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Duas mulheres, dois projetos por um mundo mais sustentável

GUSTAVO GALHARDO FIGUEIREDO

Estrela Matilde e Cristiana Costa são as duas eco-cidadãs 2018. As jovens portuguesas venceram respetivamente o primeiro e o segundo lugar do prémio Terre de Femmes deste ano. Estrela por ter ajudado a montar uma cooperativa de reciclagem gerida por mulheres na ilha do Príncipe. E Cristiana por utilizar excedentes da produção da indústria têxtil para criar a sua própria marca de roupa a “um preço justo”.

Carla Tomás e Paula Freitas Pinto

A sul da ilha do Príncipe, na comunidade de Porto Real, um grupo de mulheres são-tomenses arranjou uma nova forma de sustentar as famílias. A partir de garrafas de vidro usadas começaram a fazer joias artesanais e com os resíduos orgânicos iniciaram a produção de composto para a agricultura.

O projeto desenvolvido por Estrela Matilde, uma jovem portuguesa que reside na ilha do arquipélago de São Tomé e Príncipe, venceu a 9ª edição do Prémio Terres de Femmes Portugal, atribuído pela Fundação Yves Rocher. O galardão, entregue esta sexta-feira, visa destacar projetos femininos que articulem a defesa ambiental e social ao mesmo tempo que criam emprego.

A ideia de criar uma cooperativa de mulheres partiu de Anabela Pina, uma natural da ilha de 43 anos e mãe de cinco filhos. A forma de defini-la e pô-la a andar teve a ajuda de Estrela Matilde, uma bióloga portuguesa de 32 anos, que vive há cinco nesta ilha, que é Reserva Mundial da Bioesfera. Quando o projeto começou, Estrela era técnica da Fundação Príncipe Trust. Agora preside a esta organização não governamental que ajudou a montar o projeto e financiou a formação das mulheres.

Estrela Matilde e Anabela Pina, na cidade de Santo António, na ilha do Príncipe

Estrela Matilde e Anabela Pina, na cidade de Santo António, na ilha do Príncipe

DR

A junção das duas forças da natureza -— a de Estrela e a de Anabela — permitiu montar a Cooperativa de Valorização dos Resíduos da Ilha do Príncipe e pôr em prática os conceitos de economia circular e de economia solidária. O projeto arrancou em junho de 2017 e já entrou em velocidade cruzeiro.

“Temos 10 mulheres a trabalhar na cooperativa e já conseguem retirar um rendimento fixo mensal de cerca de 50 euros (mais que o salário mínimo na ilha) e ainda juntar um fundo de maneio para comprar materiais”, explica ao Expresso Estrela Matilde. Com os 10 mil euros do prémio agora recebido pretendem “comprar uma carrinha para poderem ter mais autonomia na recolha dos materiais e na distribuição dos produtos”, esclarece.

O Governo Regional cedeu-lhes o espaço de trabalho, onde têm a fábrica de bijuteria e o centro de compostagem. As mulheres aprenderam a moer o vidro transformando-o em pó, que é depois separado pela cor e transformado em peças de bijuteria cozidas em fornos de lenha. De lá saem colares, pulseiras, brincos e anéis e não há dois iguais. Já conseguiram acordos com restaurantes e hotéis para recolherem a matéria prima e para neles venderem a bijuteria aos turistas. O composto é vendido aos produtores de café, cacau ou mandioca e para os jardins dos hotéis.

“Trabalhar com estas mulheres é também apostar na melhoria das condições de vida das crianças, pois são as mães que assumem a maior parte das vezes a responsabilidade pela sua subsistência, educação e saúde”, sublinha a jovem alentejana, que vive na ilha do Príncipe desde 2013. Formada em biologia teve “o sonho de mudar o mundo uma ilha de cada vez”.

Cristiana no seu ateliê na Covilhã

Cristiana no seu ateliê na Covilhã

GUSTAVO GALHARDO FIGUEIREDO

Roupa criada de forma sustentável e a preço justo

Bem longe dos mares de São Tomé, e nas encostas da Serra da Estrela, em pleno interior de Portugal, vive e trabalha a segunda distinguida pelo prémio Terre de Femmes. Cristiana Costa tem apenas 23 anos, mas uma grande consciência social e ambiental e isso valeu-lhe uma menção honrosa da Fundação Yves Rocher – instituição francesa criada com o objetivo de ajudar projetos ecológicos de conservação da natureza, solidariedade e educação ambiental em cerca de meia centena de países.

Ainda estava no mestrado de Design de Moda quando lhe surgiu a ideia de aliar a estética às preocupações sociais e ambientais e criar a sua própria marca de roupa. Foi assim que nasceu a Näz. “Não existia grande oferta no mercado normal a um preço não-proibitivo”, conta. O desafio era “criar vestuário que não prejudicasse o ambiente, ajudasse as pessoas e tivesse um preço mais acessível do que o que era vendido só em lojas de luxo”.

Quando começou a conhecer a indústria têxtil teve “um choque” ao ver as costureiras a ganhar o ordenado mínimo. Questiona “até que ponto é que isso é justo”? E diz que anda a trabalhar para mudar essa realidade junto de pequenas empresas da zona da Covilhã.

Foi nesta cidade da Beira Interior que o projeto ganhou forma. Natural de Lisboa foi para lá estudar e é lá que continua a viver e tem o seu ateliê. “Aqui temos acesso a mão de obra qualificada na nossa área (costureiras e fornecedores da zona) e, sendo uma jovem empreendedoras sem um grande ordenado ao final do mês, é mais fácil viver na Covilhã”, explica.

Cristiana recolhe restos de tecidos de fábricas nacionais para produzir as suas roupas

Cristiana recolhe restos de tecidos de fábricas nacionais para produzir as suas roupas

GUSTAVO GALHARDO FIGUEIREDO

Desde há um ano que está “completamente focada” na sua marca, a Näz, que diz estar “a crescer muito rápido” e já tem encomendas para lojas em Portugal e no estrangeiro.

Emprega três mulheres a tempo inteiro e com a ajuda de uma campanha de crowdfunding reuniu dois mil euros para juntar aos seis mil que precisava para comprar máquinas. Agora, com o prémio recebe mais três mil euros que vai usar para desenvolver a coleção de inverno com tecidos 100% reciclados.

Cristiana Costa alerta para o conceito de preço justo no mercado de vestuário, já que, lembra, “a roupa barata que muitos portugueses consomem é feita por mão de obra quase escrava”. O prémio agora recebido é mais um incentivo para continuar com o projeto em que acredita: “Tentei mostrar na candidatura que se pode ter um negócio lucrativo e sustentavelmente económico e ao mesmo tempo ter um impacto positivo no ambiente e na sociedade”.