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Cinco cientistas europeus recebem no Porto o "Prémio Gago em Política Científica"

O patologista Manuel Sobrinho Simões é um dos premiados

Rui Duarte Silva

O prémio, uma homenagem ao antigo ministro da Ciência, Mariano Gago, foi entregue esta quarta-feira no Porto no final da primeira "Conferência Gago sobre Política Científica Europeia" dedicada ao cancro. O patologista Manuel Sobrinho Simões é um dos premiados

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

Cinco investigadores da UE, incluindo um português, acabam de ganhar a primeira edição do "Prémio Gago em Política Científica Europeia", destinado a personalidades que se distinguiram no desenvolvimento das políticas de ciência e tecnologia e na capacitação da cultura científica na Europa.

O prémio, uma homenagem ao antigo ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Mariano Gago (já falecido), foi entregue esta quarta-feira no final da primeira "Conferência Gago sobre Política Científica Europeia" dedicada ao cancro, que se realizou no I3S (Instituto de Investigação e Inovação em Saúde), da Universidade do Porto.

Os premiados são Manuel Sobrinho Simões, professor de Patologia do Cancro no I3S/IPATIMUP (Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto) e investigador do Porto Comprehensive Cancer Center; Jean-Pierre Bourguignon, presidente do Conselho Europeu da Investigação (ERC); Alexander Eggermont, diretor da Cancer Core Europe, a mais importante rede europeia de investigação do cancro, e diretor-geral do Gustave Roussy Cancer Centre de Paris; Ulrik Ringborg, diretor do Cancer Centre Karolinska da Suécia; e Karin Sipido, presidente do Painel Científico da Saúde do programa H2020 da Comissão Europeia de apoio à ciência e inovação.

As cinco medalhas do prémio foram entregues na presença de Carlos Moedas, comissário europeu da Investigação, Ciência e Inovação, e dos ministros da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, e da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor.

Aumentar sobrevivência ao cancro de 50% para 75%

A conferência debateu a participação de Portugal na rede europeia Cancer Core Europe através do Porto Comprehensive Cancer Center, um consórcio que reúne o IPO Porto e o I3S/IPATIMUP, e a construção de uma plataforma europeia de políticas de apoio à investigação do cancro no próximo quadro financeiro da UE, de modo a que três em cada quatro doentes de cancro (75%) em 2030 possam ter perspetivas de sobreviver à doença. Neste momento são apenas dois em quatro (50%).

Neste contexto a investigação clínica é fundamental e por isso Manuel Heitor e Adalberto Campos Fernandes anunciaram na Conferência Gago que o Conselho de Ministros desta quinta-feira vai discutir a criação da Agência para a Investigação Clínica e Inovação Biomédica, com sede no Porto, que deverá arrancar ainda em 2018, de modo a que o investimento anual nesta área passe de seis para 20 milhões de euros em 2023.

A nova agência vai ter a participação de instituições públicas e privadas, como a Autoridade Nacional do Medicamento (Infarmed), a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), a Associação Portuguesa da Indústria Farmacêutica (Apifarma) e o Health Cluster Portugal.

“Centros de excelência europeus a trabalhar em conjunto”

"O principal desafio que temos pela frente é fazer aquilo a que chamamos a investigação do cancro em continuum", explica ao Expresso um dos premiados, Ulrik Ringborg. O diretor do Cancer Centre Karolinska (Instituto Karolinska, Suécia) falou precisamente sobre este tema na Conferência Gago sobre Política Científica Europeia, e aposta "no desenvolvimento da investigação básica, na adoção de novos métodos de diagnóstico e no tratamento dos doentes orientado para a sua sobrevivência".

Devido à grande diversidade de mutações nos doentes de cancro, "os programas de investigação devem ser melhor integrados e desenvolvidos em larga escala", de forma sistemática, "porque há descontinuidades no processo atual de investigação na Europa", assinala Ulrik Ringborg. É por isso que foi criada a rede europeia Cancer Core Europe, a que o Cancer Centre Karolinska pertence, que tem como objetivo "pôr as instituições europeias de excelência na área do cancro a trabalhar em conjunto e a partilhar os resultados da sua investigação".

O cientista sueco acredita que "com este modelo de investigação vai ser possível alcançar em 2030 o objetivo de três em cada quatro doentes de cancro na Europa conseguirem sobreviver". E não se trata apenas de curar mais doentes, "mas também de melhorar a sua qualidade de vida e de inovar na prevenção".

"Ganhar o Prémio Gago foi uma surpresa para mim", conta Ulrik Ringborg. "Tinha uma relação pessoal com Mariano Gago e respeitava muito as suas ideias relativamente ao desenvolvimento da ciência na Europa".