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Valores humanistas, tecnologias e competitividade: os desafios da escola

O ministro da Educação foi um dos oradores presentes

ANDRÉ KOSTERS/ Lusa

O novo “Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória”, que entrou em vigor em julho, foi alvo de debate. O “Dia do Perfil” apela à consciencialização sobre assuntos como a competitividade nas escolas, a igualdade de oportunidades e as novas tecnologias no ensino

Joana Nabais Ferreira e Mariana da Silva Godinho

A competitividade na escola foi o tema que gerou maior discordância durante o debate que esta segunda-feira assinalou o "Dia do Perfil", uma iniciativa que pretende pôr a comunidade escolar e a sociedade em geral a refletir como se deve organizar e repensar o ensino e a escola.

Fernando Santos, selecionador nacional, familiarizado com este conceito, acredita que "a competitividade, desde que seja saudável, não faz mal a ninguém." "É algo natural", disse, posição que recolheu a concordância de Arlindo Oliveira, presidente do Instituto Superior Técnico, que entende que se deve deixar as crianças competirem na escola para que mais tarde consigam também competir na sociedade.

Presente no debate, o músico dos D.A.M.A Miguel Coimbra sustentou que o ensino deve ser mais cooperativo do que competitivo, o que segue a linha de pensamento de Laborinho Lúcio, jurista e professor universitário, que admite que "a escola tem de treinar para a competição mas não deve ser ela própria competitiva".

O painel de oradores da conferência "Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória" contou com a presença de personalidades de diferentes áreas, desde o desporto à música. Catarina Furtado, apresentadora de televisão e embaixadora das Nações Unidas, foi a moderadora do debate organizado pelo Ministério da Educação e em colaboração com a Federação Nacional de Associações de Estudantes dos Ensinos Básico e Secundário.

O novo "Perfil dos Alunos" é um documento de referência, onde estão disponíveis os oito princípios que orientam, justificam e dão sentido aos 12 anos de escolaridade obrigatória, bem como as 10 áreas de competências desejadas num aluno ao sair do ensino secundário.

Laborinho Lúcio considera que o documento "exige da nossa parte um compromisso" e que visa "a inclusão de todos os alunos e de cada um em concreto", o que vai ao encontro do prefácio de Guilherme d'Oliveira Martins, coordenador do grupo de trabalho do perfil. Na sua opinião, o documento não visa "qualquer tentativa uniformizadora, mas sim criar um quadro de referência que pressuponha a liberdade, a responsabilidade, a valorização do trabalho, a consciência de si próprio, a inserção familiar e comunitária e a participação na sociedade que nos rodeia..

Não houve dúvidas para o painel no que toca à heterogeneidade das turmas. "A escola tem de responder a todos", defendeu Bárbara Wong, jornalista do "Público". Laborinho Lúcio foi mais longe dizendo que "existiriam modelos perfeitos se tirássemos os alunos de lá" e sugerindo que o primeiro mês de cada ano letivo funcionasse como um tempo de inclusão de cada aluno na escola. O antigo ministro acrescentou ainda que tem de se dar igualdade de oportunidades a todos e realçou que essa igualdade vai para além do igual acesso à escola pública. "A educação é um pressuposto para que a igualdade de oportunidades se consiga", frisou.

Mais disciplinas opcionais

Miguel Coimbra, o mais jovem dos oradores, criticou os professores e pais que tratam as crianças "como se fossem inúteis". Estando numa faixa etária mais próxima, o músico considera que os jovens de hoje em dia têm mais conhecimentos do que o que se julga. Antes de terminar a sua intervenção, apelou à possibilidade de serem implementadas logo no 7.º ano disciplinas opcionais como fotografia, enfermagem, voluntariado, teatro ou informática.

A tecnologia ocupou grande parte da discussão e concluiu-se pela necessidade de mudar o modelo tradicional de ensino: em vez do professor que debita matéria para a plateia será preferível adotar um modelo que inclua as novas tecnologias, o que, segundo Arlindo Oliveira, "tem o potencial de cativar os jovens".

No final da conferência, e apesar de algumas divergências, os oradores concordaram que os valores humanistas são a base do "Perfil do Aluno" e que estes podem ser passados através da tecnologia, sem serem vistos como concorrentes entre si.

A conferência nacional decorreu na Fundação Champalimaud, em Lisboa, e foi acompanhada em direto por mais de 300 escolas por todo o país, desafiadas a prolongar este debate com os seus alunos em conferências locais.