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Portugueses falham consultas e deixam de comprar medicamentos por falta de dinheiro

Adam Berry / Getty Images

Pacientes faltaram a mais de meio milhão de consultas devido a custo dos transportes e um em cada dez portugueses não comprou medicação por falta de dinheiro no ano passado, revela estudo da Universidade Nova de Lisboa

Expresso e Lusa

Estudo elaborado pela escola de gestão de informação da Universidade Nova de Lisboa (NOVA IMS), que vai ser esta terça-feira apresentado, conclui que 10,8% dos portugueses optaram por não comprar algum medicamento prescrito por um médico devido ao custo dos fármacos, um valor que em 2016 tinha chegado aos 11,8%. A percentagem de doentes que deixaram de comprar medicamentos por causa do preço tem vindo, contudo, a baixar, passando dos 15,7% no primeiro ano de elaboração do estudo (2014) para os 14,2% em 2015.

O trabalho teve por amostra 500 entrevistas num universo de mais de 8,6 milhões de pessoas e cujos resultados foram extrapolados segundo uma pós-estratificação que tem por base as variáveis género e classe etária, tendo concluído ainda que subiu de 86,7 para 89,1 a percentagem de pessoas que tomaram no último ano medicamentos prescritos pelo médico.

Destes pacientes, em mais de metade dos casos (59,5%), algum destes fármacos fazem parte de uma terapêutica prolongada para tratamento de uma doença crónica, um valor inferior aos 65,3 registados no ano de 2016. Em relação ao seu estado de saúde, o documento refere que 45% dos portugueses considera que o mesmo afeta as tarefas diárias, percentagem ligeiramente inferior aos que consideram que o estado de saúde lhes provoca dor ou mau estar (47%) e aos que responderam que afeta negativamente a sua qualidade de vida (48%).

Os inquiridos consideram que, apesar de a qualidade dos serviços ter diminuído no ano passado, a qualidade técnica efetiva do SNS - que usou 13 indicadores validados e ponderados por um grupo de peritos – subiu substancialmente, alcançando os 73.8 pontos (mais 5,3 dos que no ano anterior). Alguns dos indicadores utilizados para medir a qualidade técnica são a sépsis pós-operatória, a mortalidade por AVC (Acidente Vascular Cerebral) - hemorrágico ou isquémico -, o reinternamento em 30 dias e as cirurgias em ambulatório.

Custo de transportes 'anula' consultas

O estudo da Nova-IMS também conclui que mais de meio milhão de consultas nos hospitais públicos ficaram por realizar, no ano passado, por causa dos custos dos transportes, inquérito que analisa pela primeira vez desde 2014 o impacto dos custos de transporte no acesso aos cuidados de saúde, tendo verificado que, no que se refere às consultas externas, o impacto é quase o dobro do dos custos das taxas moderadoras.

Segundo o documento, ficaram por realizar 539.824 consultas externas/especialidade nos hospitais públicos devido ao preço das deslocação e 260.905 pela conjugação dos custos de transporte com as taxas moderadoras. “As consultas, os exames e os episódios de urgência perdidos por via do valor das taxas moderadoras tem vindo a diminuir, o que é extremamente positivo e mostra que as questões relacionadas com o preço da utilização do sistema têm vindo a ser cada vez menos relevantes ”, sublinha o coordenador principal do estudo.

Em declarações à Lusa, Pedro Simões Coelho considerou ainda “muito importante” esta vertente do custo dos transportes, frisando que “esta não é uma realidade intrínseca ao sistema, mas tem de ser considerada pois há determinadas franjas da população para as quais estes custos da deslocação devem merecer uma particular atenção”.

O valor cruzado das taxas e custo da deslocação fizeram com que não se realizassem 260.905 consultas externas nos hospitais, o que faz ascender a um milhão o número de consultas por realizar nos hospitais. No que se refere às consultas com um médico de clínica geral ou com o médico de família num centro de saúde, o peso do custo dos transportes nas consultas em falhadas (253.318) é menor do que em contexto hospitalar. Nos centros de saúde, o motivo maioritariamente (439.997) foi o custo das taxas moderadoras.

O estudo indica ainda que cerca de 13,5% dos inquiridos admitiram não ter recorrido às urgências devido ao custo das taxas moderadoras, resultando em 908.631 episódios de urgência por concretizar. Apesar dos portugueses continuarem a considerar os preços das taxas moderadoras adequados, mantêm uma perceção errada dos valores, uma vez que, nalguns casos, estimam custos acima dos reais - 11,32 euros é o valor estimado em vez dos 7 euros de taxa para uma consulta externa de especialidade.

“Quando analisamos a importância da taxa moderadora no acesso ao sistema faz sentido perceber se as pessoas sabem quanto custa e se os valores se aproximam da realidade, para perceber se vale a pena atuar sob o ponto de vista da comunicação”, explica Pedro Simões Coelho.

“O que estimamos é que ao nível das consultas de cuidados primários em centros de saúde e dos episódios urgência as pessoas têm noção exata do preço. É uma percentagem pequena, mas ainda assim há 10% que acha que existe taxa moderadora para o internamento, que não existe, o que mostra que há um desalinhamento relativamente à realidade”, acrescentou.