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#MeToo. Um Óscar contra o assédio sexual

James Franco (à esquerda) não irá juntar o Óscar ao Globo de Ouro de Melhor Ator

LUCY NICHOLSON /reuters

Em 1977, o realizador polaco Roman Polanski drogou e violou uma jovem de 13 anos na casa do ator Jack Nicholson, em Los Angeles. O cineasta chegou a um acordo com a acusação, declarou-se culpado de ter mantido relações sexuais com uma menor e saiu da prisão ao fim de apenas 42 dias. Quando soube que o juiz se preparava para não aceitar o acordo, meteu-se num avião e voou para Paris. Não voltou a pôr os pés nos Estados Unidos, nem mesmo quando a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, indiferente à sua batalha judicial, decidiu atribuir-lhe o Óscar de Melhor Realizador pelo filme "O Pianista". Desde então, foi acusado por quatro outras mulheres de ter abusado delas, uma das quais teria 10 anos à época.

Em 2010, duas mulheres que trabalharam no filme experimental "I'm Still Here", dirigido por Casey Affleck, apresentaram queixas de assédio sexual contra o ator. Uma das mulheres acusava-o de se ter enfiado na cama dela, sem o seu consentimento, enquanto dormia. A outra de a ter agarrado violentamente pelo braço, tentando forçá-la a ficar num quarto de hotel com ele. Os casos foram resolvidos com acordos extrajudiciais, mas as histórias ressurgiram no final de 2016, quando Aflleck ganhou mais de uma dúzia de prémios, incluindo um Globo de Ouro, pelo seu desempenho em "Manchester by the Sea". Todo o ruído criado não o impediu de ganhar também um Óscar, mas não subirá ao palco para entregar a estatueta de Melhor Atriz, quebrando com a tradição.

A história de Affleck tinha tudo para se repetir na 90ª edição dos Óscares, se este não fosse o ano da tolerância zero para os predadores sexuais. James Franco produziu, realizou e protagonizou "Um Desastre de Artista", para muitos um dos melhores filmes do ano. Era um dos favoritos ao Óscar até ter subido ao palco para receber o Globo de Ouro de Melhor Ator de Comédia ou Musical. Nessa mesma noite, no Twitter, a atriz Ally Sheedy lançava as primeiras suspeitas contra ele. Na manhã seguinte, duas outras mulheres acusavam-no de conduta sexual imprópria. A 11 de janeiro, quando o "Los Angeles Times" pegou na história, eram já cinco as alegadas vítimas. Como as votações dos membros da Academia só fecharam dia 12, só os ingénuos poderão argumentar que as acusações não prejudicaram o filme, que está nomeado em apenas uma categoria – a de melhor argumento adaptado, que não tem o dedo de Franco.

O caso reacende o debate sobre a linha ténue que separa o artista, e os seus comportamentos, da sua arte e é mais uma vitória do movimento que pretende erradicar a glorificação de abusadores de Hollywood e da sociedade em geral. Algo está a mudar e isso é uma boa notícia. Depois de décadas a assobiar para o ar e a fechar os olhos, está na hora de também a Academia juntar a sua voz à de tantas mulheres, e também homens, vítimas de assédio sexual e dizer "Basta!". O "caso Weinstein" abriu a caixa de Pandora e o #MeToo assegurou que não ficaria pedra sobre pedra. Nem sempre o fez bem – o caso do comediante Aziz Ansari é um bom exemplo de desproporcionalidade perante o comportamento de que é acusado – mas tem pelo menos esse grande mérito: a partir de agora, nada será como dantes. Só por isso já merece um Óscar.