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“Maior intervenção na ponte 25 de Abril” em 19 anos deve arrancar no final do ano

Foto Ana Baião

Há fissuras, brechas e parafusos soltos na ponte, mas esses são problemas da idade avançada e da utilização da Ponte 25 de Abril, que “obviamente têm de ser resolvidos”. As obras previstas são necessárias mas “apesar da urgência, não significa que a ponte esteja em risco ou vá colapsar”. Se esse perigo tivesse sido detetado, a circulação já teria sido cortada, garante a Infraestruturas de Portugal ao Expresso. Em “breve” deverá haver outro contrato, para a fiscalização subaquática dos pilares

As obras na Ponte 25 de Abril devem arrancar no final do segundo semestre de 2018, estando previsto que durem cerca de dois anos. Apesar da necessidade de intervenção, a estrutura não está em risco de colapso nem a segurança dos que nela circulam ameaçada, garante ao Expresso fonte oficial da direção de comunicação da Infraestruturas de Portugal (IP), empresa pública responsável pela gestão e manutenção da ponte, atravessada diariamente por milhares de pessoas e que liga a margem sul do Tejo a Lisboa.

“Toda e qualquer obra tem sempre um caráter de urgência - seja por causa de uma fissura, uma brecha ou um rebite que não está bem apertado. Apesar da urgência destas obras, não significa que a ponte esteja em risco ou que vá colapsar. Se não houver manutenção é óbvio que qualquer estrutura pode ter problemas sérios ao fim de cinco, dez anos. Seja como for, se já tivéssemos detetado que era grave e que havia o risco de colapso, já teríamos cortado a circulação na ponte”, diz fonte da IP, que em conjunto com o Instituto de Soldadura e Qualidade (ISQ) e com o Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), monitoriza “permanentemente” a estrutura. “Será a maior intervenção na ponte desde que foram feitas as obras para acrescentar a linha ferroviária [1996-1999].”

João Carlos Santos

A IP confirma a existência de um relatório do LNEC, a pedido do Governo, em que são feitos alertas para a necessidade de fazer obras rapidamente. “Prevê-se que as obras comecem no final do segundo semestre deste ano - trata-se de uma previsão, visto que está dependente de vários fatores - e que sejam concluídas na segunda metade de 2020.”

Esta quinta-feira, a revista “Visão” dá conta da existência de um “documento secreto”, realizado pelo LNEC e entregue ao Governo, que refere o “risco de colapso da Ponte 25 de Abril”, uma vez que foram detetadas fissuras” numa zona estrutural. Caso não sejam feitas obras, a circulação de veículos pesados e de comboios pode ser reduzida. O problema está nas “treliças da viga de rigidez”, ou seja onde assenta o tabuleiro rodoviário e por onde passa a linha ferroviária.

Segundo a IP, estas anomalias resultam da idade avançada e da intensa utilização da ponte: “é verdade, há fissuras, brechas e parafusos soltos, tal como poderia haver em qualquer outra estrutura com mais de 50 anos, que é a idade da ponte. É normal surgirem fissuras que têm e serão obviamente reparadas. Para “breve”, está previsto um outro contrato para a fiscalização subaquática dos pilares da ponte.

Para as obras avançarem, é necessário o aval das Finanças, que tem de disponibilizar uma verba base prevista de 18 milhões de euros. Depois segue-se a fase de contratação pública para a realização das obras. O valor foi, esta quarta-feira, autorizado pelo ministério liderado por Mário Centeno, depois de ter estado bloqueado durante seis meses, de acordo com a “Visão”.

A publicação semanal refere que os problemas foram detetados há três anos. Ao Expresso a IP diz que o alerta chegou há alguns meses, sem saber precisar ao certo. “Estas obras estão planeadas há meses mas isto é um processo moroso. Não é coisa que se resolva de um dia para o outro. Estamos a falar de um cronograma de cerca de dois anos de trabalho.”

Restrições quando as obras começarem

Quem passa pela 25 de Abril diariamente já terá visto mais do que uma vez pessoas nos corredores laterais com coletes refletores, capacetes, blocos de notas e instrumentos de medição. Estas são ações que fazem parte da manutenção frequente da estrutura. Existe um Conselho de Segurança, do qual fazem parte a IP, o LNEC e o ISQ, onde são tomadas decisões como a calendarização das diversas intervenções.

Contacto pelo Expresso, numa tentativa de esclarecer qual a manutenção habitual da ponte, o LNEC remeteu esses esclarecimentos para a IP, justificando que é a entidade que contrata os seus serviços. Já o ISQ não respondeu.

Foto Ana Baião

Quando as obras começarem é possível que sejam definidos novos limites de velocidade e controlo do tráfego automóvel e circulação de comboios. Os trabalhos vão acontecer durante os períodos com menos trânsito, ou seja, à noite e aos fins de semana, para “minimizar eventuais impactos na normal circulação rodoviária e ferroviária”. Está previsto que as obras incidam sobre elementos metálicos da ponte suspensa e em elementos de betão armado pré-esforçado do viaduto de acesso de Lisboa. “Genericamente, trata-se da execução de trabalhos de construção metálica, soldadura, reposição localizada da proteção anticorrosiva, substituição de elementos não estruturais, limpeza, tratamento e pintura pontual de superfícies de betão”, lê-se num comunicado divulgado pela IP.

Partidos pedem explicações. PS lamenta “alarmismo social”

Já esta quinta-feira, perante a notícia de que o Governo não teria desbloqueado a verba, a ministra da Presidência, Maria Manuel Leitão Marques, à saída do Conselho de Ministros, deixou a garantia de que “o início das obras de recuperação da ponte 25 de Abril “está em bom ritmo”.

“Os mecanismos de decisão e de aprovação, e criação de concursos não são instantâneos. Creio que a decisão do Governo está adequada aquilo que são as informações técnicas que tem porque evidentemente quando é preciso reagir instantemente também temos mecanismos de urgência”, garantiu a ministra.

Foto João Carlos Santos

Marcelo Rebelo de Sousa colocou-se ao lado do Governo, sublinhando que o Executivo “fez o que devia ter feito”. “Não sejamos alarmistas. O que há é duas coisas: há um relatório que aponta para urgência em obras - não quer dizer que a ponte esteja a cair; e há o Governo que percebe a urgência e que determina essas obras”, disse o Presidente aos jornalistas. “Logo que chegou o relatório - é assim que normalmente se faz, há um relatório técnico, o relatório técnico mostra que há pontos onde é necessário haver intervenções - o Governo decidiu intervir”, acrescentou.

Entretanto, PSD, CDS e BE já pediram explicações sobre o assunto. Os sociais-democratas defendem que antes de apurar “responsabilidades políticas”, é necessário “perceber se podemos ter confiança no uso daquele meio e ouvir os responsáveis técnicos” e, por isso, pediram a audição do LNEC. “O que nos preocupa é tranquilizar as pessoas”, disse Paulo Rios.

O Bloco quer ouvir o ministro do Planeamento e das Infraestruturas, Pedro Marques, justificando a audição com as notícias “preocupantes”. O partido de esquerda mostrou ainda não entender que “seja o Estado a pagar 20 milhões de euros” pelas obras, uma vez que “existe uma Parceria Público-Privada com a Lusoponte para a gestão das pontes Vasco da Gama e 25 de Abril”. Essas intervenções, acrescentou o deputado Heitor Sousa, “deveriam estar integradas nesse contrato”. Também o PCP questionou o facto de a Lusoponte “arrecadar as receitas” e não ter “responsabilidades nas infraestruturas”.

Foto José Caria

O CDS juntou mais um ministro a ouvir na comissão de Economia, Inovação e Obras Públicas, Mário Centeno, por “ser o responsável por isto tudo”. Os centristas querem saber se as “cativações têm consequências na falta de ação e intervenção deste tipo na ponte”, exemplificando que as Finanças são responsáveis por cativações no Planeamento de 459 milhões de euros.

Já o PS recusa a ideia de “risco social” e assegura que a ponte é segura. “Os utentes da Ponte 25 de Abril podem estar tranquilos. Este não é o momento de alimentar demagogias estéreis ou alarme social, entrando-se em ligeirezas políticas”, disse André Pinotes Batista. O deputado socialista sublinhou ainda que o relatório foi pedido pelo Governo ao LNEC, que tem a função de produzir relatórios. “Não nos tentem convencer que há aqui alguma coisa escondida. O que é necessário ser feito está a ser feito”, diz.