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Disse-me um adivinho

Ilustração HELDER OLIVEIRA

Sabe o que está nas quatro páginas seguintes? Não? Foi precisamente para isso, para saber o que nos reservam os próximos doze meses, que recorremos à ajuda de astrólogos e videntes, nacionais e estrangeiros. O resultado final? Digamos que podia ser melhor. Bastante melhor

Ricardo Marques

Ricardo Marques

texto

Jornalista

Helder Oliveira

ilustração

O horóscopo para hoje é tudo menos mau. A vida sentimental está numa fase “ascendente” e o indivíduo está “sujeito a desenvolvimentos positivos e boas oportunidades” — uma nota positiva a escassas horas de ter de colocar o último ponto final num artigo sobre as previsões astrológicas, e não só, para o ano que ainda agora começou. Conhecendo o futuro, como só conhecem alguns dos intervenientes que vão entrar mais à frente no texto, era bom que já tivesse acabado. A lista de acontecimentos para 2018 é um autêntico menu de catástrofes: terramotos, vulcões, golpes e guerras, atentados, crises económicas... e um bebé real. Sim, o terceiro filho de William e Kate vai ser um menino. É um mundo em mudança em que apenas uma coisa ficará igual — Donald Trump continuará a ser Presidente dos EUA, apesar de todas, e serão algumas, as tentativas em contrário.

A máquina do tempo é um pouco como os aviões. Antes de descolar, convém reter alguns avisos fundamentais. O mais importante é que, não obstante o que se possa escrever, nada garante que venha a acontecer. Há uma frase, ainda não famosa, de Craig Hamilton-Parker (o apelido pode indiciar alguma ligação à nobreza, mas Craig e a mulher, Jane, não passam de superestrelas da astrologia britânica capazes de encher pavilhões em verdadeiros concertos de previsões), que resume bem o que aqui está em causa: “Tenho sido bem-sucedido nas minhas previsões nos últimos anos, e acertado bastante, mas, lembrem-se, eu sou falível... Portanto, vamos ver como me saio”, escreveu há dias na sua página de internet.

Craig parece cauteloso, só que é puro engano. Poucas linhas depois do aviso atira uma bomba para 2018: vai ocorrer uma erupção do Vesúvio e a cidade de Nápoles será evacuada. Está no capítulo dedicado às previsões ambientais para este ano, onde se pode ler ainda que haverá um incremento da atividade sísmica a nível global, como terramotos em locais que há mais de mil anos não são atingidos, e que o desprendimento de um enorme bloco de gelo na Antártica vai dificultar a navegação. Além, claro, de mais incêndios nos Estados Unidos da América e na Austrália, de inundações na Índia e na China e de furacões, violentos, nas Caraíbas. O tempo até pode estar bom para previsões, mas as previsões sobre o tempo não são mesmo nada boas. A astróloga portuguesa Alexandra Gomes Costa, criadora do projeto ‘Vénus em mim’, puxa o tema para o plano nacional e admite que “assuntos como o aquecimento global, os incêndios e as intempéries, que afetem meios mais desenvolvidos, sejam notícia”.

Convém esclarecer que o novo ano astrológico só começa a 20 de março de 2018, às 16h15, com o equinócio da primavera — portanto, apesar de janeiro já levar uma semana, na verdade ainda estamos no ano passado. “O final de 2017 foi marcado por um importante evento astrológico que acontece, aproximadamente, de 29 em 29 anos”, explica Alexandra. “Manifesta a reestruturação do sistema a nível económico, político e ambiental, prometendo transformações à atual conjuntura durante o ano de 2018 e continuando até 2020.” A astróloga antevê que “o ritmo desta influência vai ser sublinhado” e que iremos assistir “a amplas transformações, com destaque para reestruturações políticas, que não serão fáceis nem ocorrerão de uma hora para a outra, podendo levar até dois anos”. É uma forma de dizer, ou de ler, que isto está apenas a começar.

É fácil ficar angustiado (e esquecer as palavras de Hamilton-Parker) mas, por outro lado, a história tem a capacidade de nos provar a todo o momento que o mundo é mesmo redondo. O jornalista italiano Tiziano Terzani tem um livro chamado, em português, “Disse-me um Adivinho” — que não só previu, certeiro, o título deste artigo do Expresso do início de 2018, como descreve de forma exemplar os estranhos caminhos do destino. Ao levar a sério o aviso de um adivinho chinês, que lhe garantira 16 anos antes que seria muito perigoso andar de avião em 1993, Terzani, na altura correspondente na Ásia, decidiu fazer todas as viagens à superfície, por terras e mares do Oriente obcecado pela tecnologia, e no fim escreveu um livro sobre os adivinhos e místicos com quem se cruzou pelo caminho. Foi como atravessar o futuro pelos caminhos do passado, para chegar sempre ao mesmo presente. E por isso aqui estamos, prestes a andar um pouco para trás de modo a melhor seguirmos para a frente.

Ilustração HELDER OLIVEIRA

Craig Hamilton-Parker, e a sua mulher Jane, têm das previsões mais abrangentes, e ao mesmo tempo específicas, que é possível encontrar na imprensa britânica. Saltando a categoria ambiental, chega-se ao capítulo ‘Conflitos mundiais e terrorismo’. Nada bom. “O embargo comercial à Coreia do Norte vai falhar. Os EUA vão atacar uma linha ferroviária e uma ponte para interferir com as importações norte-coreanas”, revelam os Hamilton-Parker, segundos os quais “Kim Jong-un será deposto pelo seu próprio povo”. O corpo do ditador norte-coreano nunca será encontrado e não faltará quem acredite que sobreviveu ao golpe e fugiu para a China. Ainda na Coreia do Norte, o casal admite que o regime se possa aliar a grupos terroristas para lançar um ataque biológico que levará a uma epidemia de gripe à escala global. O mesmo capítulo dedica mais algumas linhas aos seguintes acontecimentos: incremento da cooperação militar entre os EUA e o Japão (os japoneses vão ‘alugar’ o sistema de defesa antimíssil dos americanos); a Ucrânia vai ser acusada de venda ilegal de mísseis e tecnologia militar; uma nova fraude envolvendo as bitcoins [a moeda oficial da dark web] vai ser exposta e uma capital europeia, “talvez Londres ou Berlim — ou ambas”, será atacada por terroristas que lançarão um ataque químico usando drones.

Os ingleses adoram videntes e espíritas, mais ainda quando vêm aos pares. E se forem irmãs gémeas, como Terry e Linda Jamison, é sucesso garantido. Some-se a tudo isso o facto de, como alegam as gémeas, terem previsto,entre outros, os atentados de 11 de Setembro nos EUA e de conseguirem comunicar com os falecidos Michael Jackson e princesa Diana de Gales, e as linhas que se seguem ganham uma nova força. “Vão ser dois anos muito caóticos os que temos pela frente. É melhor apertar o cinto”, disseram ao “Daily Star Online”, sem saberem que, há uns parágrafos atrás, se usou nestas páginas a metáfora do avião e dos avisos que antecedem a descolagem. E o que dizem elas? Mais ataques terroristas na Europa e no mundo. “Os grupos terroristas — e os lobos solitários inspirados por eles — vão estar focados em mercados, centros comerciais, locais de oração, escolas, eventos desportivos, hotéis, concertos e aeroportos. Os sistemas de transporte também vão ser alvos. Há planos em curso para atacar aeroportos e comboios em várias grandes cidades”, asseguram as gémeas Jamison.

A história está cheia de adivinhos famosos e alguns nem são bem reais. Veja-se o caso de Cassandra, que estava a dormir com o irmão gémeo Heleno no Tempo de Apolo, depois de um dia inteiro a brincar, e duas serpentes lhes deram o dom de ouvir as conversas dos deuses. Anos mais tarde, a jovem foi castigada por Apolo, que lhe ensinara os caminhos da profecia e que ficou furioso ao ser rejeitado, e condenada a que ninguém acreditasse nas suas previsões — que estavam sempre certas. Outro adivinho famoso da mitologia grega é Tirésias, o cego que via o futuro — e a quem aconteceu um pouco de tudo e quase tudo mau. O que raramente acontece é um adivinho adivinhar outro adivinho, pelo que nem Cassandra nem Tirésias ou Hamilton-Parker alguma vez falaram de Baba Vanga. Chamam-lhe a Nostradamus dos Balcãs e, diz-se, a mulher cega foi capaz de prever o ataque às Torres Gémeas, a eleição de Barack Obama e o ‘Brexit’, mesmo tendo morrido em 1996, na atual Bulgária. Para este ano, Baba Vanga deixou dois ‘recados’: a China vai ser a nova superpotência mundial e vai ser descoberta uma nova forma de energia em Vénus.

O ano de 2018 é o ano do planeta Júpiter. É ingénuo pensar que a astrologia é algo simples, independentemente de se acreditar muito, pouco ou absolutamente nada. Planetas, astros, mapas, signos, posicionamentos, ascendentes... A astróloga Isabel Guimarães, que é vice-presidente da Sociedade Internacional para a Investigação Astrológica (ISAR, sigla em inglês) e formadora certificada de astrologia, reconhece que o fim do ano não é a altura indicada para falar com jornalistas. “Há sempre um aumento da procura, além de toda a burocracia relacionada com o o fecho do ano...”, explica. Mas difícil não é impossível. E o que aí vem é bastante semelhante ao que já foi escrito. “Ao longo do ano com o planeta Júpiter, regente do signo de Sagitário e corregente de Peixes, situado no signo de Escorpião, pelo menos até novembro, será sentida a expansão de projetos, mudanças de leis e tendência para o fanatismo”, revela Isabel Guimarães.

“Na sociedade podemos esperar descoberta de muitos segredos e de muita manipulação, exigindo de todos um maior despertar e consciência do ser com base na estrutura e na sabedoria adquirida. As parcerias que não estejam na vibração de partilha e crescimento podem levar a ruturas abruptas, sendo importante o recurso à forte convicção nos valores que regem as instituições, governos e empresas. Teremos bem marcado as negociações nas atividades diplomáticas e políticas, podendo assistir-se a mudanças drásticas de governos e de políticas internas e externas de cada país. As viagens e o mercado externo conhecerão maior crescimento e poderemos assistir a contratos entre países nunca antes realizados e a meios de transportes alternativos mais inovadores, com a reentrada de Urano em Touro a meio do ano”, acrescenta a astróloga portuguesa.

Numa dimensão completamente diferente, a vários níveis, é possível encontrar algo parecido quando se fala de transportes alternativos. O enredo está prestes a complicar-se, agora que vai entrar em cena um americano identificado apenas como Noah — e que foi notícia um pouco por todo o mundo. Ao contrário da maioria dos videntes, que encontra nos sucessos do passado a chave para o êxito quando fala no presente sobre o futuro, Noah apresenta-se como um homem de 50 anos, vindo do futuro, do ano 2021, para nos falar do presente, em que é um rapaz de 25 anos, e do seu passado, ou seja, do período entre 2018 e 2030, onde esteve de visita. Num vídeo divulgado pelo canal de YouTube Paranormal Elite, Noah acrescenta, em lágrimas, que está preso no presente — e a viver na América do Sul por razões de segurança — e promete que, dentro de quatro anos, o mundo inteiro poderá comprovar que é verdade tudo o que diz. E diz o seguinte: todas as pessoas vão usar um aparelho semelhante aos óculos da Google; a realidade virtual vai tornar-se cada vez mais popular, os carros elétricos e automáticos vão conhecer um enorme desenvolvimento, tal como a inteligência artificial e as energias renováveis; e Donald Trump vai vencer as eleições presidenciais americanas de 2021.

Ilustração HELDER OLIVEIRA

O Presidente dos Estados Unidos da América, uma das figuras do ano de 2017, é também um dos mais visados pelas previsões para 2018. Não é apenas Noah, o viajante do tempo, a garantir que daqui a doze meses, por muito que o mundo mude e dê voltas, Trump estará mais ou menos no mesmo sítio. O casal Hamilton-Parker assegura que o Presidente vai escapar a uma tentativa de impeachment, a meio do ano, e verá a sua popularidade crescer (isto enquanto a primeira-dama, Melania, e os netos de Trump lançam uma canção para recolher fundos para uma instituição de caridade). A Casa Branca vai também anunciar um gigantesco acordo comercial com o Reino Unido em áreas como a defesa, tecnologia e serviços, concluído antes do ‘Brexit’ e levar a um abalo significativo na União Europeia. Ao mesmo tempo, Trump terá de lidar com uma aliança militar e económica entre a China e a Rússia, por conta da Coreia do Norte, e com o naufrágio de um navio de guerra da marinha norte-americana (não é claro se será causado por uma mina ou por um atentado terrorista).

Convém recordar que os Hamilton-Parker estão no Reino Unido a olhar para o mundo. E se dentro de casa antecipam um ano complicado (Theresa May no poder; greves; ‘triunfo’ nas negociações do ‘Brexit’ e saída de Jean-Claude Juncker, além de um terrorista a matar civis num engarrafamento provocado por um falso acidente numa autoestrada), quando se focam na Europa, as coisas são muito piores. Senão vejamos: a Itália vai ser atingida por uma grave crise bancária, que lançará o caos no país e levará muitos italianos a perderem as casas; o euro vai cair a pique no final do ano e 2019 vai começar com protestos violentos nas ruas; a Itália e a Dinamarca podem muito bem abandonar a União Europeia. E o resto do mundo: conflito entre a Índia e o Paquistão, cada vez mais ciberataques e o desaparecimento de uma espécie de aves raras. Provavelmente, o papagaio-do-mar, pássaros, que nadam muito melhor do que aquilo que conseguem voar, vivem normalmente entre 20 e 25 anos. Se esta extinção prevista falhar, é provável que alguns juvenis da espécie ainda andem por cá quando Noah, o viajante, se reencontrar com o seu tempo.

A complexidade tecnológica é um tema central da atualidade. E vai acentuar-se. “Este ano tem um tom bastante diferente do ano anterior, mais sério, pragmático e consequente”, começa Jorge Lancinha, astrólogo português. “Os principais temas andarão à volta da sustentabilidade, da reforma das instituições, dos modelos económicos e da legislação para acompanhar o passo das novas tecnologias, que dominarão cada vez mais as nossas vidas”, refere. “A partir de maio inicia-se um período de sete anos que revolucionará a indústria, os meios de produção e a organização económica. Novos trabalhos, mais serviços ligados às tecnologias, mais compras online e consumidores mais informados e em busca de produtos mais personalizados, sustentáveis e ecológicos. É uma tendência que tem vindo a surgir, mas que neste ano deverá ganhar um grande impulso com a entrada do planeta Urano no signo de Touro em maio”. Há mais duas datas a ter em conta. A 31 de janeiro regista-se um eclipse lunar, que será total sobre o Pacífico e Jorge Lancinha admite que “pode indicar algum desenvolvimento importante nas tensões com a Coreia”. Depois, a 27 de junho, ocorrerá um eclipse lunar, que será total sobre o Médio Oriente. “Apresenta-se numa configuração muito tensa e que pode assim também marcar um clímax nos conflitos dessa região”, esclarece o astrólogo português.

Joumana Wehbi, a mulher que previu o fim do Daesh este ano e a preponderância do Kuwait na política da região do Golfo, está suficientemente perto do Médio Oriente para descrever o futuro. Num mapa astral preparado a pedido do diário “Al-Rai”, do Kuwait, Joumana alertou para uma possível terceira Intifada palestiniana, em que soldados israelitas serão capturados. Diz ainda a astróloga que haverá eleições antecipadas em Israel e que estará concluída a reconciliação entre os palestinianos. O Irão, acrescenta, será palco de uma nova primavera árabe e do assassínio de uma alta figura do regime — ainda assim, Teerão conseguirá alcançar um acordo com a Rússia e a Arábia Saudita sobre o Iémen. Na Síria, Bashar al-Assad vai continuar no poder. Já o futuro de Trump, visto do Kuwait, parece muito pouco promissor: haverá atentados nos Estados Unidos da América, várias figuras de topo vão abandonar a Administração e o próprio Trump pode sair.

Claro que tudo isto parecerá menos importante se se confirmar a pior previsão da médium Betsey Williams, a mulher que, além de várias catástrofes naturais, anunciou a vitória de Trump oito meses antes das eleições. Que consolo poderá o mundo encontrar em saber que o filho de William e Kate vai ser um menino (e que o casal real vai ter ainda mais um bebé) ou em perceber que no futuro as casas vão ser redondas e as pessoas vão poder viajar em pequenos tubos a alta velocidade ou até em descobrir que o casal Obama vai divorciar-se, se, depois de anunciar tudo isto, Betsey Williams garante que pode estar para breve uma terceira guerra mundial? Chineses e russos contra americanos por causa da Coreia do Norte — tal como previu, linhas acima, o casal Hamilton-Parker...

O lado positivo é que Betsey Williams também pode falhar. E se assim for, é provável que dentro de um ano tudo possa recomeçar. Alexandra Gomes Costa garante que o Governo em Portugal será o mesmo, ainda que venha a existir alguma “tendência para o ócio, com muitas palavras e pouca ação”. Nenhum artigo sobre o futuro ficaria completo sem informação acerca daquilo que preocupa milhões de portugueses. Sobre este assunto, Alexandra constata que “o Benfica até ao verão não será muito beneficiado pelos céus”. O Futebol Clube do Porto “tem uma bênção diferente e é o que está mais favorecido, especialmente para a Taça da Liga”, refere. “O Sporting também não está mal, mas daí a ser campeão nacional...” E como a discussão é sobre futebol, não é difícil prever que nas próximas páginas vai encontrar um artigo sobre as futuras estrelas da modalidade. Começa assim: “O futebol está muito longe de ser uma ciência exata.”