Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

E quem tem fobia de animais, como será quando encontrar um num restaurante?

Tom Williams/ Getty Iamges

Dependendo do nível de fobia, a pessoa “pode simplesmente encontrar a rota ideal de fuga” e abandonar o restaurante ou ter uma reação “completamente descontrolada e de natureza fisiológica, com taquicardia intensa e dificuldade em respirar”, explica Carlos Fernandes da Silva, docente de Psicologia da Universidade de Aveiro. De acordo com uma lei aprovada esta sexta-feira no Parlamento, os animais de estimação vão poder entrar nos restaurantes

Helena Bento

Jornalista

“Não vai acontecer muito, mas vai acontecer e vai ser desagradável. Vai ser desagradável para o dono do animal, para o dono do restaurante e para as restantes pessoas que saíram de casa na esperança de ter um jantar tranquilo.” Assim resume Carlos Fernandes da Silva, docente de Psicologia da Universidade de Aveiro, o que irá acontecer quando uma pessoa com fobia a animais domésticos se confrontar com um num restaurante, situação expectável já a partir de maio, conforme determina a lei aprovada esta sexta-feira no Parlamento.

“Se uma pessoa com fobia a cães souber que dentro de determinado restaurante poderá encontrar um cão, então simplesmente não vai entrar”, tenha o animal um aspeto amigável ou não ou esteja preso com trela curta e impedido de circular livremente, bem como de se aproximar de zonas de serviços ou onde existam alimentos, regras descritas na lei aprovada. “A fobia é algo completamente irracional, sobre a qual as pessoas não têm absolutamente nenhum controlo e muitas vezes nem sabem porque é que têm medo, simplesmente têm”, diz o especialista em entrevista ao Expresso.

Jorge Gravanita, da Sociedade Portuguesa de Psicologia Clínica, corrobora estas palavras. “A fobia a animais, a cães por exemplo, não está ligada a questões de higiene ou barulho que o animal possa eventualmente fazer. As pessoas não conseguem mesmo controlar e o que fazem é evitar o contacto com aquilo que lhes provoca a tal fobia.”

Então se o animal aparecer quando a pessoa com fobia já se encontra do restaurante? O que sucede nesses casos? “Aí será bem mais complicado, para a própria pessoa e para as restantes que ali se encontram”, diz Carlos Fernandes da Silva, explicando que, dependendo do nível de fobia - que pode ser leve, moderado ou grave -, a pessoa “pode simplesmente encontrar a rota ideal de fuga” e abandonar o restaurante, depois de ficar “ligeiramente ansiosa, mas sem entrar em pânico”, ou ter uma reação “completamente descontrolada e de natureza fisiológica, com ansiedade, taquicardia intensa, dor no peito ou dificuldade em respirar, sensação de pânico, palidez, diarreia, urgência em urinar e sudorese”, que a levará a fazer tudo o que estiver ao seu alcance para abandonar de imediato o restaurante. Incluindo “correr sem olhar para o percurso, provocando acidentes pessoais e também nos outros”. Pode ainda, segundo o especialista, ter uma “reação vagal”, vulgo desmaio, e “simplesmente cair e perder os sentidos”.

Dentro das fobias, a prevalência de fobia a animais é “baixa”, segundo o especialista (entre 10% a 15%), e portanto não se espera que estas situações ocorram com muita frequência. No entanto, quando acontecer não será “agradável”. Até porque o animal irá perceber todas estas alterações. “Como se trata de uma reação de medo, há libertação para o sangue de substâncias químicas que estão associada à resposta de medo, entre as quais a adrenalina”. Muitas destas substâncias, continua Carlos Fernandes da Silva, “são voláteis, ou seja, saem do nosso corpo e espalham-se e desencadeiam nos cães mecanismos de defesa que vão levá-los a reagir”. E o reagir vai desde o fugir ao rosnar e ao atacar, “o que ainda será pior para a pessoa com fobia”.

Embora admita que um eventual comportamento de fuga por parte da pessoa com fobia possa “despertar um instinto predador no animal” - até porque o “animais são muito sensíveis a situações nas quais as emoções possam estar descontroladas”, e são-no “até mais do que as pessoas” -, Jorge Gravanita não espera reações violentas. “Em princípio, os animais que vão estar dentro destes restaurantes já estão domesticados e educados, e eles próprios já terão uma certa habituação ao ser humano. Por isso, à partida, não vão ter reações muito bruscas às reações das pessoas.”