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O legado de Calouste Gulbenkian e os dinheiros do petróleo

Como o senhor 5% construiu a sua fortuna e criou a maior Fundação existente em Portugal. No dia em que é noticiado que a Gulbenkian está a negociar a venda dos petróleos, o Expresso republica um artigo de 2005

Meio século depois da morte de Calouste Sarkis Gulbenkian (20 de Julho de 1955), de todos os segredos que preencheram os seus 86 anos de vida permanece por desvendar o principal enigma: por que razão estabeleceu o multimilionário arménio a sua Fundação em Portugal. Sabemos que Londres e Washington lhe ofereciam todas as vantagens, não apenas ao nível cultural, mas também aos níveis político e fiscal. E Lisboa, que no início dos anos 50 nem sequer constava dos roteiros artísticos internacionais, vivia ainda longe do ambiente democrático da Europa que então se erguia das cinzas de uma guerra contra a ditadura de Hitler. Contudo, um mês antes de morrer, deixava em testamento a instituição que iria revolucionar o panorama cultural e científico do país, e que, por sua vontade, tomou o seu nome - Fundação Calouste Gulbenkian.
Quando, em Abril de 1942, Gulbenkian e a mulher visitam Lisboa a convite do embaixador de Portugal em França, Gama Ochôa, o que o atrai é o ambiente social calmo, a situação política segura e o sol ameno da cidade que ele próprio considera ser «a porta da Europa para a América». A visita foi definitiva. O magnata nunca mais saiu do país que o acolheu e ao qual ele deixou a sua fortuna.
Não foi o petróleo que lhe incutiu o gosto pela arte, mas sim os negócios do «ouro negro» que lhe possibilitaram a aquisição de obras-primas, muitas das quais compradas em circunstâncias sigilosas como as transacções efectuadas com o então recém implantado regime dos sovietes em Moscovo. A sua primeira colecção foi um conjunto de moedas compradas na sua terra, Scutari (Turquia), quando tinha apenas 14 anos, com 50 piastras que recebera do pai como compensação do seu sucesso escolar. Filho de uma família arménia de prósperos comerciantes, a sensibilidade para os negócios e o requinte artístico adquiriu-os no interior da sua própria casa. Mas é a partir de 1891, quando já privava com os mercados petrolíferos, que começa a manifestar-se um exímio coleccionador que nunca descorou a beleza estética, a autenticidade e o bom estado de conservação de cada obra que adquiria. Tinha então apenas 22 anos. E o seu recrutamento para o mundo da alta finança foi feito pelo ministro de Minas do Governo Otomano, depois de ter lido os seus artigos sobre os campos petrolíferos de Baku (Transcaucásia), em resultado de uma viagem àquela região do Cáucaso, na qual se inclui a Arménia, seu país de origem familiar.

Foi a formação académica - licenciou-se em engenharia em 1887 pelo King's College, de Londres -, que lhe possibilitou assumir um papel de destaque no desenvolvimento da exploração da nova fonte de energia. A sua perícia fê-lo ascender ao grupo dos fundadores da Royal Dutch-Shell e a estabelecer relações com as indústrias petrolíferas americanas e russas. O caminho para a fortuna estava assim iniciado. Depois de ser nomeado conselheiro financeiro das embaixadas otomanas em Londres e Paris, o seu talento de negociador ganha peso entre os interesses financeiros do «ouro negro». E quando a Turkish Petroleum Company se reorganiza e negoceia com as principais empresas petrolíferas, Calouste Gulbenkian apresenta-se como importante mediador, o que lhe vale a compensação de receber a participação de cinco por cento no capital daquele importante grupo. Entretanto rebentara a I Guerra Mundial que destabiliza todo o mundo do petróleo. Ele traça então (1928) a lápis vermelho, num mapa que ele próprio mandara elaborar, as fronteiras das regiões onde se concentram todos os recursos petrolíferos do Médio Oriente. É com o atrevimento deste gesto que o magnata consolida a sua posição na indústria que ainda hoje significa importante suporte financeiro à sua Fundação.
Calouste Gubenkian e a mulherl

Calouste Gubenkian e a mulherl

Na história das suas infindas viagens em busca de obras de arte - por terras tão diversas como a Áustria ou a Palestina, a França ou a Itália ou mesmo a Holanda ou o Egipto -, deparou-se com a impossibilidade em adquirir um Goya... Foi apenas quatro anos antes de morrer que o coleccionador se mostrou «realmente apaixonado» pelo Retrato da Condessa de Chinchón. Em todo o seu acervo não havia um único quadro do pintor espanhol e era apenas este que ele pretendia. «Mas não lhe interessava ter uma obra de Goya só porque era de Goya; a sua assinatura no quadro não o satisfazia; o que ele pretendia era possuir um quadro de primeira categoria, que pudesse ombrear com as muitas obras-primas já existentes na sua colecção». Pelas palavras de Azeredo Perdigão, em Calouste Gulbenkian Coleccionador, se percebe que o que movia o mecenas na sua busca de obras de arte era a qualidade e o prazer estético. Para seu desgosto, Gulbenkian não conseguiu integrar aquele Goya na sua imensa colecção (mais de seis mil peças, desde a época dos Faraós ao século XX) e apenas por Espanha não ter admitido a sua saída. Na verdade, Gulbenkian nunca se eximiu a desembolsar avultadas somas de dinheiro pelas peças que o fascinavam. Logo um ano depois de chegar a Lisboa despende um milhão de escudos pelo Retrato de Duval de L'Epinoy, de Maurice-Quentin de La Tour, e por um jarro de jaspe e ouro do século XVIII. A exorbitante quantia foi paga sem discutir ao barão de Rothschild em Junho de 1943.
O milionário preferia as transacções directas e sigilosas às que envolvessem agentes e comissões. Mantinha nas diversas praças internacionais especialistas e consultores que o informavam atempadamente das peças disponíveis nos principais mercados de arte e lhe garantiam a autenticidade e o valor das peças. E apesar de entre os diversos conselheiros figurarem o director da National Gallery de Londres, sir Kenneth Clark, ou Schmidt Deggener, director do Real Museu de Amesterdão, era a sua escolha que prevalecia. Em Dezembro de 1947, quando o antiquário George Davey, com escritórios em Londres, Paris e Nova Iorque, lhe sugeriu a compra de uma paisagem de Albert Cuyp, pintor holandês do século XVII, Gulbenkian contrapõe: «A composição parece-me boa, mas acho que o 'ensemble' tem falta de inspiração e é bastante artificial. O que eu aprecio nos quadros é, sobretudo, o sentimento». E, como conta Azeredo Perdigão, no final da carta dirigida ao 'marchant', o magnata manifesta os princípios que sempre orientavam a escolha das colecções: «Como sabe, estou cada vez mais exigente; não tão desejoso de ampliar o número de obras que possuo, como de melhorar, por selecção, a sua qualidade».
Enquanto os seus negócios evoluíam, obrigando-o a deslocar-se entre Paris e Londres (onde manteve dois escritórios até à sua morte), Calouste Gulbenkian decide-se, em Junho de 1953, a redigir o testamento final, no qual institui «uma fundação portuguesa, com sede em Lisboa», como recorda Azeredo Perdigão (ver texto na pág.22). Para trás ficavam histórias de aquisições que o obrigavam a uma leitura sistemática de temas da especialidade, a uma troca quase permanente com especialistas e negociantes e a tomar contacto directo com as obras dos numerosos museus que visitava. Dos episódios que se revestem de maior curiosidade, as quatro operações realizadas com o Governo de Moscovo entre 1928 e 1930 constituem um dos seus mais arrojados planos. As negociações com o poder do Kremlin iniciaram-se em Paris e aqui, contrariamente ao que se passou com Espanha, o coleccionador conseguiu adquirir todas as obras que pretendia. A União Soviética esvaziava as colecções dos seus museus para fazer face às dificuldades financeiras resultantes da Revolução do Exército Vermelho. E Gulbenkian não se eximiu mesmo de, antes de cada compra, enviar para a Rússia peritos da sua confiança, que lhe identificavam as peças e vigiavam a sua embalagem. E se o primeiro contrato abrangeu 24 peças de ourivesaria francesa e diversas pinturas, a mais extraordinária transacção, além de dois quadros de Rembrandt incluiu a famosa estátua de Diana, de Houdon. Curiosamente, as autoridades soviéticas declinavam toda a responsabilidade sobre cada uma das peças depois delas passarem a sua fronteira. Caso o governo de um outro país as apreendesse, Gulbenkian não podia reivindicar a sua posse, nem reclamar a indemnização por parte de Moscovo.
Já em Portugal

Já em Portugal

Cada uma das peças que ia acrescentando à sua colecção merecia do milionário uma atenção particular. Passava horas sozinho a admirar as obras que, mesmo antes de as adquirir, já conhecia em pormenor. Uma forma de se desobrigar dos cuidados que os negócios lhe exigiam, conforme confessava aos mais íntimos. A sua biblioteca particular era outro dos seus refúgios. No eclectismo dos milhares de obras - escultura, mobiliário, jardins, aves, numismática e têxteis, entre outras temáticas -, o mecenas não cultivava apenas o seu gosto profundo pela Natureza e pela arte, mas aprendia também a actualizar os seus conhecimentos sobre os diversos interesses que acalentava.
A sua origem arménia nunca a recusou nem esqueceu. E se disponibilizou meios para a preservação e divulgação da cultura do seu país, mandou construir, em Jerusalém, a maior biblioteca da diáspora do seu povo. O Patriarcado Arménio de Jerusalém mereceu-lhe uma reverência muito especial que a própria Fundação continuou, pagando o subsídio que ele determinara em testamento. Mas foi ao seu país de adopção, Portugal, que Calouste Gulbenkian entregou o mais significativo legado de toda a sua vida de magnata. Salazar recebeu-o de braços abertos. Até hoje, 50 anos depois da sua morte, nunca foi desvendado o relacionamento entre o ditador e o cidadão arménio, fugido ao genocídio do seu povo e que se afirmava um democrata. O pai do Estado Novo sabia de antemão que os propósitos culturais e filantrópicos do milionário não marchavam ao mesmo ritmo do cinzentismo do regime. Mas Gulbenkian, que não gostava de privar com o Governo de Salazar (ver entrevista com a ex-assessora do magnata, madame Knott), demonstrou a gratidão ao país que o acolheu deixando-lhe como herança a «sua» Fundação que já beneficiou «um número inquantificável de portugueses» nas suas diferentes vertentes, desde o campo da ciência à cultura. Assegura Jorge Wemans, responsável pelo Departamento de Comunicação da instituição, anotando que «só nas quatro décadas em que funcionaram as bibliotecas itinerantes foram emprestados 97 milhões de livros», concedendo actualmente mais de seis mil bolsas por ano.

a assinatura de Gulbenkian

a assinatura de Gulbenkian

Os dinheiros do petróleo

Desde a sua constituição legal em 1956, os rendimentos do petróleo constituíram uma das mais importantes fontes de financiamento da Fundação Gulbenkian. À data da sua morte, no ano anterior, Calouste Gulbenkian detinha uma participação de 5 por cento na Iraq Petroleum Co. e noutras companhias do sector, que, além de uma avultada quantia em dinheiro e títulos, legou em testamento à Fundação. Esta percentagem, que representava um rendimento anual de 4 milhões de libras esterlinas, serviu de base a uma história de sucesso que a 31 de Dezembro de 2004 registava um fundo de capital de 2,3 mil milhões de euros, o dobro dos 1,3 mil milhões de euros apurados em 1993. Isto é, a dotação inicial de 1956 (2,3 milhões de contos ou 11,5 milhões de euros) foi multiplicada por 200! Apesar da diversificação dos investimentos, quase cinco décadas passadas, o «ouro negro» ainda financiou 23 por cento da despesa total da FG, que, em 2004, ascendeu a 100 milhões de euros, contra os 70 por cento do retorno das aplicações financeiras (títulos, acções, depósito em moedas e fundos de investimento imobiliário) e os apenas 7 por cento das receitas geradas pelas diversas estruturas que a instituição alberga na sede situada na Avenida de Berna.
Embora muito produtiva, a relação da Gulbenkian com o petróleo nem sempre foi pacífica. O golpe mais rude foi infligido nos anos 70 pelo Iraque, que na sequência da Guerra dos Seis Dias decidiu nacionalizar o sector. Todas as concessões foram revogadas e os rendimentos petrolíferos ficaram circunscritos aos oriundos das explorações dos Emirados Árabes.
A Fundação foi então obrigada a dar prioridade aos seus investimentos no mercado de capitais. O «desinteresse» pelo «ouro negro» mantém-se até à década de 90, altura em que adquire participações no Cazaquistão e na Argélia. Há dois anos, o Brasil surge como o «mercado prioritário» da Partex Oil and Gas Corporation, a «holding» detentora das participações de capital da FG no sector. Actualmente, os rendimentos petrolíferos da Fundação são retirados de uma produção anual de 14 milhões de barris, que correspondem a 14 por cento das necessidades de consumo de Portugal. Metade provém do Sultanato de Omã, com o qual a FG renovou no final ano o contrato de concessão até 2044.
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