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Se há coisa que existe na web é... sexo. Bem-vindos à geração porno 2.0

ILUSTRAÇÃO joão Maia Pinto

A internet massificou a pornografia, que parece hoje saída de uma linha de produção industrial. Estaríamos melhor num mundo sem ela?

Um homem e uma mulher, recém-casados, estão no quarto na noite de núpcias. Ele senta-se numa cadeira, atrás de um biombo, e ela começa a retirar a roupa, sem pressas: primeiro o casaco, depois o vestido, a seguir a anágua, até ficar só em roupa interior. O homem não consegue ficar quieto. Ora olha para um jornal ora espreita por cima do biombo. Os noivos trocam olhares. Ela sorri, ele esfrega as mãos de contente. O filme original terá cerca de sete minutos, mas a cena acaba pouco depois dos três — a película estava já bastante degradada quando foi descoberta em 1996 num depósito do Centro Nacional do Cinema francês. Chama-se “Le Coucher de la Mariée” (“A Noite de Núpcias”, numa tradução livre) e é considerado um dos primeiros filmes pornográficos da história — senão mesmo o primeiro — ainda que as imagens que sobreviveram ao tempo não permitam confirmar até que ponto a atriz, a estrela de cabaret Louise Willy, ficou de facto nua.

Fast forward para dezembro de 2017. Passou mais de um século desde que aquela cena foi gravada num teatro parisiense, em 1895. Os filmes para adultos já não são mudos nem a preto e branco. Saíram da sombra, chegaram às salas de cinema na sua época dourada, a reboque da revolução sexual nos anos 60 e 70, e depois aos videoclubes com o advento do VHS. Hoje, graças aos telemóveis (o meio preferido de mais de 60% das pessoas que acedem a conteúdos sexuais), vão com elas para qualquer lado. A privacidade do lar já não é a zona de conforto de quem vê porno: segundo um estudo recente, 70% do consumo nos EUA é feito durante o horário de trabalho.

O sexo não é implícito como há um século, antes cru, muitas vezes violento, hardcore. Os filmes em HD dos grandes estúdios estão, progressivamente, a dar lugar a vídeos amadores. A pornografia democratizou-se e diversificou-se, explodindo em centenas de diferentes tipos. Veja-se, por exemplo, o site Clips 4 Sale. Começou por alojar conteúdos caseiros, mas foi rapidamente colonizado com mais de 500 categorias, incluindo fetiches para todos os gostos. Excita-se a ver cenas de adultos com fraldas? Este é o site para si. Procura filmes com pessoas amputadas ou em cadeiras de rodas? Não vá mais longe. Sexo com pessoas a lambuzarem-se com quantidades obscenas de comida ou a dar traques? É ali mesmo. Não há nada que não encontre. É a chamada Regra 34 da internet: se uma coisa existe, há pornografia dela — sem exceções. E se há coisa que existe na web é sexo, que alastrou como um vírus mortal.

“O acesso à internet de alta velocidade mudou tudo. Hoje podemos encontrar tudo o que queremos (e muitas coisas que não queremos) com um clique no rato. E de borla. Temos acesso a um fluxo infindável de vídeos num dispositivo que levamos no bolso e podemos vê-los a qualquer altura e as vezes que quisermos”, afirma ao Expresso Peggy Orenstein, autora dos best-sellers “Girls & Sex” (“As Raparigas e o Sexo”) e “Cinderella Ate My Daughter” (“A Cinderela Comeu a Minha Filha”), que se tem debruçado sobre os efeitos da pornografia na educação sexual dos jovens. Na remota hipótese de alguém não encontrar o que procura, na capital da indústria, o Vale de São Fernando, Califórnia, não faltam empresas dispostas a satisfazer qualquer capricho. “Nada é demasiado estranho. Consideraremos todos os pedidos”, lê-se na página da Anatomik Media, criada pelo casal Dan e Rhiannon, ambos com 40 e poucos anos. Ele era um antigo fotógrafo e designer gráfico no cinema para adultos, ela trabalhava em animação. Decidiram criar a empresa quando perceberam que havia um mercado para filmes custom made (feitos à medida), que chegam a custar várias dezenas de milhares de dólares.

É uma das respostas da indústria à ameaça da internet, que, à semelhança do que provocou noutros sectores, como o discográfico, fez encolher um negócio avaliado, segundo algumas estimativas, em cerca de 80 mil milhões de euros. Mas isso foi numa altura em que ainda não havia mais de 400 mil sites com direito a bolinha vermelha e, sobretudo, a web não tinha sido invadida por um exército de plataformas de streaming inspiradas no YouTube — clones com nomes como YouPorn, PornHub, XTube e RedTube — que começaram a oferecer uma avalanche de vídeos sexuais à borla, a maior parte deles pirateados, tornando mais difícil às produtoras tradicionais ganhar dinheiro. “O triunfo da pornografia foi feito à custa da própria indústria, que já não pode produzir uma estrela como Jenna Jameson [atriz que se tornou o maior nome do cinema porno e criou uma empresa que faturou 30 milhões de dólares em 2005]”, escreve na revista “The New Yorker” Katrina Forrester, professora de História na Universidade Queen Mary de Londres.

ilustração joão maia pinto

Estes sites de streaming — em que basta clicar para ver o vídeo, não sendo necessário fazer download — tornaram-se tão dominantes que os grandes estúdios perceberam que não poderiam ficar de fora, usando-os muitas vezes para colocar teasers concebidos para atrair tráfego para os seus próprios sites. Ao mesmo tempo, foram terreno fértil para o nascimento de uma nova geração de “produtores” amadores, pessoas que colocam os seus próprios vídeos a internet. O pornógrafo do século XXI pode viver na porta do lado.

O Relatório Kinsey 
dos tempos modernos

A celebrar o seu 10º aniversário, o Pornhub é o maior destes sites: tem 64 milhões de visitantes por dia e supera em tráfego publicações como “The New York Times”, “The Washington Post” e o “Buzzfeed”. Ao todo, aloja mais de 10 milhões de vídeos. Para vê-los todos seriam precisos 173 anos. Só em 2016, foram vistos na sua página quase 92 mil milhões de vídeos, o que dá uma média de 12,5 por cada habitante do planeta.

Os dados recolhidos pelo site sobre os padrões de consumo dos seus utilizadores fazem dele uma espécie de Relatório Kinsey dos tempos modernos (Alfred Kinsey foi o autor dos famosos estudos sobre o comportamento sexual dos americanos nos anos 40). Recentemente, para assinalar a primeira década de vida, o PornHub analisou dados recolhidos desde a sua criação, que permitem uma visão privilegiada sobre a nossa consciência sexual coletiva e os nossos desejos mais íntimos, numa época em que a pornografia se tornou um laboratório de imaginação sexual. Os vídeos amadores ocupam o terceiro lugar dos mais procurados, o que mostra que, para muitas pessoas, os corpos demasiado perfeitos, as acrobacias arriscadas e os enredos irrealistas da pornografia convencional não são aquilo que mais as excita; ao invés, o que muitas procuram é exercitar o seu lado voyeur e adentrar-se no quarto de pessoas comuns.

Segundo o último relatório anual do site, relativo a 2016, cada visitante — que tem, em média, 35 anos — gasta 9 minutos e 36 segundos por visita. Em 61% dos casos, acedem a partir do telemóvel, em 28% do computador e em 11% do tablet. Os portugueses consomem cada vez mais pornografia, mas estão muito longe do topo do ranking, liderado pelos EUA: ocupam o 41º lugar, tendo subido cinco posições relativamente ao ano anterior.

Pelo segundo ano consecutivo, o termo “lésbica” foi o mais pesquisado a nível mundial, seguido de “madrasta” — o que certamente faria Freud sorrir — e “MILF”, um acrónimo que designa mulheres que são mães e com as quais se gostaria de ter sexo. Olhando apenas para o sexo feminino, que representa um pouco mais de um quarto (26%) da audiência da página, os dados quebram alguns mitos. Conhece aquela velha ideia de que um ménage à trois é uma fantasia sobretudo dos homens? Bom, talvez não seja bem assim: a expressão “trio” é a terceira mais procurada por elas (“lésbicas” e “tesoura”, uma posição sexual entre duas mulheres, ocupam as duas primeiras posições), superando em 61% as pesquisas dos homens. E nem sempre o que elas querem ver são duas mulheres a ter sexo com um homem: a procura pela expressão “dupla penetração” supera em 119% aquela que é feita pelos homens. E sabe qual é a segunda categoria preferida delas? Pénis grandes. A quarta? Homens negros avantajados. A oitava? Extreme gangbang (sexo extremo com um grupo de homens). A procura de vídeos hardcore mais do que duplica a que é feita pelos homens, a de sexo violento supera-os em 86%. Talvez esteja na altura de rever as ideias feitas sobre as fantasias delas.

Enredados num ciclo de dependência

Esta explosão da pornografia tem sido acompanhada por uma crescente preocupação em relação aos seus efeitos. Há estudos para todos os gostos: os que a associam a comportamentos violentos, que dizem que ela pode fazer encolher o cérebro, que a relacionam com a crescente procura de sexo anal nos heterossexuais... Ainda que estas hipóteses estejam longe de gerar consensos, é difícil imaginar que a pornografia não tenha consequências. Há, por exemplo, um número crescente de homens que acreditam que o seu desejo e o seu desempenho sexuais foram sabotados.

Para a psicoterapeuta e sexologista Ana Carvalheira, ainda que o recurso à pornografia possa ter um impacto positivo “funcionando como estímulo sexual”, o seu uso pode ser prejudicial quando, aliado à masturbação, se torna “um padrão de sexualidade individual, fácil e rápida”. Em alguns casos, parece mesmo responsável por arrefecer a libido masculina em relação às mulheres reais. A professora e investigadora no ISPA-Instituto Universitário dá o exemplo de um dos seus pacientes: um homem de 38 anos, casado há quatro anos e com um filho de três, consultor na área das finanças, que a procurou por ter perdido o desejo sexual. “Descobri que faz consumos diários de pornografia acompanhados de masturbação. Pode acontecer duas vezes no mesmo dia e já chegou a ir à casa de banho com o smartphone a meio da manhã depois de uma reunião exigente. Este padrão de excitação e satisfação sexual é-lhe suficiente, mas obviamente sente-se pressionado pela mulher que se sente rejeitada e abandonada por ele”.

Não é caso único. Um dos exemplos mais célebres é o de Noah Church, um bombeiro, autor e coach de 28 anos, que emergiu como uma espécie de porta-voz de uma condição que não é reconhecida pelos médicos, mas da qual muitos homens se queixam: a disfunção erétil induzida pela pornografia. O norte-americano tinha “9 ou 10 anos” quando começou a ver regularmente fotos e vídeos de sexo na internet. Durante quinze anos ficou agarrado àquela “paisagem irrealista e hiperestimulante”, o que afastou a sua energia sexual “do domínio confuso e intimidante das relações reais”. Aos 24 anos, teve consciência dos danos que esse comportamento estava a ter na sua vida. “Não conseguia ter uma ereção quando podia ter sexo, paralisava-me emocionalmente e enredava-me num ciclo de dependência do qual muitas vezes me senti impotente para escapar”, conta ao Expresso.

Decidiu parar depois de ver a TEDx Talk de Gary Wilson, autor do livro “Your Brain on Porn” (“O Seu Cérebro e o Porno”, numa tradução livre). Church começou por documentar a sua experiência de forma anónima na internet, mas percebeu que ela inspirava tantos homens com o mesmo problema que escreveu um livro com alertas e respostas a que ele gostava de ter tido acesso quando tinha 18 anos. “De início, estava hesitante em pôr o meu nome num livro sobre dependência da pornografia, mas foi uma das melhores decisões da minha vida. Muitas pessoas vêm dizer-me que salvei as relações delas, que mudei a vida delas, ou mesmo que lhes dei esperança suficiente para continuarem a lutar por um futuro melhor quando estavam a sentir-se suicidas”.

Hoje, Church dedica 20 horas por semana a ajudar outros a eliminar a pornografia das suas vidas — ou pelo menos a reduzi-la. Abriu um canal no YouTube (Noah B. E. Church), criou um site (AddictedToInternetPorn.com) e dá aconselhamento via Skype a 100 dólares (cerca de 84 euros) cada sessão de 50 minutos. “Não estou aqui para dizer que devemos banir a pornografia ou até que esta irá ter efeitos negativos em toda a gente, mas as pessoas merecem saber que ela tem o potencial de influenciar negativamente as suas vidas e as suas relações”. A disfunção erétil, defende, é apenas um dos impactos mais visíveis. Outras consequências podem incluir “dificuldade em atingir o orgasmo ou mesmo anorgasmia, baixo desejo sexual com parceiros reais, apetência por conteúdo mais extremos e por fetiches, e uma crescente compulsão sexual”.

O autor lembra ainda que vários outros estudos têm associado o consumo de pornografia a taxas mais altas de depressão, desempenhos académicos pobres, risco mais elevado de divórcio e uma aceitação crescente da violência sexual. Porém, pelo menos esta última alegação parece ser desmentida pelas estatísticas. Nos EUA, o país que mais pornografia consome, o número de violações é o mais baixo desde os anos 70 e os casos de violência doméstica caíram 63% desde 2012. “Muitos países onde a pornografia é ubíqua parecem ser mais bem-sucedidos e tratar melhor as mulheres — dar-lhes mais direitos, mais dignidade e igualdade — do que países onde a pornografia tem um acesso restrito ou está indisponível”, escreve Conor Frierdersdorf na revista “The Atlantic”. “Uma vez que a expansão da pornografia coincidiu com descidas acentuadas dos casos de violação e de violência doméstica, e com um apoio crescente dos homens à igualdade de género, como é que alguém pode afirmar com convicção que ela faz com que os homens desrespeitem as mulheres e, pior ainda, que cause um dano tão significativo que representa uma ameaça civilizacional?”

Na era do streaming, a comparação entre o sexo a que assistimos e aquele que fazemos pode também ser frustrante, não apenas em termos de quantidade, mas também de diversidade: o porno que vemos é mais estranho, mais selvagem e mais perverso do que o sexo que a maioria de nós terá — ou desejará — nas suas vidas. Em alguns casos, pode estar até a fazer com que muitos homens se sintam insatisfeitos com a sua performance sexual, com os seus corpos, e, especialmente, com os corpos das suas parceiras ou dos seus parceiros. “A pornografia exibe muitas vezes pénis de tamanhos exuberantes e fora do comum e os homens podem considerar o seu pénis como aquém do que seria desejado. Isto é perturbador e negativo. Homens e mulheres não devem comparar ou imitar performances e comportamentos que surgem nos vídeos, o que pode levar à frustração e à perda da autoestima e confiança sexual”, alerta Ana Carvalheira.
Pais não podem ignorar 
o elefante na sala

Peggy Orenstein está particularmente preocupada com os efeitos nos mais jovens e com o erro que a maioria dos pais comete ao evitar falar do assunto com os filhos. “Será certamente ingénuo achar que a pornografia não afeta os guiões sexuais dos jovens, especialmente se eles não têm educação sexual nem conversam com os pais”. Segundo a autora, o primeiro contacto das crianças com os conteúdos para adultos ocorre por volta dos 11 anos e é, na maior parte das vezes, indesejado. “Tropeçam neles acidentalmente ou é algum colega ou criança mais velha que lhos mostra”.

A norte-americana considera, por isso, ser “absolutamente crítico” que os pais conversem abertamente com os filhos sobre “o que é real ou não na pornografia, desafiando os mitos sobre o seu glamour e discutindo o consentimento, as relações saudáveis e um envolvimento sexual ético”. Segundo Orenstein, o aumento de praticantes de sexo anal entre estudantes de liceu e da universidade é um dos exemplos da “pornificação” da educação sexual dos jovens. “Há um estudo no Reino Unido que mostra que são os rapazes que estão a pressionar as raparigas para que façam sexo anal, e fazem-no não como uma forma de partilhar intimidade mas para se gabarem a outros rapazes de que o fizeram”.

A autora aponta ainda o dedo à “erotização da degradação das mulheres”. “Quando objetificamos as pessoas vezes sem conta — especialmente as mulheres — isso faz com que seja mais fácil desumanizá-las, tratá-las mal ou como objetos sexuais. O porno não é o único responsável por isso, mas uma cultura que incessantemente mercantiliza a sexualidade, e em particular a sexualidade feminina, certamente contribui para isso”. 
Não é uma questão nova. Desde as “guerras da pornografia” nos anos 70 e 80, os argumentos antipornografia geralmente descrevem a desumanização das mulheres, exploradas para mero prazer dos homens. Mas a banalização destes conteúdos na internet impulsionou a criação de novas organizações, como a Stop Porn Culture, liderada pela feminista Gail Dines, que faz campanha pela abolição da pornografia.

“Em muitos aspetos, temos o porno que merecemos — se é sexista é porque reflete o sexismo da sociedade”, considera Nichi Hodgson, jornalista, autora e ativista da liberdade sexual. “Não acho que os homens sejam mais sexistas por causa do porno, ao contrário do que defendem algumas feministas. Acho que estão mais confusos do que alguma vez estiveram sobre aquilo que é permitido excitá-los. Não estão contentes com alguns conteúdos que veem e isso contribui para que se sintam culpados depois. Mas como têm vergonha daquilo a que assistem, isso impede-os de fazer campanha por conteúdos melhores”.

Mais do que banir o porno ou estar preocupado com a sua expansão, a britânica — uma antiga dominatrix, de 34 anos — defende que o que importa realmente é “pô-lo no seu lugar”, criando conteúdos mais criativos e estimulantes. É o que está a tentar fazer Erika Lust, um dos nomes mais reconhecidos da nova pornografia, feita por mulheres para mulheres e também para homens que já não se excitam com os filmes clássicos, cheios de clichés chauvinistas, sexo oral interminável, homens com ereções que duram mais do que uma partida de futebol e penetrações hiper-realistas e forçadas. “A grande maioria do porno online, gratuito, não tem cuidado nenhum, humilha muito a mulher, é violento e mostra uma sexualidade feia e desagradável. Não o entendo bem porque me parece totalmente antiluxúria”, afirmou a sueca, de 40 anos, ao jornal espanhol “El País”.

Com o marido, a realizadora (cujo verdadeiro nome é Erika Hallqvist) montou em Barcelona uma empresa familiar que produz cinema para adultos independente. O seu primeiro filme, “The Good Girl” (“A Rapariga Boa”), de 2004, foi descarregado mais de dois milhões de vezes em apenas dois meses. O sexo é explícito, mas as semelhanças com a pornografia convencional, muito focada no físico e na penetração, terminam aí. “Há três grandes diferenças: a primeira é que a mulher nos meus filmes está no centro da ação, são histórias contadas na sua perspetiva; a segunda está na estética, que nos meus filmes tem muito mais que ver com o cinema erótico e o cinema independente do que com a pornografia — o porno era assim quando começou, nos anos 70, mas a partir dos 80 tornou-se cada vez mais um produto, perdendo o critério estético; a última diferença são as condições de produção: quando filmamos há um ambiente muito bonito de gravação, não essa sensação típica — de que me falaram muitas atrizes — de um mundo de homens, onde produtores e realizadores até convidam os seus amigos para ver as mulheres, ou se promove o uso de fármacos para garantir a ereção ou potenciar a ejaculação”.

A democratização da tecnologia e a internet massificaram e banalizaram a pornografia, que, em muitos casos, quase parece saída da linha de produção de uma fábrica focada no lucro fácil. Mas, ao mesmo tempo, criaram as condições para o surgimento de um novo caminho, mais feminino, mais positivo, mais realista, mais sexy. Lust está convencida de que a pornografia pode mudar e atrair cada vez mais mulheres (e homens). Só não contem com ela para lhe pôr um travão.