Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

O futuro da vida urbana made in Portugal

O data center da Covilhã é o exemplo de uma infraestrutura do futuro capaz de lidar com grande volume de dados

Alberto Frias

Debate serviu para lançar a Smart Cities Summit de abril

Pensar as cidades. À primeira vista até pode parecer uma frase simples no sentido mais lato de planeamento urbano. Claro que nunca foi assim tão linear. Agora, mais do que pensar cidades, é quase como tomar decisões para que as cidades pensem. Como um organismo ativo em que os cidadãos são a força vital. E as ferramentas não só existem, como já estão a ser utilizadas. É o fantástico mundo da inteligência urbana que começa a ser cada vez mais visível.

Quando, no futuro, 70% das pessoas morarem em cidades, mostrar o que de melhor Portugal está a fazer neste campo é um dos objetivos da Smart Cities Summit (que pode conhecer melhor na caixa ao lado), cuja apresentação foi assinalada com um debate dedicado às tendências nas cidades inteligentes. Expressão que hoje se pode resumir como uma equação que junte tecnologia e sustentabilidade para dar o X procurado por todos: qualidade de vida. “Queremos afirmar este evento como um dos três mais importantes a nível europeu”, garante o presidente do Conselho Estratégico do Portugal Smart Cities e da Secção das Cidades Inteligentes da Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP), António Almeida Henriques.

Com moderação de Pedro Santos Guerreiro, diretor do Expresso (que se associou ao debate de anúncio), a conversa na sede da Fundação AIP esteve sempre ligada ao impacto destas decisões na rotina diária das pessoas. “A tecnologia não pode ser vista como um fim mas antes como um meio”, lembrou o CEO da Altice. Alexandre Fonseca vincou que antes de criarmos “a smart city ideal” é importante, primeiro, “perceber como.” Processo que passa por “conhecer as reais necessidades das populações” e desenvolver “soluções à medida da tipologia das cidades”.

Miguel Eiras Antunes, partner da Deloitte, não tem dúvidas de que “em alguns casos, antes de mais, importa resolver o básico” e começar por trabalhar na correção das (muitas) assimetrias que ainda subsistem. Desde sensores que ajudem no transporte do lixo e na rega de jardins, a aplicações que permitam um contacto direto para resolver problemas de infraestruturas de bairro, por exemplo. Há problemas que são comuns a todos e outros mais específicos da localização geográfica ou da dimensão urbana. O que parece pequeno pode fazer toda a diferença para quase metade da população, quando os municípios portugueses associados à secção das cidades inteligentes da ANMP representam 4,5 milhões de pessoas.

Laboratórios vivos
O persistente caso das diferenças entre o litoral e o interior é uma dicotomia clássica. E, aí, nas regiões mais afastadas dos grandes centros de decisão, a aplicação dos princípios da cidade inteligente é uma forma de dar mais condições de vida para fixar o talento local. Para o subdiretor da NOVA Information Management School, Miguel Castro Neto, está em discussão “o futuro das cidades que estamos a construir em Portugal”, e a necessidade de “modelos diferentes de desenvolvimento económico sustentável, muito mais eficientes.” E nessa forma de “olhar para a cidade como plataforma”, as mais pequenas podem ser “verdadeiros laboratórios vivos.” Está em causa uma nova capacidade de construir inteligência, “com o mundo analítico que está a despontar em Portugal.”

Exemplos como o data center da Covilhã para tratar e enviar dados ou a aposta no que são algumas das “melhores infraestruturas de comunicação à escala global”, como lhes chamou Miguel Eiras Antunes, mostram como parte da base já está implementada. Gerar as diferentes informações dos cada vez mais dados que chegam aos serviços públicos é um dos grandes desafios que se apresentam para o futuro. E uma das respostas pode estar na formação de uma nova geração. Por isso a preocupação demonstrada em consciencializar os mais novos, dos universitários aos alunos, para as questões que vão moldar a inteligência urbana.

Nova abordagem
Importa também “desenvolver parcerias numa lógica de ecossistema” que envolvam startups, universidades, empresas e autarquias para “um objetivo comum” de “criação de valor.” Sem esquecer a questão do financiamento onde, além do investimento público defendido por todos os presentes, “gerar poupanças para injetar nas economias locais não deve ser descurado”, segundo Alexandre Fonseca. A interação proporcionada pelo acesso mais difundido a “autoestradas da informação” também se reflete na adoção de orçamentos participativos. Em Cascais, por exemplo, registou-se uma maior taxa de participação que nas autárquicas e o mecanismo assume-se como uma pedra de toque no conceito de cidades inteligentes. Junta a apresentação de medidas influenciadas pelas novas ferramentas tecnológicas de gestão à participação de uma população também ela mais informada.

Trata-se de um esforço de “desenvolvimento económico através da modernização”, de acordo com Jorge Rocha de Matos, presidente da Fundação AIP, para gerar uma “nova abordagem aos mercados das empresas” com impacto nas economias locais e na vida das pessoas. No fundo, é pensar as cidades para que os cidadãos não tenham de pensar por elas.

Miguel Eiras Antunes, Alexandre Fonseca, Pedro Santos Guerreiro, Jorge Rocha de Matos, António Almeida Henriques e Miguel Castro Neto no debate na sede da Fundação AIP

Miguel Eiras Antunes, Alexandre Fonseca, Pedro Santos Guerreiro, Jorge Rocha de Matos, António Almeida Henriques e Miguel Castro Neto no debate na sede da Fundação AIP

José Caria

Citações

“É essencial apostar nestas novas iniciativas, que promovem as fileiras da mobilidade, tecnologia e de muitas outras vertentes. É uma cruzada importante para a modernização do país”
Jorge Rocha de Matos
Presidente da Fundação AIP

“No campo das cidades inteligentes, podemos ser um novo polo de desenvolvimento económico com impacto nacional 
e internacional”
Miguel Castro Neto
Subdiretor da NOVA Information Management School

“Muitas vezes sentimos que são apresentadas muitas soluções específicas a autarcas mas nem sempre lhes são apresentadas alternativas 
para a resolução 
do seu problema”
Miguel Eiras Antunes
Knowledge Partner da Deloitte

“A qualidade e as condições têm de acontecer de forma mais abrangente. Para termos infraestruturas realmente seguras, 
a cibersegurança tem que ser uma componente-chave”
Alexandre Fonseca
CEO da Altice

A grande mostra das cidades

Entre 11 e 13 de abril, 
o Centro de Congressos 
de Lisboa vai ser o palco 
da Portugal Smart Cities Summit, que se quer assumir como um espelho dos bons exemplos que o país (e também outras cidades espalhadas pelo globo) 
está a desenvolver no campo das cidades inteligentes. Organizada pela Fundação AIP, e com patrocínio 
da Altice, nasceu como 
um spin-off da Green 
Business Week. Vai ter espaços distintos para autarquias, universidades 
e empresas darem a conhecer o trabalho que estão a desenvolver assim como conferências dedicadas 
a tópicos como o financiamento, energia, água ou analítica. O certame, que terá uma centena de oradores nacionais e internacionais, e espera receber à volta de 6000 visitantes profissionais, arranca com a Cimeira dos Autarcas. Até lá, entre fevereiro e março, a ANMP promove o Smart Cities Tour por sete municípios portugueses, do norte a sul e ilhas, para discutir sete temáticas diferentes ligadas ao sector e perceber o que diferentes regiões têm a oferecer em diferentes áreas.

Três perguntas a: António Almeida Henriques
Presidente do Conselho Estratégico da Portugal Smart Cities e da Secção das Cidades Inteligentes da ANMP

Qual pode ser o impacto da Portugal Smart Cities Summit?
Espero que tenha um papel relevante no envolvimento da indústria portuguesa nesta área. Que ajude a disseminar as boas práticas e a acelerar o processo ao nível regional. E que Portugal se assuma como um cluster de referência no sector.

Como é que Portugal tem progredido neste campo?
Estamos a andar a uma velocidade muito grande. Muitos dos projetos que antes eram mais experimentais agora já são uma certeza. E este processo pode ser decisivo para as cidades do interior. É uma grande oportunidade para atrair pessoas com qualidade de vida e recrutar fora. Já temos muitas cidades que apostam na inteligência urbana como forma de melhorar a vida das pessoas

O que é preciso mudar para enfrentar os principais desafios?
Temos de assumir que a acessibilidade do século XXI é o digital, tem de ser visto como um desígnio nacional. Hoje ninguém vive isolado. É importante formular mais políticas públicas que não sejam meramente paliativas. Fazem falta também investimentos cirúrgicos e que os fundos comunitários do Portugal 2020 acompanhem mais este movimento.

Textos originalmente publicados no Expresso de 24 de fevereiro de 2018