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José Manuel Galvão Teles: "Nunca tive medo do risco, sempre tive medo do medo"

Jos\303\251 Carlos Carvalho

Num testemunho inédito, José Manuel Galvão Teles, fundador de uma das maiores sociedades de advogados nacionais, a MLGTS (que fundou em 1994 com João Morais Leitão), revê uma longa vida, marcada pela história política do país. Uma entrevista a não perder, este sábado, na Revista do Expresso

Numa longa e inédita entrevista à Revista E, José Manuel Galvão Teles, fundador de uma das maiores sociedades de advogados portuguesas, a Morais Leitão, Galvão Teles, Soares da Silva & Associados (MLGTS), recorda o seu percurso de vida, muito para lá dos tribunais e da advocacia. Das origem e das motivações que o levaram a escolher ser advogado, sob a influência dos tios Galvão Teles, figuras maiores do Direito em Portugal,, aos anos da luta e da ação política, iniciada ao lado de Jorge Sampaio do idos de sessenta, no tempo das lutas académicas e da acção católica progressista; dos amigos da juventude e das crises de fé, aos anos da Revolução de Abril, quando em 1975, foi embaixador de Portugal nas nações Unidas: "No o dia 7 de dezembro de 1975 dá-se a invasão de Timor, e às 10 da noite entreguei ao Kurt Waldheim a carta que declarava o corte de relações diplomáticas entre Portugal e a Indonésia. Bati-me fortemente por Timor, mas saí em guerra das Nações Unidas. Deve ser feitio."

É sobretudo um homem que não se escusa a polémicas, teve várias, sempre atento aos movimentos da Justiça em Portugal: "José Sócrates, é um fenómeno que não compreendo. E uma das coisas que não compreendo é como ele teve tempo para aquilo. Porque continuou a ser um fossão, um trabalhador incansável como primeiro-ministro, e tudo aquilo é muito bem pensado. Ou tinha um gabinete montado com um advogado e um economista a trabalhar quase em full time para organizar aquilo ou não percebo como o fazia...", ou "no caso Centeno o Ministério Público teve uma atuação inaceitável... Segue uma pista que tem de um jornal e, precipitadamente, vai ao sítio errado. Vai ao Ministério das Finanças, que não tem nada que ver com aquilo. Quando muito, teria ido à CML. No sítio errado leva documentos e descobre que nem à CML se justificaria ir, porque não havia qualquer crime. Mesmo assim, segundo vem na comunicação social, ficam com os documentos que retiraram do Ministério das Finanças e isto já é arrogarem-se um poder que não têm. Portanto, cometem um erro ao ficar com documentos que podem ter segredos de Estado, e quem são os responsáveis? Deviam também responder por isso".

Mas a poucos meses de fazer 80 ano, José Manuel continua a ser um lutador que acima de tudo preza a sua liberdade e sobre si, revela: "Agora tenho esta doença, não sei como vai ser. O futuro a Deus pertence, costuma dizer-se. A mim é que não pertence, certamente. Julgo que tenho aceitado calmamente a situação em que estou, nunca me queixo. Só me custa não fazer algumas das coisas que ainda queria fazer. Gostava muito de ir a Berlim, para ver a arquitetura da nova cidade, e de me despedir de Nova Iorque... Mas tenho este defeito ou esta virtude: não gosto de perder nem a feijões. Portanto, tento continuar a minha vida normal. Duas vezes por semana vou a Torres Vedras, a uma clínica especializada em fisioterapia de Parkinson. Dizem-me que sou o mais rebelde que já passou por lá. Estou sempre a fazer coisas que não querem que faça, mas luto terrivelmente contra a doença, porque quero vencê-la. E vencê-la é morrer antes de deixar de ter liberdade de pensamento e antes de deixar de estar bem de cabeça."