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Quer protestar? Vista-se de preto. Ou dispa-se

DANIEL DAL ZENNARO

A associação entre nudez e protestos não é de hoje. Mas voltou a ser hoje que se ela se mostrou em Itália. À noite, atrizes manifestam-se vestidas de preto.

“Com este vestido preto, eu nunca me comprometo”, dizia a atriz Ivone Silva, num dos seus históricos programas de televisão. Na noite dos Óscares, como noutras ocasiões anteriores, não será esse o propósito: os vestidos pretos simbolizarão o protesto de atrizes, numa posição contra o assédio sexual no âmbito do movimento ‘#Metoo’ e pelo projeto ‘Time's Up’, após acusações de assédio e abuso sexual iniciadas com o produtor Harvey Weinstein e que já levaram centenas de atrizes a associarem-se a campanhas de denúncia.

Mas há outras formas de protestar – e com outros propósitos, quase sempre políticos.

No mesmo domingo em que se preparava a noite dos Óscares em Hollywood, Estados Unidos, em Itália decorriam as eleições legislativas em Itália. A tarde eleitoral acabou por ficar marcada por um episódio de protesto: quando Silvio Berlusconi se preparava para votar, uma mulher do movimento feminista Femen saltou para cima da mesa de voto em tronco nu. Escrita no corpo estava a frase: “ Berlusconi sei scaduto”, qualquer coisa como “Berlusconi estás caduco”, uma forma de dizer que o seu tempo já passou, algo de que ele parece discordar: Berlusconi, cujo partido, Força Itália, está coligado com a extrema-direita, voltou à ribalta e poderá ter uma palavra a dizer sobre quem será o próximo primeiro-ministro. O seu surpreendente avanço acabou por marcar uma campanha eleitoral muito atribulada.

Não é a primeira vez que ativistas do movimento Femen se despem em protesto contra Berlusconi. Nas eleições de 2013, Berlusconi também tinha à sua espera um protesto de quatro elementos do movimento feminista ucraniano Femen.

Inna Shevchenko, líder das Femen, durante um protesto na cimeira de Davos, em 2013

Inna Shevchenko, líder das Femen, durante um protesto na cimeira de Davos, em 2013

Ana Baião

A forma de protesto vem de trás. Em 2010, foi de mamas ao léu e coroas de flores na cabeça que meia dúzia de jovens protestaram contra a visita do primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, à Ucrânia. Em 2012, ativistas ucranianas protestaram nuas e simularam cenas de sexo e bebedeiras num protesto contra o turismo sexual, a prostituição e venda de álcool nas imediações dos estádios que iam receber o Campeonato Europeu de Futebol. Quando o governo ucraniano aprovou uma lei que proibia os cidadãos de irem à varanda de casa em lingerie ou de estenderem roupas, um grupo de ativistas fez um protesto em topless. Várias mulheres do movimento Femen despiram-se nesse mesmo ano na Catedral de Santa Sofia, em Kiev, pelo direito ao aborto.

Dois polícias tentam impedir os protestos de duas ativistas das Femen na Praça de S. Pedro, no Vaticano. As mulheres manifestavam-se pelos direitos dos homossexuais

Dois polícias tentam impedir os protestos de duas ativistas das Femen na Praça de S. Pedro, no Vaticano. As mulheres manifestavam-se pelos direitos dos homossexuais

Ana Baião

A manifestações prosseguiram. Em 2013, quatro mulheres do movimento manifestaram-se semi-nuas na praça de São Pedro, no Vaticano, a favor dos direitos das mulheres e dos homossexuais. Fariam o mesmo na inauguração da “Casa de Sonho da Barbie”, em Berlim: no peito nu de uma ativista lia-se a frase “A vida plástica não é fantástica!”. Ainda na Alemanha, três ativistas protestaram nuas à porta de Merkel, com a frase "Merkel, liberta a Femen", em protesto contra uma visita do primeiro-ministro da Tunísia, Ali Larayedh.

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IAN LANGSDON

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Em 2014, duas ativistas da Femen detidas na Crimeia e, em 2015, várias mulheres despidas da cintura para a cima esperavam Strauss Kahn à porta to tribunal onde seria julgado por proxenetismo agravado, tentaram subir para cima do carro onde seguia e obrigaram à intervenção da polícia. Nesse mesmo ano, uma mulher saltou para cima da mesa onde o presidente do Banco Central Europeu (BCE) falava aos jornalistas, gritando a Mario Drgahi pelo "fim da ditadura dos homens no BCE", como se lia na t-shirt: sim, estava vestida. O protesto chegou a ser atribuído ao Femen. Tratava-se de Josephine Markmann, conhecida por Josephine Witt, alemã então de 21 anos que havia sido membro durante alguns anos do movimento Femen. Ao lado, Vitor Constâncio assistiu atónito a tudo.

Momento do 'ataque' a Mario Draghi durante a conferência de imprensa desta tarde na sede do Banco Central Europeu, em Frankfurt

Momento do 'ataque' a Mario Draghi durante a conferência de imprensa desta tarde na sede do Banco Central Europeu, em Frankfurt

Kai Pfaffenbach/Reuters

Ainda em 2015, houve seios nus e saudações nazis nas celebrações do 1.º de Maio em França, em 2016 uma ativista simulou um enforcamento num ponte de Paris em protesto contra a visita do Presidente do Irão à capital francesa e, em 2017, ativistas despiram-se contra Marine Le Pen, o que aliás já tinham feito antes. Uma ucraniana de 25 anos seria detida quando, em topless, tentou tirar a figura do menino Jesus do presépio do Vaticano, gritando “Deus é mulher!”

Em 2014, o Expresso esteve no quartel-general do movimento Femen em Paris, publicando então uma extensa reportagem intitulada "os seios como uma arma", que mostrava os propósitos e o pensamento das ativistas, mas também a sua história, que tem passado por inúmeras detenções e perseguição.

Uma ativista das Femen é detida em Bruxelas numa manifestação contra Vladimir Putin

Uma ativista das Femen é detida em Bruxelas numa manifestação contra Vladimir Putin

Ana Baião

Na verdade, o corpo nu como forma de protesto está longe de ser novidade e muito menos foi inaugurado pelo Femen, havendo registos de manifestações com nudez ao longo das últimas décadas desde em protestos contra a guerra ou pela igualdade de direitos de género. Na eleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, houve também várias manifestações de protesto, desde mulheres em topless no seu local de votação até uma instalação do artista Spencer Tunick, com 130 mulheres nuas com grandes espelhos nas mãos, em frente da convenção nacional republicana que decorria em Cleveland.

Vários estudos publicados sobre a associação entre nudez e protesto atribuem um significado simbólico à nudez, que a torna muito mais do que uma forma de chamar as atenções, nomeadamente da comunicação social: a nudez representa vulnerabilidade, uma força “desarmada” contra o poder.

A opção das atrizes de Hollywood é outra. Ao vestirem-se de preto, como fizeram quando se vestiram preto na cerimónia dos Globos de Ouro, em Los Angeles em janeiro, associam-se ao movimento Time’s Up, que defende que “o tempo chegou ao fim na violência sexual, assédio e desigualdade no trabalho.” O protesto prossegue na noite dos Óscares.

Meryl Streep e a ativista Ai-jen Poo
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Meryl Streep e a ativista Ai-jen Poo

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Dakota Jonhson
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Dakota Jonhson

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Claire Foye
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Catherine Zeta-Jones
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Catherine Zeta-Jones

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O elenco de “Stranger Things”
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O elenco de “Stranger Things”

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Millie Bobby Brown
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Millie Bobby Brown

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America Ferrera, Natalie Portman,Emma Stone e a ex-tenista Billie Jean King
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America Ferrera, Natalie Portman,Emma Stone e a ex-tenista Billie Jean King

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Justin Timberlake e Jessica Biel
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Justin Timberlake e Jessica Biel

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Tracee Ellis Ross
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Tracee Ellis Ross

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Diane Kruger
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Kate Hudson
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Tom Hanks e Rita Wilson
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Halle Berry
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Reese Witherspoon,Eva Longoria, Salma Hayek e Ashley Judd
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Reese Witherspoon,Eva Longoria, Salma Hayek e Ashley Judd

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Sarah Jessica Parker
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Penélope Cruz
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Angelina Jolie e o filho Pax
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Saoirse Ronan
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Kit Harington
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Keith Urban e Nicole Kidman
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Keith Urban e Nicole Kidman

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