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A chover como ontem as barragens ficariam cheias num mês

João Carlos Santos

No dia 3 de março, em algumas zonas do país acumularam-se mais de 38 litros de água por metro quadrado, o que, para os especialistas, “foi muito bom”. Mas houve sítios onde se atingiram os 56 litros/m2. As albufeiras das barragens terão crescido entre 20% e 30% nos últimos oito dias

Mais trinta dias como ontem e as barragens ficariam praticamente todas com a água na sua cota máxima. Só na última semana, em que choveu todos os dias, a capacidade de armazenamento pode ter aumentado entre 20 a 30%, em termos médios.

A estimativa é do especialista em planeamento agrícola Jorge Froes, que refere, no entanto, que a situação é consideravelmente melhor a norte que a sul, apesar de a barragem de Alqueva estar a dar um contributo decisivo em toda a área geográfica do Baixo Alentejo. “O que choveu foi muito bom, mas um mês seguido de chuva seria seguramente a solução de muitos dos nossos problemas, não apenas para a agricultura como também para o abastecimento público”, sublinha.

No meio deste mapa de factos, afetos e intenções há uma boa e uma má notícia.

A boa notícia é que, segundo as previsões do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) vai chover em todo o território nacional – por vezes de forma intensa - pelo menos por mais 10 dias. A má notícia é que não se sabe se esse cenário se irá manter durante um mês, pois uma estimativa a essa distância não é cientificamente viável.

O excesso de Setúbal

Paula Leitão, meteorologista do IPMA contactada pelo Expresso, sublinha que ontem (sábado, dia 3 de março) em algumas estações de medição da pluviosidade foram registados mais de 38 litros por metro quadrado. Um valor “elevado”, mas que, ainda assim, ficou abaixo do registado em Setúbal, onde nas últimas 24 horas caíram 56 litros de chuva por metro quadrado. “Uma situação particular, embora se tenham registado outras igualmente significativas em mais algumas zonas do país, pois estamos a falar de ocorrências de trovoada, em que basta que uma nuvem descarregue com toda a intensidade num local isolado para que faça oscilar de imediato a acumulação de água para níveis acima do normal”, explica aquela especialista.

O que também pode acontecer, segundo Paula Leitão, é que um determinado foco de trovoada intensa faça a sua descarga principal poucos metros ao lado de uma estação de medição do IPMA, “o que acaba por distorcer, de certa forma, uma possível leitura. Além disso, também temos de ter em conta que as nuvens se vão descolando enquanto a chuva vai caindo, o que nunca pode resultar numa medição uniforme da carga de água acumulada em todo o território”.

Esperam-nos mais 10 dias de muita chuva

Para os próximos dias, o IPMA estima uma influência constante, de uma depressão estacionada no Oceano Atlântico, sobre o território continental e que vai originar situações de chuva intensa até ao dia 14, sensivelmente. Razão pela qual deverão ser emitidos novos avisos de muita chuva, neve e vento forte, ou seja, um cenário de muita instabilidade meteorológica.

O especialista em planeamento agrícola Jorge Froes, nota ainda que a água que agora está a cair do céu começa, de facto, a repor algum nível de normalidade nas albufeiras e nos campos, mas que, até chegar aos aquíferos subterrâneos – que estão 50, 100, 200 metros de profundidade, ou até mais – pode levar meses ou mesmo anos. “As primeiras chuvas repõem de imediato os níveis de humidade ao nível dos solos, mas para que essa humidade chegue aos ‘reservatórios’ subterrâneos leva muito, muito tempo. Por exemplo, só daqui a 15 dias é que alguma da chuva da semana passada vai atingir os primeiros terrenos argilosos a 30 metros de profundidade, onde pode começar a ficar retida para usos posteriores”.