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50 portugueses por ano recusam doar órgãos

Em Portugal há 59 hospitais dadores, que fazem colheita de órgãos entre os seus doentes que morrem, e 18 unidades encarregadas da transplantação

Foto António Pedro Ferreira

Portugal está no topo na Europa na colheita e no transplante de orgãos, segundo o relatório da Coordenação Nacional da Transplantação relativo a 2017, ano em que houve 1.011 colheitas de órgãos e 895 transplantes, um recorde. A doação após a morte é a regra no nosso país, mas há cidadãos que são contra e se inscrevem no Registo Nacional de Não Dadores

Nesta segunda-feira, em que foram apresentados os dados sobre a transplantação em Portugal, a responsável pela área reconhece que o sucesso da atividade ‘sai do corpo dos portugueses’ diretamente para as mãos dos profissionais de saúde. A esmagadora maioria da população é a favor da doação. No entanto, há anualmente cerca de meia centena de cidadãos que optam por se tornar não dadores de órgãos, inscrevendo-se no Registo Nacional de Não Dadores (RENNDA).

Os cerca de 50 portugueses que todos os anos se manifestam contra a doação não estão, para já, a afetar os bons resultados que a transplantação tem conseguido.

“Continuamos a estar no topo da Europa na colheita e na transplantação, sobretudo porque a população é muito generosa e sensível a este ato de solidariedade e os profissionais acreditam no que fazem”, justifica Ana França, coordenadora nacional da transplantação, em declarações ao Expresso.

Apesar da grande generosidade dos cidadãos, os dadores têm idades cada vez mais avançadas, impondo algumas limitações à colheita. Ana França explica que “a redução da sinistralidade, que dava dadores mais jovens, é excelente, mas deixa dadores idosos, e o número de órgãos diminui, porque não se consegue fazer a colheita de todos”. No caso, trata-se dos órgãos atualmente transplantáveis: coração, pulmão, rins, fígado e pâncreas.

Ana França garante que, “apesar de todas as vicissitudes, os profissionais estão muito motivados e envolvidos”. Além disso, nesta área “não há cativações” impostas pelo Governo. A responsável sublinha que a lista de espera tem vindo a diminuir e está num nível muito aceitável: “É um trabalho de muitos anos e que envolve mais de 600 profissionais. E terá de existir sempre quem espere, porque para irmos à procura de dador tem de existir sempre alguém e alguma espera”, acrescenta ao Expresso.

Em termos de resultados, os números divulgados esta segunda-feira pelo Instituto Português do Sangue e da Transplantação mostram que a lista de espera é liderada por rins e que há bons sinais para quem precisa de um fígado ou de pulmões. “No fígado tivemos uma diminuição da lista de espera, em grande parte devido às novas condições de tratamento, com cura, dos doentes com hepatite C. Diminuiu de 150 para 108 doentes entre 2015 e 2016”.

No pulmão, o mais difícil dos transplantes, o único centro que garante a intervenção, o Hospital de Santa Marta, em Lisboa, aumentou a atividade para níveis nunca vistos. “Estamos muito bem e no ano passado conseguimos o maior número de sempre, com 34 transplantes de pulmão.”

Recorde absoluto

Na verdade, no ano passado registou-se um recorde absoluto: o maior número de órgãos colhidos e de transplantes realizados. Segundo o relatório da Coordenação Nacional da Transplantação, somaram-se 1.011 colheitas de órgãos e 895 transplantes, mais 31 (3,5%) do que no ano anterior.

E aumentou também o número de dadores, 351 em 2017, mais 14 do que no ano anterior. A idade média foi de 53,8 anos, ligeiramente menos do que em 2016, com 55,1.

Em Portugal há 59 hospitais dadores, que fazem colheita de órgãos entre os seus doentes que morrem, e 18 unidades encarregues da transplantação propriamente dita.