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Para onde vão os europeus?

Sem medo das ameaças terroristas, continuam a visitar 
as grandes capitais, mas isso não os impede de descobrir novas 
regiões (também em Portugal) ou de apostar em viagens intercontinentais. O Expresso mostra os destinos turísticos preferidos na União Europeia e quais os Estados-Membros mais viajados

João Miguel Salvador

João Miguel Salvador

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Jornalista

Carlos Esteves

Carlos Esteves

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Infografico

getty

Se imagino, vejo. Que mais faço eu se viajo? Só a fraqueza extrema da imaginação justifica que se tenha que deslocar para sentir.” No “Livro do Desassossego”, Fernando Pessoa mostrava, pela voz do seu semi-heterónimo Bernardo Soares, uma visão de viagem muito diferente da que os europeus hoje partilham, mas se as vontades diferem os tempos também são outros. “Na realidade, o fim do mundo, como o princípio, é o nosso conceito do mundo. É em nós que as paisagens têm paisagem. Por isso, se as imagino, as crio; se as crio, são; se são, vejo-as como às outras. Para quê viajar? Em Madrid, em Berlim, na Pérsia, na China, nos Polos ambos, onde estaria eu senão em mim mesmo, e no tipo e género das minhas sensações?”

A verdade é que mesmo estando em si mesmos, a gozar cada um das suas sensações, os europeus parecem apostar cada vez mais nas viagens dentro da União Europeia para construírem o seu eu, numa identidade europeia que é cada vez mais intercultural. De acordo com os dados mais recentes, disponibilizados pelo Eurostat em julho, “cerca de 90% das noites passadas em turismo na UE são gozadas por residentes da UE, pelo que o turistas de fora da UE representam apenas cerca de 10% do total”, mostrando que é dentro do espaço comunitário que a maior parte dos dias em lazer são passados. “Os residentes da UE gozam 85% das suas noites em turismo dentro da UE”, diz o gabinete de estatística comunitário, que aponta também para os destinos no top de preferências (ver infografia).

Segundo os dados recolhidos em 2015, são várias as regiões espanholas, italianas e francesas que figuram nos lugares cimeiros (as Ilhas Canárias, Île-de-France e Catalunha são as preferidas), com o turismo extracomunitário a ter números menos expressivos. Ainda assim, “os Estados Unidos e a Turquia parecem ser os destinos preferidos — em termos de noites despendidas — dos residentes da UE quando viajam para fora da UE”. À época, os Estados Unidos eram os preferidos dos residentes da Irlanda, França, Luxemburgo, Hungria, Polónia, Finlândia, Suécia e Reino Unido, com os búlgaros, checos, alemães, holandeses, austríacos e romenos a preferirem a Turquia. Os belgas e os espanhóis optavam por visitar Marrocos.

infografia carlos esteves

Embora os europeus pareçam cada vez mais interessados em conhecer novos destinos, esta é apenas a realidade no seio da União, uma vez que o turismo extracomunitário ainda não está ao mesmo nível (ou ao alcance de todos). Fazendo uso dos últimos estudos divulgados em 2017, os cidadãos britânicos e estonianos eram os que mais noites passavam fora da UE, seguidos pelos belgas, croatas, lituanos, austríacos e luxemburgueses. Na cauda da tabela estavam a Eslováquia, Polónia, Espanha, Bulgária, França, Portugal, República Checa, Grécia e Roménia. Quanto ao país com os residentes mais viajados, o recorde (tendo em conta a sua população) é do Luxemburgo, onde cada habitante passa em média 22,3 noites fora do país por ano, seguido pelo Chipre (18,7 noites). Do outro lado estão a Roménia, a Bulgária e a Grécia, com menos de uma noite fora de fronteiras.

Em dezembro, o Eurostat revelou novas informações sobre o comportamento dos turistas europeus, mostrando como os residentes do espaço comunitário têm mudado os seus hábitos de consumo. Em 2016, os residentes do 28 Estados-membros (com 15 ou mais anos) fizeram 1,2 mil milhões de viagens de turismo, com a maior parte (58%) a ter uma duração curta (de uma a três noites) e acontecer num destino doméstico (74,4%). Embora este seja o comportamento de um europeu em termos médios, este não é o espelho da totalidade, pelo que vale a pena olhar para alguns casos para entender a realidade. Mais de metade das viagens feitas pelos residentes do Luxemburgo, Bélgica, Malta e Eslovénia são para fora de portas, ao passo que apenas 10% das viagens feitas pelos habitantes da Roménia e de Espanha são para o exterior. De acordo com a UE, as principais razões para estes números são “o tamanho dos Estados-membros, assim como a sua localização geográfica (países mais pequenos e situados mais a norte tendem a reportar uma maior propensão para que os seus residentes viagem para o estrangeiro)”.

PORTUGAL AO GOSTO EUROPEU

De acordo com o estudo “O Viajante Europeu: Tendências e Previsões”, apresentado em dezembro de 2017 pela eDreams ODIGEO, as cidades de Lisboa e Porto foram dois dos destinos preferidos dos turistas europeus no último ano. A capital portuguesa foi a quinta cidade mais procurada pelos turistas europeus, registando um aumento de 17% face a 2016, enquanto a Invicta foi a nona escolha dos turistas na Europa, com uma procura 12% acima do ano passado, mas as duas maiores cidades não são as campeãs de crescimento.

A Terceira, nos Açores, foi o destino europeu de curta distância com maior crescimento entre os viajantes de toda a Europa (com crescimento superior a 155% face a 2016), ao passo que Ponta Delgada, em São Miguel, foi a quinta cidade mais procurada em viagens de curta distância (um aumento de procura na ordem dos 61%). De acordo com o Governo Regional dos Açores, citado pelo relatório global, o aumento da procura é justificado “pelo investimento no turismo e pela introdução de novos voos low cost de e para os Estados Unidos da América, Reino Unido, Alemanha, Espanha e Portugal Continental”. Da lista dos 10 destinos de curta distância que mais cresceram fazem também parte Podgorica (+83%), Gdansk (+77%), Salzburgo (+75%), Chișinău (+60%), Timișoara (+54%), Ancara (+53%), Salónica (+51%) e Hamburgo (+47%). Segundo o mesmo estudo, “estes destinos têm beneficiado de um aumento de voos disponibilizados por companhias aéreas low cost em toda a Europa”.

No entanto, e apesar do franco crescimento nacional, os dados tratados pela eDreams (que registou 18 milhões de passageiros este ano, através das suas marcas eDreams, Opodo, GO Voyages e Travellink) mostram que Londres ainda lidera, registando um aumento de popularidade de 24%. A nível global, a capital britânica foi a cidade mais visitada pelos turistas europeus (seguida por Barcelona, Maiorca e Paris), embora não tenha sido a eleita dos portugueses. Os turistas lusos preferiram a Cidade-Luz a Londres e elegeram Paris como cidade estrangeira de eleição em 2017, colocando a maior cidade do Reino Unido na segunda posição. Pelo que dizem os números, os europeus têm mostrado que não pretendem mudar o seu modo de vida por causa do terrorismo, apostando em “grandes cidades que sofreram incidentes relacionados com o terrorismo nos últimos anos”. Ao forte crescimento de Londres soma-se o de Berlim, que subiu 10%, e mesmo o de Paris, com cerca de 4% face a 2016.

A ÚLTIMA FRONTEIRA

Com a entrada no novo ano, cresce também a vontade de marcar as próximas viagens e o estudo da eDreams ODIGEO volta a frisar que “há vários anos que existe sempre a expectativa de as companhias aéreas entrarem em saldos no mês janeiro”. “Em toda a Europa as reservas mais rápidas são efetuadas para viagens realizadas no início do ano, possivelmente para coincidir com estas ofertas.” Em termos globais, e olhando já para as reservas para 2018, Singapura (+163%), São Francisco (+158%), Joanesburgo (+156%), Tóquio (+146%) e Istambul (+138%) ocupam as cinco posições cimeiras, mas os europeus também estão interessados noutras paragens — incluindo o Funchal (+114%) e Ponta Delgada (+81%). Parece possível que “2018 seja o primeiro ano em que as viagens de longo curso low cost se vão tornar habituais em todo o mundo”, mas ainda são precisos números efetivos para ter todas as certezas.

Entre as pequenas viagens de fim de semana e os destinos de longo curso, são muitas as opções dos turistas europeus e o último ano mostrou que os habitantes do Velho Continente estão cada vez mais interessados em conhecer novas paragens. As reservas para viagens de longo curso registaram um aumento de 29% no espaço de um ano, algo que é explicado também pela “redução nos preços das viagens de longo curso, graças à entrada de companhias low cost nestas rotas”. Com o custo dos voos deste tipo de ida e volta a diminuir 7% — de 610 euros em média durante 2016 para 569 euros em média em 2017 — nos 100 principais destinos de longo curso reservados pelos europeus, houve novas oportunidades (ou desculpas) para viajar. No último ano, os destinos de longo curso que mais cresceram foram Punta Cana (+147%), Nova Deli (+103%), Singapura (+79%), Praia (+76%), Havana (+67%), Katmandu (+67%), Cidade do Cabo (+64%), Bogotá (+62%), Sydney (+58%) e Seul (+57%)

Voltemos a Pessoa, até porque também ele tem algumas conclusões sobre o ato de viajar. “A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos”, escreveu. Hoje os europeus são mais de cada local que visitam, seja ele dentro ou fora de portas, quer esteja a alguns minutos de carro ou a várias horas de avião. Numa altura em que o turismo já representa 7% das exportações à escala mundial e 10% do PIB global, a tendência é que cada vez conheçamos melhor a cultura do outro e que esta seja também a nossa. A Organização Mundial de Turismo já começou a olhar para o futuro e prevê que este continue a crescer até 2030. Que muito se viaje até lá.