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O futuro a nós pertence

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Os consumidores parecem estar mais interessados em moldar o futuro próximo e os estudos mais recentes apontam para uma maior predisposição dos portugueses para a mudança. Os próximos tempos vão mudar as nossas vidas: serão mais elétricos, mais verdes e inteligentes

Longe vão os tempos em que o futuro era visto como um tempo frio e desprovido de sentido, onde a razão dominaria e os tons gélidos tomariam os espaços. Hoje, esse futuro que se julgava distante está mais próximo e é cada vez mais certo que pouco terá do que a ficção científica do final do último século nos havia mostrado. Parece que os próximos tempos trarão grandes mudanças, mas que a intenção é que estas inovações tecnológicas sirvam para que o bem-estar aumente e que o quotidiano seja vivido em maior comunhão com a natureza. Pode parecer uma desilusão face ao que outrora foi anunciado, mas os consumidores mostram-se cada vez mais interessados na construção do futuro e este tem tudo para ser mais verde.

A verdade é que esse futuro não se desenha sobre uma folha de papel em branco (há todo um legado a respeitar), mas nem por isso o espaço de manobra se encurta. Na mais recente edição do estudo “Tendências de Mudança do Consumidor Português”, os portugueses mostraram-se abertos à mudança e são várias as áreas das quais esperam novidades num futuro próximo. São “Futuros Imaginados” — nome com que C-Lab apelida a secção em que aborda estas tendências — e prometem levantar o véu sobre as expectativas dos consumidores para os próximos tempos.

Pode parecer estranho que os portugueses estejam tão interessados na construção de um futuro diferente, mas é a essa conclusão que se chega no relatório elaborado este ano pelo The Consumer Intelligence Lab (e há razões externas que explicam o fenómeno). Há um “conjunto de disrupções tecnológicas que se afiguram próximas” e isso levou a que os consumidores começassem a “levantar questões quanto ao seu futuro, ao formato e ao timing de soluções que deverão determinar uma transformação positiva do seu quotidiano” — mas também das cidades e das casas que habitam e que serão cada vez mais inteligentes. Os sectores da energia e da mobilidade estão entre os mais disruptivos do momento e são também eles que estão a fazer os cidadãos olharem com renovado interesse para o que pode mudar nos tempos vindouros.

infografia raquel felício

infografia raquel felício

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A tendência é nova — foi numa investigação recente sobre marcas cidadãs e a relação do consumidor com temas de desenvolvimento sustentável que os investigadores a identificaram de forma inequívoca pela primeira vez — e parece ser agora certo que existe um interesse crescente por novidades neste campo. Existe um conjunto alargado de propostas e novas tecnologias (em particular no campo da mobilidade, da energia, e de um habitar mais sustentável) com as quais o cidadão comum parece identificar-se cada vez mais, assumindo-as como muito próximas e é também para isso que as marcas devem olhar.

De acordo com o mais recente trabalho do The Consumer Intelligence Lab, “os consumidores olham estes temas de futuro próximo — uma cidade mais inteligente, mais fácil e agradável de habitar, uma mobilidade mais económica e amiga do ambiente, um consumo energético enfim controlado pelos próprios e autossuficiente — com natural entusiasmo” e é exatamente essa vontade que pode ser explorada pelos decisores. É também nesse sentido que o gráfico acima nos guia, com os temas da energia e dos desperdícios, assim como os relacionados com a cidade e a mobilidade a ganharem relevância face à robótica e à inteligência no interior da habitação.

FUTURO ELÉTRICO

Não quer dizer que as smart homes não venham a vingar no futuro próximo — estima-se que a internet das coisas venha a tomar o espaço doméstico em breve, conectando a maior parte dos dispositivos eletrónicos de que dispomos —, mas torna-se evidente que é na forma como nos transportamos e como produzimos a nossa energia que os portugueses estão mais focados. Na investigação “Marcas Cidadãs: Antecipando a Expectativas dos Consumidores”, os números falam por si: 24% dos inquiridos responderam “sem hesitação que, se tivessem que comprar um carro neste momento, equacionariam um carro elétrico” e 30% responderam que ‘talvez’ o fizessem, com 15% a considerar que ‘hoje não mas no futuro certamente’.

Atenta a esta realidade, a indústria automóvel é das que está a liderar esta transição verde — embora o mercado dos carros elétricos represente apenas 1% das vendas a nível mundial — e esta é a grande aposta do momento para as construtoras. Os números divulgados esta semana pela Reuters são avassaladores e comprovam como já será muito difícil voltar atrás. Segundo a agência de notícias, as empresas norte-americanas comprometeram-se com o investimento de 19 mil milhões de dólares e são as que menos estão a investir, uma vez que as chinesas prometem pôr 21 mil milhões de dólares nos automóveis elétricos e as alemãs batem todos recordes, com 52 mil milhões de dólares. No total, são 92 mil milhões de dólares (cerca de 75 mil milhões de euros) apostados num futuro sem combustíveis fósseis.

A revolução provocada pela Tesla de Elon Musk — hoje olhada como um dos principais players nos carros elétricos — e o escândalo de emissões poluentes do grupo VW pode ter dado a força que faltava. Em causa está um sector que se mantinha fiel ao diesel e que agora olha com interesse renovado para novas fontes de energia. Era a parte que faltava agir, num mundo em que 
os consumidores parecem ávidos 
de mudança.

SER PARTE ATIVA

Os consumidores de hoje não estão apenas abertos a mudar o seu dia a dia com novas soluções tecnológicas e querem ter uma palavra a dizer quanto ao seu desenvolvimento. Segundo os dados recolhidos pelo C-Lab, os portugueses querem fazer parte do processo tão cedo quanto possível, mostrando antecipadamente quais os seus desejos às marcas e participando nos períodos de desenvolvimento e de decisão. Mais de metade dos inquiridos (56%) admite que gostaria de conhecer os bastidores de algumas marcas de produtos ou serviços que consome — e que podem influenciar o seu futuro —, ao passo que 6 em cada 10 pessoas achariam “interessante poder participar ou dar opinião sobre novos produtos e serviços em desenvolvimento”.

No top 5 das categorias em que os consumidores mais gostariam de contribuir estão o retalho alimentar, o vestuário, as bebidas e os produtos alimentares, o sector automóvel e o do fornecimento de energia, com os serviços de entregas, cosméticos, bancos e brinquedos a cativarem menor interesse. Digno de nota é que apenas 8% dos inquiridos se mostrem completamente alheios a esta possibilidade, provando que a participação cívica está também em voga.

Será que os tempos de mudança correm mais depressa do que aqueles em que a evolução parece abrandar? A empresa de consultoria Gartner avança que em apenas dois anos tudo pode mudar e estima que “uma pessoa comum tenha mais conversas com interlocutores artificialmente inteligentes do que com os seus companheiros — marido ou mulher”. Não acredita? Vemo-nos em 2020, talvez com carro elétrico (ou sem carro e apenas utilizando serviços de partilha), telhado solar, baterias de armazenamento de energia e um mundo mais verde. Moldado por cada um.