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“Queremos saber quantos professores estão doentes e a dar aulas. Essa estatística não existe”

José Carlos Carvalho

Pretende ser o maior estudo de sempre sobre o desgaste emocional dos professores, “burnout” incluído”, e sobre as condições em que estes trabalham - se há cansaço, desânimo, desmotivação ou, pelo contrário, alegria. Ainda não há conclusões - essas serão divulgadas em junho - mas já há algumas certezas. “Estamos a assistir a um adoecimento inédito dos professores nas últimas quatro décadas”, diz Raquel Varela, investigadora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova e coordenadora de um estudo em curso sobre o desgaste dos professores, realizado em parceria com a Fenprof

Helena Bento

Jornalista

Foram já feitos diversos estudos sobre os efeitos psicológicos que resultam do exercício continuado da profissão docente, do excessivo número de horas de trabalho e da excessiva carga extraletiva. O que pretende este estudo acrescentar?
Isto é um estudo não só sobre o desgaste emocional e o chamado “burnout”, mas também sobre as condições de vida e sobre a vivência subjetiva dos professores nas escolas. Ou seja, o que eles sentem em relação aos alunos, em relação à gestão, em relação aos superiores hierárquicos e em relação aos seus colegas. Tudo isso será abrangido neste inquérito. Estamos a apontar para uma recolha individual de cerca de 40 mil inquéritos. Se conseguimos fazer isso, será de facto um dos maiores estudos realizados desde que existem estudos semelhantes, ou seja, desde os anos 70. Note-se que estamos a falar de uma categoria de profissionais que são responsáveis pelo futuro do país, que formam o país e os trabalhadores do país. As condições de vida e de trabalho desde 130 mil docentes são absolutamente essenciais para determinar como é que vão ser formados os atuais alunos.

Que tipo de perguntas serão feitas em concreto aos professores?
Como referi anteriormente, todas as perguntas que constam do inquérito estão relacionadas com questões de trabalho e modo de vida. Queremos saber se os professores se sentem cansados e desanimados ou, pelo contrário, motivados e alegres. Queremos saber se conseguem resolver os problemas dos alunos, em que condições estão a trabalhar, quanto tempo, por exemplo, levam a chegar ao trabalho, se vivem perto ou longe do local de trabalho, quantas disciplinas lecionam, se há indisciplina na respetiva sala de aula. Tudo isso será avaliado ao longo de quase 100 perguntas.

Como em qualquer estudo, também este parte obviamente de alguns pressupostos. Que pressupostos são esses? Os professores estão agora mais desgastados do que antes?
Desde a década de 70 e o avanço do neoliberalismo nos chamados países ricos, e desde a primeira década do séc. XXI, o desgaste, a exaustão e a desmoralização nos locais de trabalho aumentou muito. Queremos saber se isso também se verifica nos docentes em Portugal. No caso dos médicos, por exemplo, há estudos nacionais e internacionais que chegam a apontar para um terço dos médicos em “burnout”. É importante também referir que os primeiros estudos sobre este assunto que surgiram nas décadas de 70 e 80 pretendiam ser um alerta à degradação das condições de trabalho e os inquéritos eram elaborados para detetar justamente os processos de fadiga e desefetivação no local de trabalho. Hoje, os resultados de estudos semelhantes já não funcionam como alerta, já não têm como objetivo a prevenção. Já não concluem que há processos de fadiga, há realmente fadiga e exaustão que, no limite, e no caso dos professores, levará à falta de profissionais no país.

Raquel Varela, investigadora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, ficará responsável por coordenar o estudo sobre o desgaste dos professores

Raquel Varela, investigadora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, ficará responsável por coordenar o estudo sobre o desgaste dos professores

José Caria

E de que modo é que isso afeta os docentes e a vida nas escolas?
Nós já temos dez por cento da força de trabalho docente em Portugal oficialmente doente, ou seja, temos 12 mil professores de baixa. O que não é contabilizado nessa estatística, e que nós queremos saber, é quantos professores estão doentes e a dar aulas. Do ponto de vista da história do trabalho, e isto não tem apenas que ver com os estudos sobre “burnout”, sabemos que quando há desmotivação nos locais de trabalho, combinada com baixos salários, a tendência é para haver aquilo que designa por escassez de força de trabalho, ou seja, falta de trabalhadores.

Enquanto investigadora que tem dedicado parte do seu tempo a temas da área da educação, que mudanças considera urgentes? A educação em Portugal precisa de uma grande reviravolta?
Acho que é urgente melhorar os salários, o reconhecimento e o respeito público, as condições de trabalho e a gestão. Precisamos de voltar a uma gestão democrática. Os locais de gestão hierárquica são altamente propensos ao adoecimento no trabalho.

Isso significa exatamente o quê?
Significa que a gestão hierárquica, tendo sido transporta das fábricas e linhas de montagem, é impositiva, encara as pessoas como uma folha de excel e tende a não conseguir estabelecer tão bem modos de funcionamento saudáveis nos mercados de trabalho. Esta gestão desconhece que cada pessoa é uma pessoa e tem o seu próprio ritmo de vida e de trabalho, e as suas próprias capacidades.

E como traduziria isso para o contexto escolar? O que deveria mudar nas escolas nesse aspecto?
Os diretores, por exemplo, deveriam ser eleitos pelos seus pares e em conselho. Não deveria haver a figura do diretor, mas sim a figura de um conselho diretivo como era até aqui. Isto estende-se a outra questões, relacionadas nomeadamente com a organização da própria escola. Deveria haver mecanismos à escala nacional que garantissem a participação dos professores nas decisões que são tomadas. Os professores não são meros executantes das decisões pensadas e tomadas por outros, até porque isso leva a uma separação entre trabalho manual e intelectual. Os professores não são meros autómatos.

Considera que chegámos a uma espécie de situação limite na carreira docente, sendo por isso tão necessário este estudo neste momento?
Sim, considero que sim. Estamos a assistir a um envelhecimento e a um adoecimento inéditos no corpo docente nas últimas quatro décadas. E isso é de facto uma situação limite. Em breve, deixaremos de ter professores e qualidade suficiente para formar novos alunos. Nesse sentido, estamos a pôr o país em risco.