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Já olhou bem para o calendário? O Expresso diz-lhe como esticar as férias em 2018

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Má notícia para os trabalhadores: 2018 tem menos possibilidades de pontes e menos feriados em dias colados ao fim de semana. Mas com arte e engenho ainda consegue aumentar o seu tempo de lazer. Olhe com atenção para o calendário

Katya Delimbeuf

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Jornalista

Carlos Esteves

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O exercício repete-se no início de cada ano. De sorriso em riste — ou não fosse o assunto ‘férias’ —, o trabalhador senta-se a analisar o calendário do ano corrente e a decidir quais as melhores escolhas para os seus dias de descanso. Existem alguns truques para conseguir aumentar os 22 dias úteis de férias. Olhar para os dias em que calham os feriados é a primeira estratégia.

2018 oferece oito possibilidades de miniférias, com seis pontes e três fins de semana prolongados. É menos do que em 2017, mas mesmo assim perfazem 28 dias extra. Maio é o melhor mês para tirar dias de descanso, com duas pontes possíveis — a 1 de maio (terça-feira), e a 31 de maio (quinta-feira). Aqui, soma oito dias de férias de uma assentada. Seguem-se três meses frios — fevereiro, novembro e dezembro —, cada um com 4 dias ‘roubados’ ao calendário, que também são uma boa oportunidade para umas miniférias (que tal pensar numa escapada de Carnaval ou de esqui?). O tradicional mês de junho, amigo dos Santos Populares, este ano não é tão generoso — o 10 de Junho calha a um domingo, e o 13, para os lisboetas, acontece a uma quarta-feira, o que obriga a meter mais dias para conseguir uma pausa. E o mesmo pode dizer-se de dezembro, já que os feriados de 1 (Dia da Restauração) e 8 (Imaculada Conceição) calham ao sábado...

O mês de janeiro não podia começar melhor — com um feriado a uma segunda-feira, o que permite esticar as férias de Natal (ou adicionar mais um dia de descanso à noitada de fim de ano...) Em fevereiro, o dia de Carnaval acontece como sempre a uma terça-feira, o que, com um dia de folga na segunda anterior, lhe permite um fim de semana de 4 dias. Março chega com uma possibilidade de ponte no fim do mês: dia 30 é sexta-feira, o que permite três dias de descanso. No mês da liberdade, surge a primeira possibilidade ‘rentável’ de miniférias: o dia 25 de Abril cai numa quarta-feira, por isso, se lhe acrescentar dois dias dos 22 a que tem direito, pode gozar uma semana de paragem, e quem sabe, fazer uma viagem. Maio também é um mês benévolo, com duas possibilidades de pontes, no início e no fim do mês. O 1 de maio e o 31, a uma terça e a uma quinta-feira, permitem, com apenas dois dias de férias, gozar oito dias.

Verão fraco em pausas

Junho desilude face a anos anteriores — só o 13 de junho, para os lisboetas, calha durante a semana, a uma quarta-feira. Tanto o feriado de dia 10, como o 24 de junho (dia de São João, no Porto), são ao sábado. Julho e setembro não têm quaisquer feriados, e agosto conta com um só, a 15 de agosto (uma 4ª feira). No mês de outubro, o dia 5 (sexta-feira) permite um fim de semana comprido, e novembro e dezembro são bons meses para miniférias: em novembro, dia 1, uma quinta-feira, possibilita uma escapadinha de quatro dias, apenas com um dia de folga e, em dezembro, o Natal calha a uma terça-feira, o que lhe oferece, também com um só dia, quatro de desfrute da quadra natalícia.

Perde-se em produtividade o que se ganha em turismo?

A questão da perda de produtividade é recorrente. Todos os anos, patrões e indústria lamentam a profusão de feriados e pontes que, segundo eles, prejudicam a atividade económica do país. Paulo Vaz, diretor-geral da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, defende: “Numa lógica industrial, em que a produção depende do trabalho contínuo de equipamentos fabris, que têm de ser assistidos e para os quais qualquer quebra ou descontinuidades no seu ritmo ou ciclos provocam prejuízo, a profusão de pontes e de fins de semana prolongados, especialmente depois da reposição dos feriados por este Governo, penaliza fortemente o país.” Refere-se em especial às indústrias transformadoras de bens transacionáveis, “precisamente aquelas que suportam o país através das suas exportações e contribuição positiva para a balança comercial”, afirma.

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A perda de dinheiro por cada feriado em que não se trabalha representa “uma perda de 25 milhões de euros de exportações”, segundo um cálculo da ATP — “pelo que os 4 feriados reintroduzidos trouxeram pelo menos uma diminuição de 100 milhões de euros nas exportações deste sector”, continua.

Paulo Vaz é taxativo. “Criou-se a errada convicção de que o país se pode dar ao luxo de ser pródigo nestas benesses, como se fosse rico, visse o seu défice e dívida externas evaporados, e estivesse em condições de distribuir uma riqueza que, afinal, não tem. Obviamente dizer estas coisas não é simpático, nem dá votos, mas serve de alerta para que um dia, se viermos a confrontar-nos novamente com dificuldades, se perceba a causa fundamental das mesmas”, considera.

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Mas o prejuízo de uns é o lucro de outros. Mais dias de férias significam mais consumo para o sector da restauração e da hotelaria. A maioria dos portugueses opta por passear nestes dias e por fazer refeições fora de casa. O turismo é dos mais beneficiados por estes momentos de paragem no trabalho. Francisco Calheiros, presidente da Confederação do Turismo Português, confirma que as pontes e fins de semana prolongados “representam sempre boas oportunidades para o gozo de miniférias e consequente aumento da atividade turística no nosso país, sobretudo na hotelaria e restauração. Tradicionalmente, os portugueses optam por fazer “turismo interno”. Do ponto de vista da procura internacional, os city breaks representam uma tendência já com um peso considerável, “sobretudo em Lisboa e no Porto”, continua Calheiros. Quanto aos momentos do ano em que isso mais se nota, destaca “o fim de semana da Páscoa, e os feriados de junho”, muito procurados para miniférias. “Em abril deste ano, o número de hóspedes disparou 20% face a março, com uma taxa de ocupação a rondar os 80% no Algarve”, aponta.

E do ponto de vista da psicologia, os feriados serão benéficos para o ânimo do trabalhador? Liliana Cunha defende que “debater o gozo dos feriados apenas do ponto de vista da produtividade traduz uma conceção fragmentada do ser humano — confinando-o à de trabalhador e ignorando a de cidadão”. “Num estudo que conduzimos com uma amostra de cerca de 700 trabalhadores portugueses, 33,7% referiram ter de manter uma disponibilidade permanente para o trabalho, e 54,6% terem de ultrapassar frequentemente o horário normal para responder às exigências deste”, explica a psicóloga do trabalho. Estes dados não são surpreendentes. Os inquéritos europeus sobre condições de trabalho têm apresentado resultados no mesmo sentido (EWCS, 2016), sublinhando a tendência para as práticas de organização do trabalho em “laboração contínua”. Assim, considera que os trabalhadores fazem bem ao aproveitar as “pontes” para ter mais dias de férias. “Mais tempo livre para si e para a recuperação de um trabalho que se configura mais intensificado? Num cenário em que parece, mais do que nunca, da responsabilidade de cada um a conquista de tempo para si... o que é de censurar?” Que comecem as obras de ‘engenharia”.