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Adolescente faz-se passar pelo chefe da CIA e acede a dados secretos

Não é propriamente um caso de ‘hacking’, mas daquilo a que os especialistas chamam ‘engenharia social’ – usar subterfúgios para obter informação que depois serve para aceder a mais informação

Luís M. Faria

Jornalista

Entre os 15 e os 16 anos, um britânico conseguiu, a partir do seu quarto em casa dos pais no centro de Inglaterra, fazer-se passar pelo chefe da CIA e por outros altos responsáveis de segurança junto de operadores telefónicos e de técnicos informáticos, acedendo a computadores, telefones e emails que deviam estar altamente protegidos, bem como a portais de uso exclusivo para agentes de autoridades.

Kane Gamble, residente em Coalville (Leicestershire), fundou um grupo chamado Crackas With Attitude e começou as suas atividades no verão de 2015. Prolongou-as por oito meses, até ser descoberto e preso. Ao que parece, as motivações dele foram políticas. “Tudo começou por eu estar a ficar cada vez mais irritado com o nível de corrupção e frieza do governo americano. Decidi fazer alguma coisa”, disse a um jornalista. Uma das situações que mais o indignavam eram as mortes injustificadas de negros às mãos da polícia nos EUA.

Agora que Gamble fez 18 anos, o tribunal que está a examinar o caso autorizou finalmente a divulgação publica do seu nome. Ele tem estado em liberdade sob fiança. Em Outubro, reconheceu-se culpado de uma dezena de crimes, e a sentença deve estar prestes a sair. Além do então líder da CIA, John Brennan, cujas comunicações pessoais penetrou, Gamble também fez o mesmo ao número 2 de Brennan e ao Secretário da Segurança Doméstica, Jeh Johnson.

No caso deste último, enviou mensagens a partir do telefone dele e ouviu-lhe o voicemail. Também o assediou com chamadas constantes, e com mensagens onde ameaçava que ia ter sexo coma filha dele. O uso de linguagem ameaçadora (“estás com medo?”) era uma característica do seu estilo.

Sadismo e vaidade

Segundo a acusação, o método de Gamble assentava em “manipular pessoas, invariavelmente pessoas de call center do do help desk, de modo a permitir certos atos ou divulgar informação confidencial”. Nuns casos fazia-se passar por funcionário da CIA, noutros pelo próprio diretor. Graças a esses estratagemas, teve acesso não apenas aos emails e contactos de Brennan, como até ao iPad da sua mulher.

Outras vítimas incluem o então Diretor Nacional de Inteligência, James Clapper (cujas chamadas fez desviar para o movimento Free Palestina) e diversos membros e assessores da administração Obama. Numa ocasião, deu um falso alerta à polícia, levando uma equipa Swat, armada até aos dentes, a invadir a casa do funcionário em questão.

Além do sadismo que algumas das atividades de Gamble parecem ter envolvido, um aspeto especialmente grave é o facto de ele ter recolhido dados pessoais sobre dezenas de milhares de funcionários do FBI e do Departamento de Segurança, bem como a informações sensíveis sobre operações no Médio Oriente.

Gamble vangloriava-se online daquilo do que estava a fazer. E terá sido um descuido que fez com que as autoridades americanas localizassem a origem do problema e contactassem o Reino Unido. Quando a polícia o prendeu em casa, Gamble tinha acabado de entrar no LEEP, um grande portal eletrónico que o FBI e outras agências de segurança utilizam.

O adolescente, que parece ter dificuldades no relacionamento social normal – segundo o tribunal parece ter confirmado, sofre de autismo – não resistiu a gabar-se na net: “Isto há-de ser o maior dos hacks”, disse. “Tenho acesso a todos os detalhes que o FBI usa para checar backgrounds”. Não foi por muito tempo.