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Quem é e que truques usava a jovem burlona que “vendeu” ténis pela net a dezenas de pessoas, do Minho às ilhas

O esquema era simples. No Facebook eram anunciados ténis de marca a preços em conta, que seriam enviados após transferência bancária. Quem arriscou comprar ficou sem o dinheiro e sem os ténis. A autora da burla é uma jovem do Porto que, apesar de só ter 24 anos, já tem 23 páginas de processos e condenações por todo o país, ilhas incluídas

Marta Caires

Jornalista

Ana Filipa tem 24 anos e dezenas de queixas e processos por burla em vários tribunais do país. Já cumpriu quatro meses de prisão, mas, de Braga à Madeira, somam-se participações de pessoas lesadas num esquema de venda de ténis através de páginas do Facebook. As páginas, com nomes como TenisWorld Lowscost ou Monica Mendes Tenis Sttore, anunciavam calçado desportivo de marca a preços baixos. Quem arriscou comprar ficou sem o dinheiro.

O esquema era simples. Os interessados viam fotografias das sapatilhas a 50 ou 60 euros, preços muito abaixo dos praticados nas lojas, e contactavam o responsável pela página. Depois de perguntar se havia o número e a cor, acertavam o método de pagamento. A mercadoria só seria encaminhada por correio se houvesse pré-pagamento por transferência para as duas contas de Ana Filipa, a mulher por trás do negócio. Depois de feito o pagamento... Ana Filipa e a página desapareciam. E encomendas nem vê-las.

Estes métodos eram já conhecidos da Polícia Judiciária quando, em 2014, foi feita a primeira queixa na Madeira, onde seriam apresentadas mais sete nos anos seguintes, até ficar concluída a acusação contra a mulher, uma jovem do Porto, da zona da Campanhã, cujo nome constava já em algumas participações noutros pontos do país por crime de burla com uso de meios tecnológicos. O que não se sabia era a dimensão da burla, o número de pessoas lesadas, nem que truques usava para convencer os potenciais clientes.

Empregada de limpeza, esteticista e empregada de balcão

Ana Filipa, hoje com 24 anos, fazia trabalhos de limpeza, às vezes também serviço de esteticista, e chegou a ter um contrato a termo como empregada de balcão de uma perfumaria. Mas por pouco tempo. Quando lançou as páginas de venda de ténis, em 2013, tinha já um filho pequeno. O que não lhe faltou foi habilidade para vender a mercadoria fictícia que anunciava. A um cliente desconfiado por o nome do titular da conta não ser o mesmo da dona da loja, respondeu que a conta era da prima. E a outro que quis saber se já tinha enviado os ténis desculpou-se dizendo que havia um atraso porque a estação dos correios tinha sido assaltada e estava um pandemónio.

Promoção a acabar à meia noite

Aos mais hesitantes dizia-lhes que aqueles preços, aquela promoção, acabava à meia noite, ou que daquele modelo e naquele número já só tinha um par. Também fazia descontos aos que compravam mais: se a soma era 100, fazia por 90 - mas nada de pagamentos à cobrança. Numa das conversas que constam do processo que começa a ser julgado na comarca da Madeira a 1 de março, Ana Filipa explica-se: é assim que trabalha e desde que é assim nunca mais teve problemas. E também lamenta o dinheiro que perdeu, porque as encomendas vinham todas para trás, mas insiste que não anda a enganar ninguém. Só não dá o número de telefone e até diz que vive lá para os lados de Alenquer.

A desculpa para ser barato

As conversas são francas, de quem não engana. Quando um dos lesados quer saber como consegue fazer preços tão em conta, a resposta vem embrulhada em sinceridade: é material desviado dos armazéns. A franqueza convence, o cliente compra dois pares, Ana Filipa faz um desconto de 10 euros - e desaparece do Facebook, para voltar a aparecer com outra página, outro nome e o mesmo esquema, que vai lesando dezenas de pessoas pelo país inteiro.

O que eram algumas queixas em 2014 são agora muitas, o registo criminal engrossa: agora são 23 páginas de condenações. Em Faro, por ter enganado uma pessoa de Armação de Pera, é condenada a uma pena de 600 euros, na Covilhã o tribunal aplica-lhe uma pena de 750 euros, em Ponta Delgada a multa sobe aos 1.440 euros.

Houve quem recebesse uma encomenda, mas...

O que o Ministério Público da Madeira recolhe antes de avançar com a acusação releva nuances do esquema. Em dois dos casos, Ana Filipa aceitou enviar à cobrança mediante pagamento de metade do preço acertado. As clientes receberam de facto uma encomenda, pagaram cinco euros para a levantar, mas lá dentro estavam sapatos usados, sem qualquer valor.

De resto é a mesma queixa que fazem 12 pessoas de Lisboa e as duas que participaram o crime no posto da GNR em Arcos de Valdevez e em Monção. Os extratos das duas contas de Ana Filipa mostram dezenas de transferências, de pequenas quantias, 50 ou 60 euros. O montante mais elevado terá sido o de uma mulher de Lousada, que encomendou 230 euros em ténis, seis pares.

Os tribunais optaram quase todos por aplicar penas de multa, por causa dos valores em causa. Mas no caso dos queixosos da Madeira a jovem do Porto é acusada por burla qualificada e, entre 2014 e 2018, muito mudou na história de Ana Filipa. O tribunal da Comarca de Viseu revogou uma pena de quatro meses de prisão com pena suspensa e entre outubro de 2016 e fevereiro de 2017 a jovem esteve presa. E existe mais uma condenação a pena de prisão, suspensa mediante pagamento de prestação mensal da multa.

Julgamento em março, por videoconferência

Também é certo que não são apenas as queixas, os processos e as condenações que se somam na vida da mulher que enganou tanta gente em Portugal continental e ilhas. Ana tem um novo companheiro e mais uma filha, nascida em novembro de 2017. Foi essa a razão invocada para adiar o julgamento na Madeira, que deveria ter começado no princípio de janeiro e está agora marcado para março. A arguida deverá ser ouvida em videoconferência e fora das horas da amamentação.

Registo criminal extenso

Armação de Pera: 600 euros de multa
São Pedro do Sul: quatro meses de pena efetiva
Montemor-o-Novo: 500 euros de multa
Covilhã: 600 euros de multa
Sesimbra: 750 euros de multa
Leiria: 350 euros de multa
Açores, Ponta Delgada: 1.440 euros de multa
Lousã: 950 euros de multa
Loulé: 500 euros de multa
Faro: 1.620 euros de multa