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Caos nas urgências: “Isto é como o problema dos incêndios quando se contrata bombeiros depois de o fogo estar extinto”

Nuno Fox

Poucos profissionais e pouco espaço, macas arrumadas em longas filas e encostadas umas às outras ou quase encaixadas como num jogo difícil de tetris. Enfermeiros descrevem ao Expresso a confusão que se vive nas urgências e apontam os casos mais graves, de norte a sul do país. Há aspetos em que todos concordam - que isto não é de agora e que não tem havido planeamento e prevenção

Helena Bento

Jornalista

Para explicar o que tem acontecido em algumas das urgências dos hospitais do país, Leonel Fernandes, secretário da Secção Regional do Norte da Ordem dos Enfermeiros (SRNOE), recorre a uma comparação que considera eficaz. “Isto é como o problema dos incêndios quando se contrata bombeiros depois de o fogo estar extinto”. O enfermeiro refere-se à contratação de mais enfermeiros até final de março anunciada recentemente pelo primeiro-ministro, António Costa. “Claro que são necessários, mas quando chegarem já será tarde”.

À semelhança do Hospital de Faro, onde os enfermeiros denunciaram, em carta enviada na madrugada de sábado à presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar e Universitário do Algarve (CHUA), a incapacidade da resposta do serviço, que dizem estar a colocar a segurança dos utentes e profissionais em risco, também nos hospitais de Guimarães, Braga e Porto a situação é caótica, diz ao Expresso Leonel Fernandes, apontando o caso específico de Braga, “onde a urgência está completamente cheia, há um défice ao nível do espaço e o número de profissionais não foi reforçado”. “Mesmo no controlo de infeção, as pessoas estão em cima umas das outras, não há um intervalo suficiente entre os utentes para evitar contágios”, diz o enfermeiro, sublinhando a ausência de um “planeamento e de serviços suplementares capazes de dar resposta à afluência registada nos últimos dias”

Uma fotografia das urgências do Hospital de Braga a que o Expresso teve acesso, captada na terça-feira à noite, mostra vários doentes deitados em macas encostadas umas às outras, não havendo espaço para circular entre elas. Também em Guimarães “não foi feito nenhum planeamento ao nível do espaço e das equipas”, colocando em causa “a segurança e mesmo a dignidade dos utentes”. Ali, o Serviço de Observação (SO), bem como os serviços de triagem, estão “completamente lotados”.

Urgências do Hospital de Braga. Fotografia tirada na terça-feira à noite

Urgências do Hospital de Braga. Fotografia tirada na terça-feira à noite

Famalicão. “Falta de profissionais e de condições físicas”

Ainda no norte, Eva Salgado, vogal do Conselho de Enfermagem da Secção Regional do Norte da Ordem dos Enfermeiros (SRNOE), aponta o caso “flagrante” do hospital público de Famalicão (Centro Hospitalar do Médio Ave). “Além da falta de profissionais, não há condições físicas”, diz a enfermeira, cuja descrição detalhada do espaço ajuda a entender o problema. “Aquilo funciona num quadrado e dentro deste quadrado há muitos cubículos. Há poucos enfermeiros que ficam adstritos a vários postos de trabalho e por isso quando estão a atender uma pessoa não conseguem atender as outras, que ficam sozinhas nas macas à espera de medicação e do resto.”

Outras duas fotografias a que o Expresso também teve acesso, tiradas na manhã desta quarta-feira, ilustram as palavras de Eva Salgado. O cenário é semelhante ao das urgências do Hospital de Braga e também de Faro - macas arrumadas em longas filas ou quase encaixadas umas nas outras, como num jogo difícil de tetris. “Numa urgência onde cabem 20 macas, estão 60. Se a pessoa que está deitada na maca ao fundo da sala tiver uma paragem cardiorrespiratória, não sei como é que o enfermeiro conseguirá chegar lá. Não sei mesmo o que acontecerá”.

Fotografia tirada na manhã desta quarta-feira nas urgências do hospital de Famalicão

Fotografia tirada na manhã desta quarta-feira nas urgências do hospital de Famalicão

Eva Salgado diz não ter conhecimento de casos em que o atendimento nas urgências tenha sido decisivo ou contribuído de alguma forma para agravar uma determinada situação - “até porque as situações mais graves provavelmente ficam ocultadas do público em geral” - mas enumera outras consequências: “Muitas vezes os doentes entram no hospital com um determinado tipo de doença súbita e saem de lá com sondas nasogástricas e incapazes de se alimentar de forma autónoma ou saem com dificuldades em termos de mobilidade porque ficaram sete dias deitados numa maca no serviço de urgência sem que ninguém os ajudasse a levantar e a mexer”.

Eva Salgado denuncia ainda casos de idosos que “nunca usaram fraldas e, depois de estarem nas urgências, passaram a usar”. “A autonomia das pessoas e a vida normal que as pessoas levavam antes de entrarem num serviço de urgência por causa de uma gripe fica afetada”, diz a enfermeira, recordando o caso, muito noticiado, de uma pessoa que apareceu morta na casa de banho de umas urgências já com uma pulseira de triagem no pulso. Para a enfermeira, o problema começa logo nos centros de saúde, para onde são deslocados médicos “tarefeiros, com pouca experiência e muita insegurança”, que “acabam por drenar na mesma as pessoas para os hospitais”. Faz uma breve pausa e acrescenta: “Acho que os enfermeiros e os cidadãos têm um santo a tomar conta deles, porque acaba por não acontecer nada de grave. Há situações que se vão resolvendo por si próprias e, no limite, acaba por haver sempre uma resposta”.

Fotografia tirada na manhã desta quarta-feira nas urgências do hospital de Famalicão

Fotografia tirada na manhã desta quarta-feira nas urgências do hospital de Famalicão

“Uma unidade de saúde transformada num armazém de gente”

Eva Salgado diz que esta situação de caos nas urgências não é de agora e “acontece todos os anos”, e é também isso que nos diz Sérgio Branco, presidente da Secção Regional Sul da Ordem dos Enfermeiros (SRSOE). “Não vale a pena politizar este assunto. Isto não é deste governo, é de todos os anteriores governos, que têm vindo sucessivamente a desfalcar o SNS [Sistema Nacional de Saúde]. Isto é uma causa nacional”. Na região sul, além do denunciado e noticiado Hospital de Faro e dos restantes hospitais do Algarve, “onde há camas fechadas por falta de enfermeiros”, são problemáticos os casos dos hospitais do Barreiro (Centro Hospitalar Barreiro Montijo) e Abrantes (Centro Hospitalar Médio Tejo) devido à falta de enfermeiros e à deficitária estrutura física do serviço de urgência. “Os doentes são obrigados a ficar acomodados lado a lado. Aquele espaço deixa de ser uma unidade de saúde para se transformar num armazém de gente que pacientemente e de forma muito pouco digna espera pelos cuidados de que foi à procura”, diz Sérgio Branco, a quem esta realidade preocupa. “Sabemos que estes contextos são promotores do erro e de eventos adversos. O que está em causa é a segurança dos cuidados”.

“Aquilo que está a acontecer em Faro acontece em todas as urgências do país”

Além de acontecer “todos os anos”, segundo os enfermeiros entrevistados pelo Expresso, também acontece “em todo o lado”. É pelo menos isso que nos diz Ricardo Matos, presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Enfermeiros (SRCOE). “Atrevo-me a dizer que não há nenhuma urgência no país que tenha dotações seguras [isto é, um número suficiente de enfermeiros para prestar cuidados de forma segura] e os tempos de espera controlados”.

À semelhança de Leonel Fernandes, que questionava a contratação de novos enfermeiros até finais de março, anunciada pelo primeiro-ministro António Costa, também Ricardo Matos manifesta grande ceticismo sobre a medida. “Se contarmos com o período de integração de um mês, significa que esse profissional só poderá contar para as dotações a partir de março”, quando a gripe já poucos levará às urgências dos hospitais. Surpreende-o a “incapacidade de aprender com os erros” e a “falta de uma política de prevenção”. “Andamos desde junho, julho a contactar os conselhos de administração e a alertar para contratar profissionais atempadamente, antes do pico, para eles poderem adaptar-se”.

Particularmente graves são os casos das urgências dos hospitais de Leiria - “onde muitas vezes temos mais de 50 utentes para três enfermeiros” - Guarda, Viseu e Castelo Branco, aponta Ricardo Matos. Embora não tenha conhecimento de casos trágicos, o enfermeiro diz que não demorará muito até isso acontecer e chegarmos a situações “inadmissíveis e surreais”. “Quando houver uma tragédia toda a gente vai ficar de consciência pesada. Eu até já disse isso ao ministro”.