade de Alvares (onde residem cerca de 800 pessoas, mas há mais de três mil proprietários), uma equipa liderada por José Miguel Cardoso Pereira, do Centro de Estudos Florestais do Instituto Superior de Agronomia, elaborou um projeto que visa “reduzir a área florestal, tornando-a mais segura e igualmente produtiva”.