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O primeiro carré da Hermés desenhado por uma portuguesa

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A peça exclusiva executada pela artista Bela Silva estará à venda em terras lusas no final de janeiro

Ser dono de um carré da Hermès é mais ou menos equivalente a ter uma cadeira Panton na sala. São ambos clássicos, um do mundo da moda, outro do design. Tornaram-se clássicos porque, ao longo dos anos, resistiram às novidades, pela sua qualidade intemporal.

À semelhança dos relógios Patek Philippe, que passam de geração em geração, uma avó pode dar à neta um carré da casa Hermès sem correr o risco de parecer antiquada. Como uma boa mala que resiste aos ciclos da moda e passa de mãe para filha, um carré – lenço de seda de 90 por 90 cm, que pode ser usado ao pescoço, na cabeça, no pulso ou à cintura – nunca passa de moda.

Agora, uma artista portuguesa vai entrar na história destes adornos têxteis: Bela Silva desenhou o último carré da casa francesa fundada em 1837, que nomeou "La Maison des Oiseaux Parleurs". Já anda nas montras de Paris, mas a Portugal chegará no fim do mês (PVP €360). Em vários tons de azul e beje, são os pássaros e as flores que chamam de imediato a atenção. Foi no trabalho de colagens, essencialmente, que Bela Silva se inspirou, como explicou ao Expresso por telefone, desde a Bélgica, onde vive há seis anos. Focou-se no imaginário dos "papéis antigos, dos animais, dos cabinets de curiosités" do Renascimento, explica.

No início do processo criativo esteve o livro persa "Conferência dos Pássaros", do poeta Farid ud-Din Atta, onde a artista foi buscar a ideia de diálogo. Foi assim que surgiu o nome do carré, "La Maison des Oiseaux Parleurs" ("A Casa dos Pássaros Falantes"). Ao todo, foi um período de dois anos de trabalho, ao abrigo da confidencialidade, dos primeiros encontros à manufatura do carré, a cargo de "uma equipa fantástica, de gente que trabalha com as mãos", destaca Bela Silva. Gravura, coloração e impressão são assegurados pelos experientes artesãos que transformam desenhos em carrés de seda.

A artista confessa que fazer um carré para a Hermès "era um sonho de há muito". A mãe era costureira, e Bela sempre conviveu com padrões, o que lhe deu proximidade ao universo do têxtil. E claro, trabalhar com uma casa com a tradição e qualidade da Hermès também pesou. "Sou a primeira artista portuguesa a trabalhar para a Hermès", diz com orgulho.

Tudo começou quando uma pessoa da casa francesa viu os seus desenhos numa exposição em Paris, e decidiu visitá-la no seu ateliê de Bruxelas. "Disseram-me: os seus desenhos não são muito o estilo Hermès, mas gostámos muito do seu traço." Depois, em Paris, "quiseram dar-me um tema, mas eu expliquei que bloqueava quando isso acontecia...", revela. "E foi assim. Fiz três desenhos, de rajada, e funcionou."

O carré desenhado pela portuguesa Bela Silva, "La Maison des Oiseaux Parleurs" já se pode ver nas montras de Paris. A Lisboa, chega no fim de janeiro

O carré desenhado pela portuguesa Bela Silva, "La Maison des Oiseaux Parleurs" já se pode ver nas montras de Paris. A Lisboa, chega no fim de janeiro

Hermès

Foi a primeira vez que Bela trabalhou num desenho tão pequeno, de 90 por 90 cm. A artista, que viveu muitos anos em Nova Iorque e noutras cidades do mundo, afirma: "Hoje em dia, o meu país é o meu ateliê".

Em Portugal, notabilizou-se pela obra de ceramista, tendo trabalhado estreitamente com a Fábrica de louça Bordallo Pinheiro. Licenciada em Escultura, e Mestre em Arte pelo Art Institute de Chicago (EUA), já expôs na Ann Nathan Gallery e Rhona Hoffman Galler, de Chicago; e também em Portugal, Brasil, Espanha, França, China e Japão, entre outros países.

A história do quadrado de seda

Foi há quase um século que nasceu o primeiro carré da Hermès. Hoje, vende-se um a cada meia hora. Em 1937, o então diretor da Casa, Robert Dumas, criou o primeiro carré, a que chamou "Jeu des Omnibus et Dames Blanches", inspirado num popular jogo da época. As dimensões ficaram fixadas em 90 por 90 cm, e o material é sempre a seda.

Os motivos decorativos começaram por ser do mundo equestre, da caça e das carruagens, associadas à génese da Hermès. Depois, foram-se diversificando: dos animais ao desporto automóvel, do desporto aos símbolos gráficos. O acessório que começou por ser essencialmente feminino, é hoje também uma opção para homens. Duas vezes por ano, a coleção é renovada.

Cada carré é chamado de papillon (borboleta) pela casa Hermès, porque corresponde à produção de 300 ovos, a capacidade máxima de produção do bicho da seda durante a vida (na verdade, corresponde a 450 km de seda). Este processo moroso e manual, feito nos ateliês da casa em Lyon, é típico do segmento do luxo. Desde 1937, são mais de 1500 os motivos serigrafados dos Carrés Hermès. Agora, uma assinatura de Portugal passa a constar dessa história.