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Caso do Comandos: “Há muitas limitações de ordem logística nas Forças Armadas”

antónio pedro ferreira

Testemunho de capitão do Exército faz revelações sobre o que se passa nos cursos dos Comandos

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

Miguel Faro é capitão do Exército e já liderou alguns cursos de Comandos. E foi a figura central durante a manhã desta quarta-feira no Tribunal de Instrução Criminal no caso da mortes dos dois recrutas Hugo Abreu e Dylan Silva, em setembro de 2016.

Na qualidade de testemunha de um dos arguidos do caso, o jovem militar tentou até ao limite defender os procedimentos utilizados pelo Exército para analisar a capacidade física e psicológica dos instruendos que pretendem desistir durante a realização de um curso dos Comandos. Mas admite fragilidades na máquina militar em Portugal. "Há muitas limitações de ordem logística nas Forças Armadas", acabou por admitir já no final da sessão, quando lhe foi questionado se os cuidados médicos deveriam ser reforçados quando existe conhecimento prévio de uma onda de calor. "Uma coisa é o mundo ideal em que tudo o que solicitamos temos direito, outra coisa é a realidade. E basta andar dentro das unidades para perceber as limitações logísticas."

Embora tenha frisado mais do que uma vez que não esteve ligado à organização do curso 127 que levou à morte daqueles dois instruendos (foi comandante em quatro cursos anteriores) garante que é habitual que os futuros Comandos bebam 3 litros de água por dia: um cantil após cada refeição "nas situações normais", o que não impede que os instrutores possam dar doses extra em casos extraordinários.

"Há uns anos era apenas permitido 1 litro por dia para cada homem", recorda.

Durante o debate instrutório foi visível alguma picardia entre advogados e a procuradora Cândida Vilar, principalmente com Varela de Matos, que fez questão de perguntar à testemunha se os instrutores são movidos "por ódio patológico" e "crueldade" contra os instruendos, como é alegado no despacho da acusação. A resposta foi invariavelmente um "não". Para o capitão Miguel Faro, não existe vontade em "prejudicar ou limitar" os instruendos. Mas apenas prepará-los para missões de combate "exigentes" com temperaturas "extremas" e por vezes com parcas condições de segurança.

Mas Cândida Vilar fez questão de realçar que as forças armadas portuguesas estão sempre em desvantagem com as congéneres internacionais por falta de equipamento. "Falo com conhecimento de causa", declarou perante o silêncio da testemunha e os protestos dos advogados que a acusaram de estar a tecer considerações.

A próxima sessão instrutória está marcada para 31 de janeiro. E promete mais alguma polémica.