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Pas de cellulaires, s'il vous plait *

Astrakan Images

A partir de setembro, há um objeto que vai desaparecer das escolas em França: o telemóvel. A medida, aprovada pelo ministro da Educação, é uma questão de saúde pública, afirma o governante

Jogar à macaca. Saltar à corda. Jogar ao elástico. Ao 'mata'. Às escondidas. Lembra-se? Não foi assim há tanto tempo que as crianças no recreio brincavam a isto e a inúmeras outras coisas. Se há muito que não pára em frente a uma escola secundária ou a um liceu, vai certamente surpreender-se. Em vez de crianças a correr e a saltar em todas as direções, provavelmente verá grupos de miúdos sentados a olhar para o telemóvel.

É para combater este fenómeno que o ministro de Educação Francês, Jean Michel Blanquer, proibiu o uso de telemóveis nas escolas primárias, básicas e secundárias de França, a partir de setembro. Alunos entre os 6 e os 15 anos estarão impedidos de sequer consultar ou tocar nos seus smartphones no recreio e nos intervalos para almoço.

Richard Lewisohn

"Hoje em dia, as crianças já não brincam no recreio, porque estão todas à volta do seu smartphone. Isso é um problema", considera o ministro francês da Educação. Blanquer defende que esta é "uma mensagem de saúde pública para as famílias", já que não é de todo aconselhável que crianças até aos 7 anos passem tantas horas em frente ao ecrã.

É claro que a medida - que fazia parte do programa político de Emmanuel Macron - não é isenta de polémica. Não faltam pais a questioná-la, lembrando que em casos de emergência precisam de contactar com os filhos, assim como a capacidade das escolas para recolherem e armazenarem diariamente centenas de telemóveis, sem roubos nem extravios. A estes críticos, o ministro responde assim: "Nas reuniões do Ministério deixamos os telemóveis em cacifos trancados. Parece-me que é algo que qualquer grupo de humanos consegue fazer, incluindo uma turma".

E o Ministério da Educação português replicaria a medida? O tema é mais atual do que nunca, tanto mais que cada vez mais estudos apontam para a existência de uma relação entre o tempo passado com novas tecnologias e o nível de infelicidade. Esta semana, o CEO da Apple, Tim Cook, produziu uma declaração interessante. Disse: "Tenho um sobrinho e há coisas que não permitirei: não o quero numa rede social, por exemplo". O empresário explicava que não achava que o uso abundante da tecnologia fosse sinónimo de sucesso. "Não acredito que alcançamos o sucesso se usarmos frequentemente telemóveis", defendeu.

Carol Yepes

O pediatra Mário Cordeiro está "plenamente de acordo com a ideia de que os telemóveis vieram roubar muito tempo à interacção humana - brincar, conversar, dialogar, até discutir, para lá da atividade física e da criatividade". "Não vejo qual a razão por que um adolescente, muito menos uma criança, há de ter o telemóvel à mão durante as aulas ou mesmo o recreio. Se houver uma emergência, ou em caso de necessidade última, obviamente que a escola providenciará a resposta", diz o pediatra. "Portanto, apesar de poder parecer fundamentalista, a medida francesa acaba por ser positiva e, além do mais, dando alternativas - o que será indispensável -, as crianças aprenderão outros jogos, retomarão jogos antigos e até poderão interessar-se mais por ler e conversar, o que seria excelente."

(*Nada de telemóveis, por favor)