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Guerra de lama no Tejo

A presidente da Câmara de Nisa observa o contentor com lamas contaminadas retiradas junto a Vila Velha de Ródão e colocado no Pego do Conhal em Nisa

nuno botelho

Enquanto não se esclarece o que originou o manto de espuma do Tejo, aumenta a tensão entre concelhos vizinhos

Carla Tomás

Carla Tomás

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Jornalista

Nuno Botelho

Nuno Botelho

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Fotojornalista

Idalina Trindade sai furiosa do carro e dirige-se para o contentor colocado à beira Tejo, no Pego do Conhal. As mãos arranjadas e o casaco de peles não impedem a presidente da Câmara de Nisa de ajudar o pescador Francisco São Pedro a puxar o linóleo que cobre uma dúzia de sacos com lamas de cheiro nauseabundo. A cena passa-se no final da manhã de quarta-feira, junto ao Monumento Natural das Portas de Ródão, na margem esquerda do Tejo, no concelho de Nisa. Os sacos contêm parte dos sedimentos recolhidos no dia anterior em frente ao porto de recreio de Vila Velha de Ródão, na margem direita do rio, onde está o emissário submarino dos efluentes da Celtejo, da Navigator e da Paper Prime.

“Todos sabemos que o rio tem estado a ser morto pelas indústrias da celulose que estão do lado de cima das Portas de Ródão e não percebo porque vieram pôr estes sacos cheios de porcaria no meu concelho, sem me avisarem de nada”, contesta indignada. “Ainda por cima aqui, num sítio classificado, onde acabámos de inaugurar um percurso pedestre entre aldeias ribeirinhas e junto a uma casa de turismo rural.” Nessa mesma tarde, conta, recebeu “um pedido de desculpas da chefe de gabinete do ministro do Ambiente”, dizendo-lhe que iriam “remover o estaleiro” do seu concelho.

A colocação do contentor naquele local — por onde só se chega de barco ou por uma estrada de terra batida de 4,5 km a partir da aldeia do Arneiro — deveu-se, segundo fonte oficial do Ministério do Ambiente, a considerarem que o local “facilitava o transporte dos sedimentos para a ETAR do Gavião até à obtenção dos resultados analíticos que permitirão encaminhar o resíduo para destino final adequado” e “reduzia o impacto”, já que junto ao cais de Vila Velha há um restaurante e um porto de recreio. O presidente da Câmara de Vila Velha, Luís Miguel Pereira (com quem a autarca de Nisa, sua cunhada, está de relações cortadas), disse ao Expresso “desconhecer” o assunto.

Acumulação ou acidente?

Os sedimentos acumulados no fundo do rio começaram a ser removidos há semana e meia e têm origem em décadas de descargas da indústria de celulose localizada em Vila Velha. Desse passivo ambiental não têm dúvidas os autarcas, nem o ministro do Ambiente, João Matos Fernandes. Mas enquanto Luís Miguel Pereira defende a Celtejo e atribui a poluição do Tejo sobretudo ao que vem de Espanha e aos baixos caudais (ver entrevista no Expresso Diário de quinta-feira), para Matos Fernandes, “a principal causa” para a acumulação de espuma no açude de Abrantes registada há duas semanas “tem que ver com o acumular de sedimentos em frente a Vila Velha, agravados pelos baixos caudais e libertados quando as barragens de Belver e do Fratel começaram a turbinar mais”.

Técnicos aspiram os sedimentos no rio junto ao porto de recreio

Técnicos aspiram os sedimentos no rio junto ao porto de recreio

nuno botelho

A Agência Portuguesa do Ambiente (APA) detetou níveis de celulose na água do Tejo cinco mil vezes acima do normal e indica que a Celtejo é responsável por 90% das descargas para o rio entre Vila Velha e Abrantes. Porém, ainda não está apurado se, além da responsabilidade pelo passivo ambiental, a empresa fez alguma descarga recente fora da licença que lhe foi atribuída em 2016. O resultado das análises feitas à saída da ETAR da fábrica do grupo Altri ainda não estão apurados, porque as amostras só foram recolhidas cinco dias depois das outras (ver caixa).

Esta situação foi considerada “absolutamente insólita e estranha” pelo ministro do Ambiente. Por seu lado, o inspetor-geral do Ambiente, Nuno Banza, sublinha que “nunca” tinha enfrentado tantas dificuldades na recolha de uma amostra. Contudo, garante que os resultados das análises “não serão conclusivos” e que “o enfoque está na investigação policial”.
O Expresso sabe que a PJ designou um perito em informática para analisar as bases de dados das empresas e será esta análise pericial que pode determinar se terá havido algum acidente em janeiro.

A Celtejo continua com as descargas reduzidas a metade até início de março e poderá ver a medida reforçada. Ou seja, está a descarregar cerca de 7500 m3 de caudal com base na licença de 2016 que permite 15 mil m3, mas as contas podem ser refeitas e o corte ainda maior consoante a capacidade de receção do rio, anunciou o ministro do Ambiente na última quarta-feira. A empresa continua a negar um eventual acidente ou responsabilidade nos problemas de recolha de amostras da IGAMAOT. E alega que “a incompetência na recolha, mesmo com a presença das autoridades em permanência no local, é penalizadora para a Celtejo”.

Até agora, a única entidade que a IGAMAOT identificou como tendo descarregado mais do que o permitido foi a ETAR de Abrantes, mas “com valores pouco expressivos”. Políticos e ambientalistas defendem a revisão das licenças de todas as empresas que descarregam no Tejo com base no caudal do rio e sublinham a necessidade de um plano efetivo de monitorização da qualidade das massas de água.

Na quarta-feira, o ministro do Ambiente congratulou-se com os resultados da recolha de sedimentos em curso e da redução das descargas da Celtejo que, em seu entender, permite “termos uma qualidade da água a caminho de boa”. Porém, o movimento proTejo lembra que a ajudar estão “os caudais extraordinariamente elevados vindos de Espanha esta semana, que permitiram uma limpeza da água no Tejo”.

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metros cúbicos (m3) de lamas foram retirados, na terça-feira, do fundo do rio em frente ao cais de Vila Velha de Ródão e colocados num contentor quilómetros abaixo, no concelho de Nisa. O Ministério do Ambiente prevê retirar 12 mil m3 de sedimentos acumulados no fundo da albufeira do Fratel, originários de descargas feitas durante décadas pela indústria da celulose, e encaminhá-los para tratamento

LOCAL DA RECOLHA DE AMOSTRAS NA CELTEJO

Entre 26 e 31 de janeiro, a Igamaot enfrentou uma saga para conseguir recolher amostras para análise no ponto de chegada do efluente da Celtejo. Trata-se de um espaço à beira da estrada de acesso à empresa, vedado por uma rede. O Expresso apurou que no primeiro dia o coletor não funcionou e desconfiaram de um problema na bateria. No segundo dia voltou a falhar e mudaram de aparelho. Ao terceiro dia, desconfiados de que poderia haver sabotagem, colocaram dois coletores novos selados e a GNR a vigiar o local, mas só recolheram espuma. A quarta tentativa aconteceu a 30 de janeiro com a presença de três inspetores que se revezaram na colheita manual da amostra durante 24 horas com sucesso. No dia seguinte, a ARHLVT/APA recolheu amostras com uma sonda no mesmo local sem problemas

Entre 26 e 31 de janeiro, a Igamaot enfrentou uma saga para conseguir recolher amostras para análise no ponto de chegada do efluente da Celtejo. Trata-se de um espaço à beira da estrada de acesso à empresa, vedado por uma rede. O Expresso apurou que no primeiro dia o coletor não funcionou e desconfiaram de um problema na bateria. No segundo dia voltou a falhar e mudaram de aparelho. Ao terceiro dia, desconfiados de que poderia haver sabotagem, colocaram dois coletores novos selados e a GNR a vigiar o local, mas só recolheram espuma. A quarta tentativa aconteceu a 30 de janeiro com a presença de três inspetores que se revezaram na colheita manual da amostra durante 24 horas com sucesso. No dia seguinte, a ARHLVT/APA recolheu amostras com uma sonda no mesmo local sem problemas

nuno botelho