Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

A minha escola é melhor do que a tua?

A Secundária Garcia de Orta, no Porto, teve a média mais alta nos exames de 2017

Rui Duarte Silva

Entre as escolas públicas, a Secundária Garcia de Orta, no Porto, teve a média mais alta nos exames nacionais do ano passado. A um quilómetro dali, no eixo do Avenida da Boavista, o Colégio Nossa Senhora do Rosário repetiu o feito pelo quarto ano e atingiu a classificação mais elevada. Outras escolas dão nas vistas porque ajudam os alunos a melhorar mais do que outras. Mesmo em condições adversas. São vários os rankings possíveis a partir dos dados do Ministério agora disponíveis. A análise (possível) é sua

Isabel Leiria

Isabel Leiria

Texto

Jornalista

Sofia Miguel Rosa

Sofia Miguel Rosa

Infografia

Jornalista infográfica

Rankings. Para uns é apenas um exercício anual mais fútil do que útil. Para outros é só uma curiosidade imediata e rápida, que se esgota com a consulta da “posição” em que está a escola dos filhos e, no limite, talvez o liceu onde se andou. Mas a verdade é que são várias as análises possíveis, sobretudo desde que o Ministério da Educação (ME) passou a disponibilizar alguns dados de contexto, que ajudam a conhecer um pouco a população que frequenta cada escola. E a tornar evidente também que cada estabelecimento de ensino luta em terreno e com armas — neste caso alunos — diferentes.

Mas também é verdade que, mesmo comparando escolas em circunstâncias semelhantes, umas levam os estudantes a conseguir melhores resultados escolares do que outras. Porquê? De que forma? Estratégia ou acaso? São as perguntas que verdadeiramente importa fazer e que, sem a informação disponibilizada, nunca sequer poderiam ser formuladas. Nestas páginas procuramos as respostas.

O Ministério dá os dados e a partir daí todas as ordenações são possíveis. Há o campeonato dos colégios privados, que cobram mensalidades e escolhem os seus alunos, e que nos últimos anos tem sido dominado pelo Nossa Senhora do Rosário, no Porto. É o quarto ano consecutivo em que apresenta os resultados mais altos na lista do Expresso, que tem em conta apenas as secundárias onde se realizaram 100 ou mais provas.

Mas o colégio localizado na Avenida da Boavista não vive apenas à sombra dos resultados que os seus bons alunos conseguem e distingue-se igualmente no indicador que, para o Ministério, é mais justo utilizar: a comparação entre os percursos dos alunos ao longo do secundário numa dada escola e o valor encontrado para todos os outros que entraram no 10º ano com notas idênticas.

Uma das críticas que sempre foram feitas aos rankings é que comparavam o incomparável. Para atenuar esta limitação, o ME começou a divulgar um indicador a que chamou “percursos diretos de sucesso”: conjuga a avaliação nos exames e a dada pelos professores pelo trabalho ao longo dos três anos e, sobretudo, considera o nível dos estudantes que a escola recebe à entrada do secundário.

Para se sair bem neste indicador, de nada adianta selecionar alunos, chumbá-los para que só restem os melhores e garantir as notas mais altas nos exames. O que conta é o nível de partida e o nível de chegada — quantos na escola x não chumbam nem no 10º, nem no 11º e têm positiva nos exames do 12º, em comparação, não com o país inteiro, mas com colegas que entraram no secundário com notas semelhantes.

Mais notas positivas

Este é outro dos rankings que se podem construir e, nesta lista, encontram-se nas posições cimeiras escolas públicas, privadas (a maioria) e com contrato de associação (colégios que por serem financiados pelo Estado não podem selecionar os alunos nem estes pagam propinas). É o caso do Colégio de São Miguel, de Fátima, que apresenta a maior diferença, pela positiva, de percursos de sucesso. E foi de lá que saiu um dos dois alunos que entraram este ano letivo na universidade com a média de candidatura mais alta (199 valores em 200 possíveis). Há escolas do litoral e do interior, como as secundárias de Arganil, Oliveira dos Frades ou Abel Botelho, em Tabuaço.

Num ranking que ordena simplesmente as escolas pelas médias nos exames nacionais, a Abel Botelho surge abaixo da 500ª posição. No ranking das que mais ajudam a melhorar os alunos em comparação com colegas de nível semelhante aparece em 27º. E há as que fazem o pleno, marcando posição em ambos.

Quantos aos resultados nas provas, em 2017 subiu o número de secundárias com média igual ou superior a 10 valores. Olhando para o universo de 522 onde se realizaram 100 ou mais exames, 75% atingiram ou ultrapassaram esse patamar. Em 2016 e em 2015 tinha acontecido com 69%.

Há ainda análises regionais que se podem fazer, e constatamos que o concelho da Trofa se distingue este ano por ter a média mais alta no secundário, muito graças aos bons resultados do Colégio da Trofa e à Secundária da Trofa, que entrou diretamente para o top 10 das públicas. Há mais alterações nas classificações mais elevadas, com a entrada da Eça de Queiroz (Póvoa do Varzim), da Quinta do Marquês (Oeiras) e da Carlos Amarante (Braga). Com estas estreias e, claro, a do Garcia da Orta, a pública com média mais alta em 2017 — destronando o Filipa de Lencastre (Lisboa) —, o Porto tornou-se a nível nacional o distrito com classificação mais elevada logo seguido de Lisboa, Braga e Coimbra.

Neste conjunto de escolas, há fatores que se repetem: a maioria dos pais frequentou o ensino superior e a percentagem de alunos apoiados pela ação social escolar (ASE) é baixa. Mas como em todas as regras há exceções. E voltamos ao caso da Trofa: as habilitações médias dos pais são inferiores ao 9º ano e um terço dos estudantes recebem apoio. Ainda assim, apresentam resultados acima do que seria de esperar. É a história destes casos que também pode ser contada pelos rankings.

Mas há mais. Pela primeira vez, passaram a estar disponíveis dados, ainda que poucos, sobre o ensino profissional, frequentado por cerca de 120 mil alunos do secundário.