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“As relações humanas esbatem-se, tudo se confunde”: o que leva uma criança a tentar matar outra?

Morgan e Anissa tentaram matar Payton numa floresta em Waukesha, no estado do Wisconsin

John Greim/ Getty Images

Morgan e Anissa tinham 12 anos quando tentaram matar uma colega de escola numa floresta. Diziam fazê-lo em nome do Slender Man, uma personagem fictícia. Queriam impressioná-lo. A realidade misturou-se com a fantasia - “uma das consequências mais graves do muito tempo que os jovens passam a jogar”. As duas foram condenadas a penas em instituições psiquiátricas. Morgan só sairá quando completar 62 anos. Anissa aos 37. Aconteceu na América em 2014, uma das condenações foi proferida agora

Morgan Geyser e Anissa Weier, 12 anos, esfaquearam 19 vezes uma colega de escola, Payton Leutner, 11 anos. Acertaram-lhe no fígado, no pâncreas e no estômago. Por poucos milímetros não perfuraram uma artéria do coração. As duas planearam o assassinato porque queriam ser servas do Slender Man, uma personagem fictícia – uma espécie de bicho papão. Sentiam que não tinham outra hipótese: acreditavam que se não matassem a colega seriam perseguidas e as suas famílias magoadas. Payton sobreviveu aos ferimentos. Morgan e Anissa foram julgadas por tentativa de homicídio e foram condenadas, respetivamente, a 40 e a 25 anos numa instituição psiquiátrica.

Muitos destes jovens crescem sem noção da diferença entre o que é a realidade e o virtual. É uma das consequências – possivelmente a mais grave – do muito tempo que passam com os jogos. As relações humanas esbatem-se, tudo se confunde e tudo se mistura. Perde-se o que são as relações humanas”, explica ao Expresso Augusto Carreira, diretor da Área de Psiquiatria da Infância e Adolescência do Hospital Dona Estefânia, em Lisboa. “Não me admira que depois os jovens entre eles tenham os mesmo comportamentos que têm nos jogos. Nos jogos, a vida, a morte e ressuscitar são algo que se faz constantemente apenas com um click. Os valores perdem-se. Matar torna-se quase banal, mas nos jogos faz-se reset e tudo se resolve.”

Foi precisamente nesse mundo virtual que Morgan e Anissa descobriram o Slender Man. Mais do que evitar que algo de mal acontecesse às famílias, esperavam vir a ser uma espécie de mandatárias ou servas da criatura, que lhes daria abrigo numa mansão na Floresta Nacional Chequamegon-Nicolet, no estado norte-americano do Wisconsin.

Sábado. 31 de maio de 2014. Morgan e Anissa jogavam com Payton às escondidas numa zona de floresta da cidade de Waukesha, depois de terem estado todas juntas numa festa de pijama para celebrar um aniversário. Tinham preparado tudo para que o sacrifício fosse feito numa casa de banho pública, mas isso não chegou a acontecer. As duas raparigas agarraram a vítima e esfaquearam-na 19 vezes. Depois fugiram dali, deixando Payton viva.

Payton conseguiu arrastar-se pelo bosque. Um ciclista encontrou-a e alertou os serviços de emergência. A polícia viria a encontrar as duas quatro horas depois do crime.

Para Augusto Carreira, não é possível definir um perfil, embora habitualmente os jovens que se deixam manipular e influenciar apresentam “padrões de socialização que não são os desejáveis”, ou seja, pessoas mais isoladas, com dificuldade nas relações humanas.

Em tribunal, a primeira luta da defesa foi assegurar que Morgan e Anissa eram julgadas como menores. Posteriormente, foi provado que ambas estavam mentalmente doentes na altura em que tudo aconteceu.

“A vida humana é demasiado importante e estes atos não podem ser desvalorizados. Mas ao mesmo tempo temos de nos questionar, e eu questiono-me frequentemente, se encarcerar uma criança de 12 anos é a melhor solução. A privação da liberdade, por si só, não reeduca. Há que ter em consideração outros fatores: o grau de consistência, se foi um gesto num momento em que não distinguia a realidade da fantasia, a potencial recuperação”, defende Augusto Carreira.

Morgan foi dada como culpada de tentativa homicídio de primeiro grau. Esta quinta-feira foi condenada a 40 anos e, em vez de cumprir pena de prisão, vai ser internada numa instituição psiquiatria. A defesa já admitiu que assim que seja legalmente permitido vai pedir que a jovem saia em liberdade condicional. “Só quero que a Bella [alcunha de Payton] e a família dela saibam que me arrependo”, disse Morgan em tribunal, citada pela Associated Press.

Anissa já conheceu a sua pena em dezembro. Uma vez que participou sem ter esfaqueado, foi condenada por tentativa de homicídio em segundo grau. À semelhança de Morgan, a pena vai ser cumprida numa instituição psiquiátrica mas a duração é mais reduzida. “Quero que todos saibam que me arrependo de tudo o que aconteceu naquele dia. Sei que nada do que possa dizer endireitará as coisas, nem vai emendar o que fiz.”

Slender Man: o que é?

O Slender Man é uma personagem descrita como um homem-espectro alto e magro, sem rosto, vestido de negro. Dizem que persegue, rapta e tortura pessoas, sobretudo crianças.

A imagem foi criada em 2009 e publicado em sites e fóruns de terror. O mito foi-se criando e fotografias e vídeos em que a criatura surgia começaram a ser também partilhados online. Escreveram-se histórias, inventaram-se casos. O sucesso levou a que a personagem fosse transportada para jogos de vídeo, filmes e séries do Youtube.

Em Portugal, um dos casos mais recentes envolvendo jogos online com consequências na vida real de crianças e jovens foi o fenómeno da Baleia Azul, em que eram propostas 50 tarefas que incluíam cortes no corpo e, no limite, o suicídio. Até novembro de 2017, as comissões de proteções de crianças e jovens sinalizaram 48 situações relativas à prática do jogo. Uma pessoa morreu.

“O que estamos a fazer enquanto sociedade para que os nosso jovens tenham que procurar a satisfação nestas coisas? Essa é uma pergunta sem resposta. Mas que estamos a fazer algo muito mal, estamos”, refere o pedopsiquiatra português.