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No país das Marias, dos Joões e, agora, dos Santiagos

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O nome é a primeira escolha que os pais 
fazem pelos filhos. No séc. XXI, nasceram em Portugal muitas Marias, Leonores, Matildes, Joões, Pedros. 
E os Santiagos começam agora a ser moda

Carolina Reis

Carolina Reis

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Jornalista

Sofia Miguel Rosa

Sofia Miguel Rosa

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Jornalista infográfica

Primeiro nasce a vida, depois o nome. Às vezes, nasce o nome antes de a vida se confirmar. Quase que são sinónimos, caminham lado a lado. O ser que começa a ser projetado é-o através de um nome. E um nome próprio é mais do que um simples nome. É como se fosse um exclusivo sonhado e desejado para uma criança. Mesmo que existam uns milhares a serem chamados da mesma maneira.

O ano passado — de acordo com os dados do Instituto dos Registos e do Notariado — nasceram 5699 meninas que receberam o nome de Maria; 1668 foram chamadas de Leonor; e 1639 batizadas como Matilde. Do lado dos rapazes, nasceram 1914 bebés com o nome Santiago; a 1772 foi dado o nome de Francisco; e a 1708 o de João.

Tem sido mais ou menos assim desde o início do século XXI (veja no site do Expresso o gráfico interativo com todos os nomes dados a bebés entre 2000 e 2017). No total, já nasceram 78.547 Marias (o nome mais escolhido desde 2005, e o segundo favorito entre 2000 e 2004); 28.714 Leonores (em 2017 foi o segundo nome mais popular, mas quando o milénio começou ocupava o 47º lugar da tabela das preferências); 32.074 Matildes (o terceiro nome mais popular em 2017); 14.502 Santiagos (o nome masculino mais escolhido o ano passado era pouco comum no início do século, em 2000 apenas 16 bebés foram assim batizados); 31.088 Franciscos (o segundo nome de rapaz preferido em 2017 está há 10 anos no ranking dos mais escolhidos); e 61.484 Joões (o terceiro lugar do ranking masculino, mas no ano 2000 foi o nome mais popular).

Já não há tantas meninas a receber o nome de Inês, Beatriz ou Mariana. Nem tantos rapazes a serem chamados de Diogo, Pedro e Tiago. As Carolinas ora vão descendo na tabela (nasceram 1348 no ano 2000, ocupando o 9º lugar da tabela das preferências), ora vão subindo (em 2005, foram 1948 meninas, o sexto nome mais escolhido). Ora vão descendo outra vez, em 2010 voltou a ser o nono nome mais escolhido (1397). E em 2015 voltou a subir, ao ser o quinto nome preferido (1228). O ano passado nasceram 1134 Carolinas, foi o quinto nome do ranking.

O José também é constante, apesar de estar a diminuir a popularidade desde que o milénio começou. Nasceram 2310 Josés no ano 2000 (foi o sexto mais escolhido); 1500 em 2005 (13º lugar da tabela); 933 em 2010 (19º lugar); 672 em 2015 (24º lugar) e 703 em 2017 (23º lugar).

“Um filho é um ser único e os pais tentam individualizá-lo ao máximo com o nome, mas acabam por cair na moda”, diz Lúcia Vaz Pedro, linguista. É a primeira decisão que tomam enquanto pais. A primeira escolha sobre a vida de alguém que ainda não chegou ao mundo.

É certo que os lugares cimeiros dos rankings dos nomes próprios mais populares não tem variado muito desde o ano 2000. Mas nomes que foram crescendo e se tornaram hoje comuns não tiveram expressão no fim do século XX. O curioso é que são considerados antigos, como Santiago, Francisco, Leonor ou Matilde. Estiveram ausentes dos rankings entre as décadas de 50 e 90. Durante os anos 80, por exemplo, nasceram muitas Joanas (22.099, 3º lugar); Carlas (21.521, 4º lugar); Sandras (20.378, 5ª posição); Andreias (19.865, 6º lugar); Susanas (16801, 7º lugar); Tânias (16.673, 8º lugar), Patrícias (16.610, 9º lugar); Cátias (16.550, 10ª posição). E muitos Pedros (39.659, 2º lugar da tabela); Brunos (37.548, 3ª posição); Ricardos (35.951, 4º lugar); Josés (35.442, 5º lugar); Luíses (31.075, 6ª posição); Nunos (28.563, 7º lugar); Carlos (26.433, 8º lugar); Tiagos (25.914, 9ª posição) e Ruis (23.085, 10º lugar).

Mais de um milhão de Marias

Nos primeiros lugares dos anos 80 destacavam-se as Anas (85.002, 1º lugar do top feminino); os Joões (46.251, 1º lugar do top masculino) e as Marias (40.904, o 2º lugar do ranking feminino). Os três foram os nomes mais populares entre 1980 e 1989. Continuam ainda hoje a ser nomes bastante populares, porém há um — quase se pode dizer desde sempre — que é o mais popular. Maria, o nome próprio de 1.302.155 (sim, é mais de um milhão) de portuguesas desde 1950.

“Até meados do século XX, em Portugal, e nos outros países do Sul da Europa, os nomes eram atribuídos às crianças através dos Santos do calendário. Todos os dias têm um santo, alguns até mais do que um, e as crianças costumavam receber o nome do santo do dia em que nasciam ou de outro dia”, explica Ivo Castro, professor catedrático de linguística jubilado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

E como quase todas as santas se chamam Maria — à semelhança da mãe de Jesus Cristo — a maioria das crianças do sexo feminino recebia esse nome. Nas décadas de 50 (514.968) e 60 (460.197), Maria era o primeiro de um nome composto. Com os anos tornou-se o primeiro e único nome próprio. “Hoje em dia, a maior parte das Marias já são nomes modernos. São só Maria. É uma moda recente. Antigamente, eram Marias de alguma coisa”, continua o especialista em onomástica.

A Maria religiosa transformou-se em Maria laica. “Mas as pessoas ainda escolhem o nome em função da religião. Acredito que há muitos Franciscos [o segundo nome masculino mais popular o ano passado] por causa do Papa Francisco. Muitos católicos se reconciliaram com a Igreja por causa dele”, defende Lúcia Vaz Pedro.
Com a perspetiva do nascimento, os pais inspiram-se no mundo à sua volta, seja na família ou nas referências culturais, para escolherem o nome que irá acompanhar aquele ser até ao fim da vida. Um nome é uma herança de família, faz parte de uma religião e cultura coletiva, ou pode vir dos livros, filmes, novelas. As Cátias Vanessas vêm, precisamente, daí.

“As modas surgem de um episódio ou de um personagem das novelas, do desporto, até da política. Quando nasceram os filhos do D. Duarte de Bragança, começaram a usar-se os nomes que ele lhes deu. As pessoas seguem um personagem que serve de modelo”, frisa Ivo Castro. Sem querer fazer futurismo, calcula que Cristiano e Ronaldo se tornem mais comuns. “Mas é olhando para o meio da tabela que se pode supor quais são os que vão subir no ranking”, defende o professor jubilado. Partindo dessa pista, Salvador (o 16º nome mais usado em 2017, com 907 bebés a receber esse nome) e Benedita (também a 16ª posição, com 634 meninas a serem assim batizadas o ano passado) poderão chegar aos lugares cimeiros da tabela da popularidade nos próximos anos.

Duelo por um nome

Da mesma forma que há um ranking dos mais populares, também existe um ranking dos menos populares. Dezenas de nomes que nunca ninguém ouviu, difíceis de pronunciar, e que foram colocados apenas a uma só pessoa. Sidak, Torcato, Tejbir, Kayo, Kirl, Ansh, Yahnoah, Oluwadem são alguns dos rapazes que o ano passado tiveram direito a um nome só para eles. Nas meninas, as escolhas exclusivas recaíram sobre Tainara, Ivlin, Edera, Raiane, Chenxi, Iracema e Pamela.

Muitos serão filhos de estrangeiros, outros devem a exclusividade à originalidade dos pais. “São nomes extraordinários... com a ocorrência de um”, sublinha Ivo Castro. O professor jubilado também foi perito do Instituto dos Registos e do Notariado, a figura chamada a desempatar quando a escolha dos pais não é aceite para registo.

Sempre que um nome fora do comum é aceite, abre-se uma caixa de Pandora. Todos os outros pais podem colocar esse mesmo nome nos seus filhos e aumenta a elasticidade do que é ou não aceitável. É que a lista oficial de nomes autorizados não é mais do que o conjunto de todos os nomes até hoje aprovados.

“Quando os pais vão fazer o registo do bebé declaram qual é o nome que querem dar. E aí acontece um momento importante. O funcionário do notário, enquanto falante de português, reage reconhecendo ou não o nome”, explica Ivo Castro. É aí que é chamado o perito a desempatar.

O professor desempatou muitas vezes e divide as vitórias entre 50% para o casal, 50% para os notários. “Se as pessoas acharem que estão cobertas de razão, então vale a pena insistir. Para o casal vale a pena reclamar, além disso está a aumentar a lista de nomes autorizados”, defende o especialista.

Pode até ser que Caprice (1 bebé nascido em 2004), Furaha (1 bebé nascido em 2002), Nelmo (1 bebé nascido em 2006), Guy (1 bebé nascido em 2009), Felizarda (1 bebé nascido em 2012), Om (1 bebé nascido em 2014), Minerva (1 bebé nascido em 2016) sejam replicados. Mas é difícil que se tornem populares. No que diz respeito à escolha dos nomes, os portugueses têm decidido seguir dois princípios: o tradicionalismo, os que recuperam o passado, e o conservadorismo, os que deixam o passado estar como está. Não se aventuram em excentricidades.