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Luanda procura aliados contra Lisboa

Angola eleva caso Vicente à CPLP. “A partir de agora é um assunto de Estado com outra dimensão territorial”

Gustavo Costa

em Luanda

Correspondente em Luanda

Ao alargar à CPLP o “caso Manuel Vicente”, Angola acaba de elevar para um patamar multilateral o seu sinal de protesto ao tratamento que a Justiça portuguesa está a dar ao processo judicial que em Portugal envolve o seu antigo vice-presidente.

“Até agora a Procuradoria era o nosso único canal; a partir de agora é um assunto de Estado assumido com outra dimensão territorial” — disse ao Expresso fonte do Ministério angolano das Relações Exteriores.

Esta nova posição de Luanda justifica a chamada de urgência esta semana a este Ministério do embaixador português.

João Carlos Silva recebeu uma carta dirigida ao ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal na qual Angola denuncia a violação, por parte de Lisboa, do acordo judiciário estabelecido pelos dois países, o que considera suscetível de “pôr em causa” as relações entre ambos.

Esta reação de Angola, que foi sinalizada a todos os países da CPLP, segue-se à insólita emissão em Portugal de um mandado de detenção a Manuel Vicente sob a alegação de que viajara no último fim de semana para Portugal. Na verdade, Vicente encontrava-se em São Tomé e Príncipe

Este episódio acabou por ensombrar ainda mais o clima de crispação entre as duas capitais. Ao inserir o tema na CPLP, Luanda abre caminho para que os restantes países desta comunidade venham a solidarizar-se com a sua causa.

“O Presidente pretende também revitalizar o grupo PALOP — Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa — como uma plataforma que defenda, em bloco, os seus interesses” — revelou fonte diplomática angolana.

“Não voltaremos, como no passado, a fazer ondas com o anúncio de novas medidas, mas este semestre não será, seguramente, para Portugal” — disse ao Expresso um alto funcionário da Presidência.

O recado serve para Lisboa perceber que, ao ser dada prioridade às visitas do chefe do Governo espanhol, Mariano Rajoy, do Presidente francês, Emmanuel Macron, e do Ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergey Lavrov, nos próximos seis meses não haverá espaço para a visita tanto do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa como de António Costa.

Ao trocar Portugal por Espanha, depois da recente visita do secretário de Estado das Relações Exteriores espanhol, Ildefonso Lopez, Luanda aposta na chegada de um assinalável pacote de ajuda financeira. Com a abertura de novas linhas de crédito, Madrid vai reforçar a sua cooperação com Angola nos domínios da indústria de materiais de construção, calçado, ensino superior, pescas e exploração mineira.

Mas é na área do Interior, através da formação de polícias e fornecimento de equipamentos e outros meios logísticos, que incide com maior preponderância a cooperação entre Angola e Espanha.

Em cima da mesa está, no entanto, o pedido de repatriação para Madrid do cidadão português Guilherme Taveira Pinto, acusado em Espanha de ter participado no desfalque de um negócio de 153 milhões de euros com a Defex, empresa pública responsável pela comercialização de armas em Espanha.

Tido como intermediário de algumas operações de venda de armas para Angola em tempo de guerra, o papel deste empresário português foi reconhecido pelas autoridades locais com a outorga da nacionalidade angolana.

A partir de Madrid, a Interpol acionou um mandado de captura, mas sem acordo de extradição entre os dois países, Taveira Pinto continuará a beneficiar da proteção de Luanda.