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O arquivo infinito

Barreiro. Pacheco Pereira no novo armazém rodeado dos cartazes espontâneos que usará na próxima exposição

nuno botelho

A Ephemera, biblioteca e arquivo de José Pacheco Pereira, já não se circunscreve à Marmeleira. Depois de abrir um local de recolha e trabalho em Lisboa, o político conquistou mais um espaço no Barreiro. Viagem a uma biblioteca que não para de se expandir

Cristina Margato

Cristina Margato

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Jornalista

Nuno Botelho

Nuno Botelho

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Fotojornalista

Antes de sairmos do carro, José Pacheco Pereira avisa: “Todos os dias há correio.” A expectativa é grande, a surpresa contínua. Estamos na Vila da Marmeleira, onde o político instalou, há quinze anos, a sua biblioteca e arquivo, a que chamou Ephemera. O chão que pisamos, antes de entrar em casa, esconde por baixo uma velha adega, onde o investigador e político guarda uma ínfima parte das suas preciosidades. À entrada da casa, em cima de uma cadeira, espera-o uma mão-cheia de envelopes de vários formatos e tamanhos. Dentro deles, dois livros recentemente editados, uns quantos panfletos norte-americanos contra diferentes entidades, entre as quais a McDonald’s, um crachá usado na última campanha eleitoral de um senador americano, uma fotografia de uma Convenção do Partido Comunista nos Estados Unidos, realizada em 1969, e um estranho embrulho, que rapidamente se revelará particularmente estimável ao historiador que escreveu os quatro volumes de “Álvaro Cunhal — Uma Biografia Política”. Trata-se de uma longa faixa de pano de apoio a Álvaro Cunhal usada na década de 80. “Fica bem numa exposição...”, comenta Pacheco Pereira. O remetente da faixa é uma pessoa que o político não conhece, a não ser pelo nome, porque há anos que lhe envia coisas do seu interesse. “Não sei como as arranja”, confessa. A partir daquele momento aquela faixa fará parte de uma vasto acervo de arqueologia política, que não despreza nem uma garrafa de água de plástico desde que ela ostente um rótulo partidário e tenha sido usada em campanha eleitoral.

Nem sempre é assim. Ou seja, nem sempre as coisas lhe vêm parar às mãos pelo correio. O normal é as pessoas começarem por lhe enviar um e-mail ou uma carta avisando-o de que guardam coisas das quais se querem livrar: livros, documentos, cartas, fotografias ou até objetos. Com o tempo, Pacheco Pereira acabará por entrar nas casas delas, nos armazéns delas, regressando de lá com o carro cheio ou com a promessa de lá voltar com uma camioneta de mudanças. Raras vezes, o ex-deputado do PSD perderá também a oportunidade de falar com os doadores, por saber que é através do contacto pessoal que surgem outras revelações e novos fundos: “É importante que vá aos sítios, embora nem sempre consiga, porque há casos em que, em conversa, as pessoas se lembram de dar outras coisas.” Mas é também o tempo, ou a falta dele, e ainda o espaço, que não lhe permitem responder com a rapidez desejada, tal é o número de e-mails que recebe por dia.

Noventa por cento do que Pacheco Pereira reúne é oferecido. E grande parte não teria lugar em arquivos institucionais. A política de compras existe para um projeto que começou por ser apenas pessoal e no qual tem investido o seu próprio dinheiro, sem fazer contas nem adiantar números. As compras restringem-se, contudo, a materiais que venham completar outros fundos (como é o caso de um arquivo de imagem que reúne o trabalho dos fotógrafos norte-americanos que vieram a Portugal durante o PREC-Período Revolucionário Em Curso).

Pacheco Pereira aceita tudo o que lhe dão, e diz que, até hoje, nunca se arrependeu. “É um arquivo omnívoro”, remata. A experiência garante-lhe que há muito menos repetições do que o esperado. “Tenho 200 mil títulos em livros, cerca de 25 mil autocolantes, milhares de cartazes e mesmo assim é rara a entrada em que 30 ou 40 por cento não sejam coisas novas. Produziu-se muito e eu próprio me surpreendo.” Uma das coisas mais inesperadas que lhe chegaram às mãos foi uma coleção de cartazes anarquistas, que nunca imaginou existir. Mas houve outras boas surpresas. Uma delas foi a que Conceição Monteiro lhe proporcionou. A secretária de Francisco Sá Carneiro disse-lhe que tinha uns papéis em casa dela. Pacheco Pereira foi lá pensando que se tratava de coisa pouca. Mas regressou com várias braçadas de pastas, que enchem hoje uma boa despensa. Estava tudo organizado, e os papéis incluíam os envelopes lacrados que Sá Carneiro deixava a Conceição “no caso de morrer”, muitos anos antes de perder a vida. A secretária nunca os abriu, e foi Pacheco Pereira quem os leu pela primeira vez. O que tinham? “Informações que recebia de diversos serviços internacionais.” Pacheco Pereira não tem dúvidas de que este arquivo, apenas trabalhado em parte, até hoje, pode mudar a história de Portugal, da segunda metade do século XX. Há ainda a história da família de Vítor Crespo, que decidiu oferecer à Ephemera a mobília, a mesa, a máquina fotográfica, os discos e até o cinzeiro que hoje podemos ver sobre a mesa, numa sala que Pacheco Pereira criou, na Marmeleira, em memória do ex-presidente da Assembleia da República. “Era um melómano e um grande fumador”, conta.

A recusa de doações só se impõe, garante o historiador, quando se apercebe de que as pessoas querem dar coisas com valor comercial. Nesses casos diz que as alerta. Acontece-lhe, porém, responderem com alguma frequência: “O meu pai gostaria que ficasse para si”.

UMA LOUCURA MANSA

A Ephemera alimenta-se do que o político “chama de loucura mansa, nossa e deles.” Da loucura de quem guarda, da loucura de quem recolhe. Não é raro que depois de uma conferência ou palestra Pacheco Pereira seja abordado por alguém que lhe quer fazer uma oferta. “Ainda por estes dias me apareceu alguém com umas coisas para me dar no Instituto de Defesa Nacional...”

Pacheco Pereira encontra pessoas muito especiais, gente com a obsessão de guardar tudo, e que “por terem perdido o seu estatuto social e profissional, se concentraram na tarefa de preservar uma pequena parte da memória em que tiveram um papel ativo.” As ofertas transformam-se nalguns casos em retratos reveladores da identidade das pessoas a que dizem respeito. Foi o caso de um espólio que lhe chegou às mãos há pouco tempo. Era pertença de um professor que se recusou a assinar a declaração anticomunista, nunca tendo, por isso, exercido funções públicas. O acervo pessoal deste homem revelaria um certo mundo ideológico. “Olhamos para aqueles livros e papéis e percebemos que existe nele um mundo de oposição, os recortes de jornais, a literatura neorrealista...” Nestes casos, em que a identidade do proprietário é forte, o normal é não separar o espólio, organizando-o, tratando-o e arquivando-o debaixo dessa identidade. Mas também há razões para esconder o nome do proprietário. É o caso de um dos espólios guardados na Vila da Marmeleira, numa garagem na qual nunca chegou a entrar um carro. Pertenceu a um burocrata, cujo nome Pacheco Pereira não revela, implicado, desde o início, nas negociações de adesão à Comunidade Económica Europeia (CEE), uma figura de Estado que também participou nos Conselhos de Ministros de Cavaco Silva, tomando notas de tudo o que via e ouvia.

Escriório. Esta é uma das maiores salas da Marmeleira, e aquela a que Pacheco Pereira chama escritóriot

Escriório. Esta é uma das maiores salas da Marmeleira, e aquela a que Pacheco Pereira chama escritóriot

nuno botelho

Há outros casos em que a doação obriga a que os arquivos se mantenham fechados, pelo menos durante mais algum tempo, como é o caso de uma caixa cheia de fotografias do SS belga Degrelle, tiradas após o final da Segunda Guerra Mundial, depois de este ter fugido para Espanha, onde, protegido por Franco, escapou ao cumprimento da pena de morte pelos crimes de guerra a que foi condenado. Muitas destas coisas chegam às mãos de Pacheco Pereira pela via da fama que a sua compulsão arquivista já tomou, até a nível internacional. Ainda que o grosso do arquivo seja português, existem nele materiais de mais de uma centena de países. Recentemente, a Ephemera recebeu a visita de uma delegação catalã, que lhe trouxe materiais relativos às recentes eleições. Os objetos estão, na Marmeleira, à espera de catalogação.

O arquivo já conta com um acervo considerável relativo a Espanha e à Irlanda. “Agora começámos a receber coisas do Bahrain. Ainda ontem recebi uma fotografia de Houston, no Texas, de uma manifestação contra a decisão de os EUA colocarem a embaixada em Jerusalém.” Pacheco Pereira fez recolhas nas eleições norte-americanas mas continua a receber, diariamente, novos documentos e objetos enviados por voluntários (a sua verdadeira mão de obra). Até o empreiteiro que contrata para fazer as constantes obras de acrescento da Marmeleira lhe trouxe uma arca que descobriu numa casa que estava a recuperar. “Noutro contexto teria ido tudo para o lixo.” As pessoas já lhe conhecem o gosto, já lhe antecipam o prazer de descobrir preciosidades no que os outros não querem. Na velha arca, trazida pelo empreiteiro, vinha afinal um importante arquivo republicano. Não admira, por isso, que a frase “O lixo de um homem é a riqueza de outro homem” se tenha tornado um dos pregões da Ephemera. É deste modo que Pacheco Pereira tem construído um arquivo importante, sozinho, à margem do Estado, recebendo coisas que o Estado nunca aceitaria guardar. Recolhe-as, organiza-as, digitaliza-as e torna-as públicas, através da Ephemera, biblioteca e arquivo que cresce a um ritmo regular, contínuo, física e digitalmente. “Por semana, entra cerca de metro e meio de material. Por isso é que precisamos de um armazém com quatrocentos metros quadrados, que pode ficar cheio em seis meses a um ano.”

A luta de Pacheco Pereira não é só contra o tempo que quer fixar, sem deixar escapar qualquer pormenor. É também com o espaço; e com a necessidade de conquistar mais voluntários, que partilhem com ele o gosto de descobrir vida em coisas que já estavam dadas como mortas.

Um novo armazém no Barreiro é, deste modo, uma das suas mais recentes conquistas. Através de um dos voluntários da Ephemera, natural daquela cidade, Pacheco Pereira acabou por perceber que teria oportunidade de abrir no Parque Empresarial Baía do Tejo um novo espaço que servirá de entreposto à Ephemera, à semelhança do que já acontece na Ler Devagar, na Lx Factory, em Lisboa. “O elemento mais importante para facilitar a organização é o espaço. Sem espaço é muito difícil organizar as coisas. Temos de estar sempre a mudá-las de sítio, que é o problema que tenho na Marmeleira.”

Os espólios que tinha por trabalhar e outros por recolher, por falta de local onde os guardar (apesar de ter seis casas cheias no coração da Marmeleira e um armazém numa velha fábrica à entrada da vila ribatejana), começaram a chegar ao Barreiro durante o mês de dezembro. Foi o caso do espólio da revista “O Mundo da Canção”, do arquivo do Festival Fantasporto, ou ainda da vasta biblioteca da Associação Portuguesa dos Diabéticos, onde é possível encontrar quase todo o tipo de livros e publicações.

Centenas de sacos e caixas foram estendidos ao longo de filas, e aguardam mãos habilidosas de voluntários que os tratem, organizem e analisem, transformando aquele espaço de armazenamento num lugar de produção, onde seja possível resgatar uma vida que se projetará para lá daquelas paredes, até porque o protocolo entre o Parque Empresarial e a Ephemera inclui a organização de atividades culturais, de que é exemplo uma exposição, a inaugurar na primavera, sobre cartazes espontâneos de todo o tipo, usados em manifestações, e ainda algumas conferências. Para o Barreiro, e em particular para administração da Baía do Tejo, esta é também a oportunidade de dinamizar culturalmente o antigo parque industrial da CUF e da Quimigal, que se está a posicionar como um novo cluster criativo, e assim atrair novas entidades. Até porque há a preocupação de estudar caso a caso as necessidades deste novo tipo de clientes, garantindo-lhes que este parque empresarial é a melhor opção para sediarem as suas atividades na área da Grande Lisboa, onde poderão trabalhar para o mundo”, explica Humberto Fernandes, responsável pela área de comunicação da Baía do Tejo, lembrando que Vhils também lá está instalado assim como várias entidades na área de produção musical, como a editora Hey, Pachuco! ou dois festivais Barreiro Rocks e Out.Fest.

O núcleo da Ephemera é social, político, cultural. Mas o facto de o seu acervo atravessar vários temas já lhe permitiu fazer cruzamentos interessantes. Foi o caso do trabalho feito por Bruno Caseirão sobre os bastidores do Teatro São Carlos, no qual se juntaram fundos de diferentes origens.

Não limitar a atividade da Ephemera à acumulação é um dos objetivos prioritários de Pacheco Pereira. O político insiste em salientar que o seu arquivo tem um enorme output, ou seja, é mais produtivo do que muitos outros, nomeadamente os institucionais, ainda que viva apenas de trabalho voluntário, seguindo um modelo raro na Europa continental mas comum ao mundo anglo-saxónico. A verdade é que a Ephemera não pretende ser um arquivo morto. Da biblioteca e arquivo de Pacheco Pereira saem exposições, conferências e livros. Disso são exemplo as edições que a Ephemera tem feito em parceria com a Tinta-da-China, como “Amorzinho — Correspondência entre Maria de Lourdes e Alfredo de 1934 a 1943”, organizado por Rita Maltez, o livro dedicado aos materiais relativos à história da LUAR e da Resistência Armada em Portugal (“Uma nova Concepção de Luta”, de Fernando Pereira Marques), o dos cartazes e panfletos da ação psicológica na Guerra Colonial (“A Conquista das Almas”, de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes), ou os dois catálogos de autocolantes, um do PPD e outro da FUR (Frente de Unidade Revolucionária), ambos da autoria de José Pacheco Pereira e Júlio Sequeira. Mas há também as exposições, de que é exemplo a realizada em 2017, na Escola Superior de Comunicação Social: “A Propaganda nas Eleições Presidenciais dos EUA — 2016”. A Ephemera é ainda acessível através da internet, e tem um programa de televisão, que iniciou na TVI, no qual Pacheco Pereira escolhe abordar partes do seu arquivo.

A VIDA A PALPITAR

Para ver o arquivo a ressuscitar, é preciso entrar num canto da Livraria Ler Devagar, na Lx Factory. É lá que se reúne um grupo de voluntários, todas as terças e quintas, entre as 17 e as 19 horas. Alguns cartazes, bonés, chapéus e muitos papéis acumulam-se entre prateleiras, mesas e paredes. Pacheco Pereira explica que parte da atenção dos voluntários vai para o espólio do coronel Sousa e Castro, no qual se inclui documentação do tempo do PREC, não só relativa ao Conselho de Revolução como à Comissão de Extinção da PIDE-DGS. “Há ainda uma parte da campanha eleitoral de Ramalho Eanes e uma parte da campanha de Maria de Lourdes Pintasilgo. A parte da extinção da PIDE-DGS também já foi usada pela investigadora Irene Pimentel no seu último livro”, remata. Ao contrário de muitos espólios que chegam àquele “entreposto” para serem lidos, organizados e digitalizados, o do coronel Sousa e Castro foi oferecido pelo próprio. Foi-lhe dada prioridade tendo em conta que não estava organizado e que não se sabia o que vinha lá dentro. O militar integrou, em 1973, a Comissão Coordenadora do Movimento dos Capitães, e, em março de 1975, foi nomeado para o Conselho da Revolução onde permaneceu até à sua extinção em 1982. Arrumadas as pastas, faz-se então um relatório, neste caso assinado por Joaquim Matos, bancário reformado que ali descobriu um novo gosto. Entre os voluntários há pessoas de todas as idades, formações, orientações políticas. “Há pessoas que falam umas com as outras pela primeira vez neste ambiente,” conta Pacheco Pereira. A maior parte tem um certo à vontade em olhar para os papéis, uma vez que foram ou são bibliotecários, investigadores, estudantes, jornalistas, mas há também quem aprenda tudo de raiz. “A ideia é que as pessoas trabalhem os assuntos de que mais gostam. O jornalista Adelino Gomes tem estado a ver alguns fundos relacionados com a censura, e há o projeto de estudar os fundos da Arcada, uma organização que existia no Ministério Interior.” Gomes apareceu a um encontro na Ler Devagar e logo depois tornou-se voluntário. “O grande interesse de um arquivo como este é permitir investigações pluritemáticas. Estas não são as fontes que as pessoas procuram em primeiro lugar, mas podem ser extraordinárias. Estar aqui é ter a possibilidade de dar mais à sociedade e aos investigadores, dar coisas que se perderiam. Somos uns funcionários da memória e logo uns funcionários da Humanidade”, avança o jornalista, entusiasmado com a “vida a palpitar” que descobre na leitura de documentos e correspondência.

Objetos. Pacheco Pereira guarda tudo, até garrafas de água que tenham rótulos partidários, como uma que tem neste armário, na Marmeleira

Objetos. Pacheco Pereira guarda tudo, até garrafas de água que tenham rótulos partidários, como uma que tem neste armário, na Marmeleira

nuno botelho

Outros espólios chegam através de familiares, como é o caso do de Maurício Pinto, comerciante da Figueira da Foz: “Um republicano, da maçonaria e da oposição e que já morreu há muitos anos. Foi-me oferecido pelos netos”. Maurício Pinto tinha família nos Estados Unidos, gente com um papel especial na oposição ao regime. “Foram eles que receberam Galvão, Delgado e Soares”. À correspondência política e literária de Maurício Pinto junta-se também uma vasta coleção de publicidade das décadas de 30, 40 e 50, que está guardada na Marmeleira. “Ele vendia quase tudo, e guardou a publicidade, incluindo as litografias com a representação das fábricas de Guimarães”. Uma delas foi usada numa publicação de Guimarães Capital da Cultura e deu origem a um selo dos CTT. É Maria Mafalda Viana, helenista de formação, quem dedica toda a atenção à correspondência, a mesma voluntária que também já realizou, em julho de 2017, uma conferência, na livraria Férin, sobre a palavra grega ephemeros.

A meio do corredor, que serve de trabalho aos voluntários da Ephemera, está o espólio de um cinéfilo, José Borrego, com um papel muito ativo não só nas lutas académicas como no Cineclube do Porto. É o próprio Pacheco Pereira quem o está a organizar. Do lado oposto, o material é mais recente. Cartazes das últimas eleições autárquicas, alguns recolhidos nas ruas, outros fornecidos pelas próprias juntas de freguesia. Os de maior dimensão esperam ser fotografados para posteriormente serem arrumados. “Houve mais de 12 mil campanhas, e neste momento já temos 1500, o que quer dizer que já temos uma dezena de milhar de coisas tratadas que vão do chapéu ao cartaz.” Os colaboradores da Ephemera estiveram nas sedes de campanha no dia seguinte às eleições, para evitar que todo o tipo de brindes fosse para ao lixo. “O chapéu, por exemplo, é algo que aparece pela primeira vez, enquanto os autocolantes e as canetas estão em decadência ao contrário do que acontece com as caixas de remédios, o que tem que ver com o envelhecimento da população. É interessante ver a variação que existe nos brindes.”

A ideia fundamental da Ephemera é estar no sítio certo à hora certa. No dia a seguir às eleições, quando a destruição promete ser total. Nos divórcios, separações, mudanças de casa, obras em associações e coletividades.

Numa parede, uma bandeira faz recuar o tempo. Foi “usada no Festival Mundial das Juventudes Democráticas, em Berlim, onde participou a última delegação clandestina”, acrescenta Pacheco Pereira, para anunciar de seguida que a Ephemera já começou a preparar um livro sobre as memórias daqueles que integraram esta delegação enviada antes do 25 de Abril. Mas há mais edições a serem preparadas, como é o caso de uma obra da autoria de Júlia Leitão de Barros sobre o primeiro ano da censura em Portugal.

Noutra mesa acumulam-se comunicados estudantis, oriundos de diferentes proveniências: “Estamos a fazer um trabalho, uma exposição sobre a luta estudantil no Instituto Superior Técnico”. No topo de um desses montes aparece um relatório em que os estudantes se queixam de um professor chamado Salles Luís. “Foi o último diretor do Instituto Superior Técnico, aquele que permitiu, entre outras coisas, que a PIDE colocasse uma câmara de filmar no edifício de Química, e nós até temos alguns desses filmes. Houve, porém, um grupo de estudantes que decidiu usar a lei da gravidade para colocar a câmara no chão e parti-la, sendo que alguns desses estudantes são hoje pessoas célebres...”, continua Pacheco Pereira.

Rita Maltez, ao fundo do corredor, está a tratar de pedir excecionalmente (atendendo ao currículo da Ephemera) uma declaração de utilidade pública para a associação criada entre abril e maio de 2017, já com 120 associados. Se a legislação sobre as fundações mudar, a Ephemera tornar-se-á uma fundação, explica Pacheco Pereira: “O atual esquema das fundações é bom para as grandes e fraudulentas, mas não serve as pequenas e não-fraudulentas.”

A advogada Rita Maltez é uma das voluntárias mais antigas da Ephemera. Há doze anos, começou por juntar documentos para acrescentar ao arquivo e biblioteca do político. Em pouco tempo isso passou a fazer parte da sua rotina diária. Hoje, não trata apenas das questões legais. Faz contactos, pesquisas, relatórios, digitalizações, acompanha recolhas de espólios. Um trabalho que não a aborrece e que não considera monótono. “Atrai-me a ideia de preservar a memória, não só do que está para trás mas também dos dias de hoje. Gosto em particular da ideia de não esquecer aqueles que nunca seriam reconhecidos, aqueles de quem nunca falaríamos, mas que acabam por nos dar o ar do tempo, principalmente do século XX.” Gente que nunca ficaria para a história com H grande, como salienta a advogada, mas que faz parte de uma história que continua a ter validade para ser guardada, preservada e principalmente “colocada ao dispor de toda a gente”. Um dos seus melhores exemplos transformou-o em livro quando o destino mais óbvio teria sido o lixo. Trata-se de uma edição, “Amorzinho”, na qual Rita Maltez faz uma edição da correspondência trocada por um casal desde que começam a namorar. “Nunca ninguém teria falado deles se não tivéssemos apanhado as cartas.” As cartas foram encontradas dentro de um móvel que estava destinado ao lixo. “O senhor que geria o armazém onde estava o móvel achou que as cartas podiam ter algum interesse.” Avisou a Ephemera que as recolheu. “Quando comecei a organizar as cartas elas passaram a fazer parte dos meus dias. Tinham a graça de ter os dois lados. Ele por um lado, ela pelo outro. Não se tratava da correspondência de uma só pessoa. A dada altura apercebi-me de que as cartas eram por si só um diálogo.” O trabalho terminou com um livro. “O sucesso editorial da Ephemera”, acrescenta Pacheco Pereira. Uma correspondência trivial, entre uma aprendiz de costureira e um empregado de escritório abre a possibilidade de espreitar parte dos costumes de uma certa época. E é deste quotidiano, aparentemente sem história, que surgem outros pormenores, sinais de certas práticas sociais e políticas, como é o caso do sistema de “cunhas”. Pacheco Pereira diz que o arquivo conta com uma antologia: “Temos milhares de ‘cunhas’. Não há nenhum verdadeiro arquivo do século XX que não venha cheio de ‘cunhas’. A ‘cunha’ é uma instituição que atravessa todo o século XX. Os arquivos militares têm-nas todas organizadas, assim como grandes arquivos políticos como os Sá Carneiro ou Vítor Crespo.”

O HOMEM NO SEU LABIRINTO

“É impossível aborrecer-me na Marmeleira”, diz Pacheco Pereira à medida que deixamos a vila do Ribatejo para trás. Tudo o que lá entra passa pela mão dele, é visto e arrumado por ele. É também difícil explicar o que lá vimos, ou contar todas as histórias que ouvimos. Se todas as prateleiras estivessem alinhadas contar-se-iam cinco quilómetros de livros, documentos, filmes, fotografias, cartazes guardados em seis casas. Livros recentes, livros antigos, alguns com mais de quatrocentos anos, que já precisaram de “ir ao congelador para matar os bichos”, como é o caso da coleção das obras de Goldoni, os pensamentos de Calvino, Erasmus, ou Voltaire, nas suas primeiras edições, a ficção de Balzac, as primeiras gravuras ocidentais feitas na China... Livros com os quais Pacheco Pereira conviveu desde criança e nos quais provavelmente ganhou o vício de ler e acumular.

Num dos maiores espaços, aquele a que chama escritório, o mar de livros é tal que Pacheco Pereira desaparece, ou corre o risco de sucumbir atrás de uma pilha de livros. Qualquer movimento brusco pode desencadear o desastre, ou seja, o fim do periclitante equilíbrio em que vivem todas aquelas colunas de livros. No entanto, adverte: “Está tudo organizado.” Os livros ‘sobem’ as escadas do lado esquerdo, até uma mezzanine, onde a capa é digitalizada, e ‘descem’ pelas escadas do lado direito, até serem divididos em montes, segundo a classificação que receberam. O arquivo físico segue a organização do arquivo digital. A acumulação não corresponde ao caos, mas sim à falta de espaço, garante. O político e investigador não despreza o digital, mas considera que o seu papel é diferente da existência física de documentos. “As pessoas não são digitais. A maneira como vemos, sentimos e nos relacionamos com os objetos é analógica, tem que ver com os nossos sentidos, mas o digital é importante na divulgação.”

Escola. Neste local que já foi escola, posto da polícia e Junta de Freguesia da Marmeleira, Pacheco Pereira encontrou mais um espaço para o seu arquivo, depois de recuperar o edifício em ruínas

Escola. Neste local que já foi escola, posto da polícia e Junta de Freguesia da Marmeleira, Pacheco Pereira encontrou mais um espaço para o seu arquivo, depois de recuperar o edifício em ruínas

nuno botelho

Na ausência de prateleiras que possam acolher mais materiais, Pacheco Pereira opta por guardar os documentos dentro de envelopes que coloca de seguida em sacos de compras ou caixas de frutas, generosamente oferecidas pelo dono do supermercado da Marmeleira.

A entrada nesta espécie de labirinto é impressionante, mas o que se segue faz parecer a primeira sala uma casinha de bonecas. Pacheco Pereira já tinha avisado que era um hors-d’ouvre. A quantidade é muita, incomensurável, e a variedade é tal que um poster do Partido Fascista Italiano desafia um do Partido Comunista. As T-shirts de uma campanha, os chapéus de chuva usados para fazer promoção aos partidos merecem um teto, tal como a caixa ‘mágica’ cheia de utensílios que a LUAR usava para falsificar documentos, no tempo da ditadura, ou as agendas do Octávio Pato, arrumadas numa prateleira vizinha. Entre as entradas mais recentes estão os livros de Francisco Pinto Balsemão sobre televisão e os de Emídio Rangel. Ocupam a mesma sala e foram colocados frente a frente em prateleiras opostas. Os primeiros foram enviados pelo próprio, os segundos pelas filhas do primeiro diretor da SIC. Olhar para os dois lados das estantes, acrescenta Pacheco Pereira, é perceber quanto os dois investiram na fundação do canal de televisão, um mais virado para o modelo de negócio, o outro sobretudo para a programação.

Há também uma sala na qual Pacheco Pereira guarda todo o material que usou para escrever os quatro volumes da biografia política de Álvaro Cunhal. As paredes da velha adega são grossas, e a humidade lá fora dificilmente as atravessa, mas há outros lugares onde os desumidificadores e o aquecimento se tornam muito importantes. Sem apoios estatais, que nunca pediu, porque quer “dormir descansado”, Pacheco Pereira garante que tem investido sobretudo o seu dinheiro, seja para manter o arquivo seja para lhe acrescentar novos espaços, como é o caso do edifício que chegou a ser escola, posto de polícia e Junta de Freguesia e que comprou em hasta pública, com uma oferta em carta fechada. Além da Marmeleira, da Ler Devagar, e do armazém do Barreiro, a Ephemera conta com outros pontos de recolha como o do Instituto de Investigação em Design, Media e Cultura da Universidade do Porto e o da galeria Mira Forum, no Porto, um café em Torres Vedras, e o Café Girassol e a sala da Associação de Comerciantes, em Viana do Castelo. Espera abrir mais um este mês na Figueira da Foz. É o início de uma rede que conta com pelo menos 150 voluntários, dos quais Pacheco Pereira apenas conhece parte, e que corre o risco de crescer. Até porque ao ser questionado sobre se vai parar, a resposta é pronta: “Não vai parar!”