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Esmond, o corajoso: mataram o homem que queria salvar os elefantes e rinocerontes

TAO CHUAN YEH/ Getty Images

Morreu Esmond Bradley-Martin: cravaram-lhe uma faca no pescoço. Há alguma relação com o seu trabalho? Isso ainda ninguém sabe. Mas “é natural que tenha sido por isso”

A forma de vestir de Esmond Bradley-Martin, 75 anos, era peculiar. A cor e os padrões das gravatas distinguiam-no. No bolso do casaco trazia sempre um lenço de cor garrida. Mas havia (e há) algo que realmente o distingue dos demais: o amor pela vida selvagem, o trabalho e a investigação na luta contra o tráfico de marfim. Expôs o comércio ilegal de chifres de rinocerontes e elefantes nos EUA, no Congo, na Nigéria, em Angola, na China, em Hong Kong, no Vietname, em Laos e Myanmar.

“Tinha duas características muito importantes: perseverança e coragem. Trabalhou ao longo da vida várias vezes como infiltrado em locais e situações mesmo muito perigosas. Não é para qualquer um. Nesses meios, as pessoas estão ligadas não só ao tráfico de marfim mas também ao tráfico de drogas ou a coisas piores”, considera João Branco, presidente da Quercus. “Não se sabe o contexto em que foi morto, mas é natural que tenha sido por causa do trabalho que desenvolvia.”

Esmond Martin regressara há pouco de Myanmar. Estava a passar para o papel as mais recentes descobertas. Foi em sua casa, não muito longe de Nairobi, no Quénia, que o mataram, este domingo - cravaram-lhe uma faca no pescoço. A mulher Chryssee Martin, que também foi muitas vezes colega de trabalho do investigador, encontrou-o. Não há dúvidas de que foi assassinado. A polícia acredita ter-se tratado de um assalto que correu mal.

Há ambientalistas a serem mortos em todo o mundo, sobretudo em países de África e da América do Sul. Matam essas pessoas e aqui no ocidente nem sabemos. Salvo erro, o ano passado foi um dos anos em que mais ambientalistas foram mortos. Por exemplo, no Brasil várias pessoas que tentavam proteger a floresta amazónica foram mortas”, diz João Branco.

TIM SLOAN/ getty Images

Esmond Bradley-Martin, nascido nos Estados Unidos, viajou para o Quénia em 1970, quando começou o questionar o grande número de elefantes e rinocerontes mortos no país. “Nessa época, cerca de 20 mil rinocerontes foram chacinados. Por volta dos anos 90, a maior parte já tinha sido eliminada. O puzzle era: porque é estão a ser mortos e para onde estão a ir os chifres?”, questionou um dia Esmond Bradley-Martin à “The East African Magazine For Intrepid Travellers”. Esta foi uma das poucas entrevistas que deu. Não era homem de protagonismos, mas era protagonista de admirações: entre a comunidade ecologista diz-se que ele é “um dos maiores heróis anónimos da conservação”.

Um investigador de verdade

Quase todas as partes do rinoceronte são usadas para fins medicinais na Ásia. O chifre serve para baixar a febre, a pele para doenças dermatológicas, o sangue é consumido como um tónico, a urina para as tosses e para os mais pobres, as unhas são o equivalente aos chifres. São mais valiosos para usos medicinais, sempre foram. Já o marfim dos elefantes, cerca de 40%, ia para o Japão, 20% para a Europa e entre 10% a 15% para os EUA. A questão é: se queremos salvar os animais, temos de saber como funciona o mercado e combatê-lo.” Considerações de Esmond Bradley-Martin, que muitas vezes se fez passar por comprador ou vendedor neste meio só para compreender como funcionava.

Uma das suas maiores conquistas foi na China, onde pressionou o Governo para banir o mercado de compra e venda de chifres em meados dos anos 90. A proibição entrou em vigor no ano passado e Esmond Bradley-Martin conseguiu que deixasse de ser legal a venda de marfim.

O trabalho meticuloso no mercado do marfim e chifres de rinocerontes levou-o muitas vezes às zonas mais remotas e perigosas. O horários intensos teriam deixado alguém com metade da sua idade cansado. Foi uma peça-chave na revelação de que o preço do marfim na China caiu a pique após o Governo chinês se ter comprometido a fechar o mercado interno. Era meu amigo há 45 anos, a sua perda é terrível pessoal e profissionalmente”, sublinha Iain Douglas-Hamilton, zoólogo e fundador da organização Save The Elephants, em declarações reproduzidas pela site das Nações Unidas.

Multiplicam-se as homenagens ao homem que “foi um ícone da conservação”, sobretudo entre as organizações ambientalistas e de defesa dos animais e na comunidade científica. “Era uma das poucas pessoas que fazia um verdadeiro trabalho de investigação sobre o tráfico de chifres de marfim. O seu trabalho ajudou os ecologistas a redirecionarem os seu esforços. Uma autoridade global”, referiu Paula Kahumbu, especialista em elefantes da Wildlife Direct, no Quénia. “Era conhecido pelo absoluto rigor e precisão na metodologia e relatórios. Garantiu um futuro estável para os rinocerontes e elefantes em vida selvagem”, acrescentou Lisa Rolls, que lidera a “Wild for life”, uma campanha ambiental das Nações Unidas.