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“Estamos habituados ao sucesso e quase esquecemos a importância dos detalhes”: o dia em que sete astronautas não regressaram a casa

Mario Tama/ Getty Images

O vaivém-espacial Columbia deveria ter voltado à terra. Mas algo correu mal. À entrada da atmosfera desintegrou-se. A bordo seguiam sete astronautas que sabiam que alguma coisa não estava bem, embora “muito provavelmente nunca pensaram que iria explodir”. Foi há 15 anos

A chegada estava marcada para pouco depois das 8h de 1 de fevereiro de 2003. Mas nunca aconteceu. O Colombia e os sete astronautas que participavam na missão espacial nunca regressaram a casa. O vaivém, que deveria ter aterrado no Kennedy Space Center, no estado norte-americano da Florida, desintegrou-se quando entrou na atmosfera. Demorou alguns minutos. Ninguém sobreviveu.

“Dias como o de hoje servem para relembrar aqueles que morreram, mas também para recordar a dificuldade e complexidade que é a exploração espacial.” Ana Mourão, professora de Física e investigadora do Centro de Astrofísica e Gravitação (CENTRA) do Instituto Superior Técnico, lembra-se perfeitamente do dia: onde estava, com quem estava, o que fazia. “A minha primeira reação foi levantar a cabeça e olhar para o céu. Fiquei muito impressionada. Estamos tão habituados ao sucesso e quase esquecemos a importância dos detalhes. Um voo de shuttle é complicadíssimo.”

Getty Images

Há 15 anos, Rick D. Husband, William C. McCool, David M. Brown, Kalpana Chawla, Michael P. Anderson, Laurel B. Clark e Ilan Ramon (primeiro astronauta israelita) estava a cerca de 16 minutos de aterrarem quando começaram os primeiros sinais de que algo não estava bem, mas “muito provavelmente” nunca pensaram que iriam explodir. O Columbia começou a girar descontroladamente, foi aí que a tripulação terá tentado fazer alguma coisa para recuperar o controlo.

Sete minutos depois, no centro de controlo de operações perde-se o contacto com o vaivém. A pressão na cabine desceu muito rapidamente. Nos segundos seguintes, a explosão. O Columbia ainda sobrevoou a Califórnia, acabaria por se destruir já no Texas. Segundo o relatório da Agência Espacial Americana (NASA), divulgado em 2008, naquele momento nada poderia ter sido feito para evitar a morte dos sete tripulantes.

“Perdemos o Columbia. Não há sobreviventes”, anunciou George W. Bush, na altura presidente dos Estados Unidos. "A equipa do Columbia não regressou à Terra em segurança, só podemos rezar para que estejam em descanso. Abençoadas sejam as famílias de luto.” Dos sete tripulantes, seis eram casados. 12 crianças ficaram sem pai ou mãe.

Mas o que falhou?

Matt Stroshane/ Getty Images

Tudo indica que o problema tenha estado no lançamento do vaivém, a 16 de janeiro. Uma peça do isolamento soltou-se e perfurou a asa da nave. “Situações semelhantes já tinham acontecido e ninguém se apercebeu da gravidade. Na reentrada, deu origem a que a asa fosse completamente destruída. Acabou por se desfazer”, explica Ana Mourão.

Esta quinta-feira, quando se assinalam os 15 anos do acidente, a NASA homenagem aos tripulantes do Columbia. No total, 17 astronautas morreram em serviço. Além do Columbia, também as missões do Apollo 1 (1967) e do Challenger (1986) fizeram vítimas.

“Continua a ser muito arriscado mandar pessoas ao espaço. Estamos a falar de tecnologia de ponta e de uma enorme complexidade. Parece-nos fácil porque há muito trabalho por trás. [Os astronautas] são de facto heróis, seja os que deram a vida por isto, seja os que regressaram das missões ou os que estão na estação espacial.”

Naquele 1 de fevereiro, o Columbia preparava-se para aterrar pela 28º vez na Terra.