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Exames nacionais agravam desigualdades e alimentam mercado das explicações

Foto Luís Barra

Apenas os jovens do agrupamento de escolas público pior classificado no ranking afirmaram não recorrer a explicações porque “a sua condição socioeconómica não lhes permitia”

Um estudo realizado na Universidade de Aveiro concluiu que os exames nacionais agravam desigualdades sociais e beneficiam o "mercado paralelo" dos centros de explicações.

O estudo de Andreia Gouveia, especialista em Administração e Políticas Educativas da Universidade de Aveiro (UA) que procurou perceber como estudantes, famílias, escolas e centros de explicações se organizam perante as provas nacionais, concluiu que "os exames nacionais empurram a organização das escolas para uma lógica mercantilista", tendo como "grande beneficiário" o crescente mercado dos centros de explicações.

"É inegável que existem fundadas razões para ver no instrumento 'exame' uma causa para o agravamento das desigualdades sociais no acesso ao reconhecimento escolar", aponta Andreia Gouveia, autora da tese de Doutoramento em Educação "Exames nacionais, apoios pedagógicos e explicações: a complexa construção dos resultados escolares em Portugal".

Durante quatro anos, a investigadora esteve num colégio e num agrupamento de escolas considerados de topo pelos 'rankings' noutro colégio e agrupamento de escolas colocados no fundo dessas tabelas.

Nesses estabelecimentos de ensino públicos e privados, entrevistou os diretores e membros da direção e 692 alunos pertencentes aos anos em que existiam exames nacionais. À data da realização da tese existiam exames nacionais nos 4.º, 6.º, 9.º e 11.º e 12.º anos. Entretanto, o atual governo aboliu os exames dos 4.º e 6.º anos de escolaridade.

Andreia Gouveia entrevistou igualmente os diretores dos centros de explicações mais referidos pelos estudantes.

A maioria justifica a escolha tendo em vista uma melhor preparação para os exames nacionais.

Apenas os jovens do agrupamento de escolas público pior classificado no 'ranking' afirmaram não recorrer a explicações porque "a sua condição socioeconómica não lhes permitia".

O facto levanta "inquietantes preocupações de justiça social e equidade, já que nem todas as famílias podem suportar uma média de 80 euros mensais por duas horas semanais de explicações, no caso dos alunos do Ensino Básico, ou os 160 euros para os alunos do Ensino Secundário", considera a investigadora.

São precisamente os estudantes das escolas melhor posicionadas no 'ranking' que mais procuram centros de explicações, sendo que a maioria dos alunos da escola pública melhor classificada afirmaram recorrer a explicações em todos os níveis de ensino.

Estes dados, aponta Andreia Gouveia, "permitiram-nos verificar como o mercado de explicações influencia o sistema formal de ensino, pois ao frequentarem as explicações fora da escola, os alunos deixam de frequentar os apoios oferecidos por esta".

Se dessa "excelência" depender o acesso à universidade e, com isso, a um futuro promissor, as famílias informadas e com poder de compra sabem quais as estratégias mais seguras: "assegurar a frequência das 'melhores' escolas e dos 'melhores' explicadores e quanto mais cedo melhor".

Andreia Gouveia defende, por isso, que "os exames nacionais deveriam ser entendidos como mais um instrumento, mais um método, retirando-lhes a excessiva valorização que está na origem de momentos de enorme tensão, 'stress' e ansiedade para todos os alunos e suas famílias, bem como para os estabelecimentos de ensino que frequentam".