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Há pedidos de desculpas que chegam tarde, como os da Apple

reuters

Há dias, a minha filha, pré-adolescente, descobriu uma falha de segurança no meu iPhone 6. Conseguiu desbloqueá-lo, sem saber o código que uso para entrar nem ter o dedo dela digitalizado. Fê-lo várias vezes à minha frente e eu tive de reconhecer o seu “enorme” feito. Pelo que percebi, a falha de segurança deve decorrer do facto de eu não ter feito a atualização, instalando o novo software: o iOS11. Mas não o fiz conscientemente, porque gente especializada e conhecedora me avisou que o meu iPhone se tornaria mais lento e a bateria acabaria por ficar pior do que já estava, ainda que tenha sido obrigada a mudá-la na mesma.

Mudei a bateria em dezembro, antes de a Apple reconhecer que o novo software não lhe dava saúde. E fi-lo porque estou cansada. Porque preferi ter uma bateria nova a mudar de telemóvel a cada dois anos, até porque os novos telemóveis da Apple não parecem acrescentar muito aos antigos.

A falha de segurança que a minha filha encontrou não é, porém, o único problema que vou ter caso decida manter este iPhone; resistindo estoicamente à pressão que a Apple faz sobre os seus clientes para mudar de telemóvel de dois em dois anos.

Já percebi que algumas aplicações que uso, e outras que gostaria de usar, vão deixar de correr no meu telemóvel caso insista em manter o iOS10. Para alguém como eu, isto auspicia o fim de uma longa relação amorosa (e quando uso “amorosa” não é a brincar); iniciada nos anos 90, quando, inexplicavelmente, consegui convencer os meus pais a comprarem-me um Macintosh portátil, lindo, que ainda guardo como relíquia.

A Macintosh, porque era assim que se chamava à Apple nessa época, fez parte das minhas preferências, de modo quase religioso, durante muito tempo, ainda que tenha tido um PC.
Descobri muito mais tarde, durante a leitura da biografia de Steve Jobs, que “entrei” e “saí” da marca com ele, e voltei a “entrar” quando ele voltou. Ou seja, sem o saber, eu tinha sido fiel, não à marca, mas ao seu guru – descartando uma fase de computadores horríveis, às cores, que a mim me pareciam mais sapos do que príncipes.

Voltei à Mac, da maçãzinha, já com Steve Jobs a liderar, novamente com os portáteis. Não me arrependi. Gosto de computadores fiáveis que não precisam de antivírus, nem de “mecânicos”, de máquinas que estão sempre prontas a andar, e que quando vão abaixo basta reiniciar. Não posso, aliás, contar outra história, porque se a contasse estaria a mentir. Durante estes anos nunca saí a correr de casa para ir a uma loja de computadores.

A história de a Apple estar a entrar, através de um software “maligno”, deliberadamente dentro do meu telemóvel para me obrigar a comprar um novo telemóvel não me parece compatível com a ética adequada a uma empresa que quer sobreviver como “supermarca”, e também com aquilo que eu acho aceitável como consumidora. É muito feio, agressivo, e descaradamente manipulador.

Esta “habilidade” do iOS 11, revelada à semelhança de outras falhas por um adolescente, obrigou a empresa a dar o braço a torcer, a reconhecer que estava, de facto, a trabalhar para reduzir a performance do telemóvel e a autonomia das baterias.

Vieram as desculpas da Apple, tarde demais, e um desconto. Sendo que o preço para trocar a bateria (29 euros) não é manifestamente reduzido, tendo em conta que, na maioria dos casos, foi o software fornecido pela própria empresa que lhes diminuiu a autonomia.

Começo a achar que, mais dia menos dia, estará na hora de partir. Há desculpas que, além de chegarem tarde, não servem de desculpa. Até porque o que a Apple me está a pedir de antemão, como este iOS 11, é que eu leve o carro à oficina para fazer a revisão, e que ele venha de lá pior, e ainda assim que eu continue feliz e contente, ao ponto de querer comprar um novo. Um novo que, quando a Apple decidir, também deixará de me servir.