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O primeiro berço

Nuno Botelho

Na Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, nascem todos os anos milhares de bebés. 24 horas no interior do hospital com mais partos do país

Carolina Reis

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Jornalista

Nuno Botelho

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Pouco antes das três da tarde surgem tímidos raios de sol. Grávida de 40 semanas, Sónia Ferreira desloca-se pelo seu pé da urgência para o bloco operatório da Maternidade Alfredo da Costa. O marido não esconde a ansiedade. Controla-a a fazer carícias no rosto da mulher. Em frente, com um pano a tapar a cirurgia, a médica Teresinha Simões faz força para tirar a bebé “cabeçuda”. 15h40. Margarida nasce. É uma hora banal para quem está fora daquelas quatro paredes. Hora de vitória para quem assiste à chegada de mais uma vida saudável. Hora milagrosa para a família que acaba de ganhar nova forma.

Cabeça grande, extração difícil, choro forte, e ali dentro o mundo a receber Margarida como se fosse a primeira. Junta-se aos 597.698 bebés que ali nasceram entre 1932, ano em que a MAC abriu as portas, e 2016. São 85 anos de partos, inaugurados com o nascimento de Maria da Conceição, a 8 de dezembro de 1932. E este ano há um aumento do número de partos: até dia 10 nasceram 3469 crianças, mais 71 do que no ano passado.

Enquanto Margarida é vista pelos pediatras, medida e pesada pelas enfermeiras, na urgência mais quatro mães estão à espera de ter a sua hora pequenina. “É sempre um momento muito bonito. É o mundo de uma criança que começa”, explica Teresinha Simões. Especialista em gravidezes gemelares, a médica ainda se emociona quando recebe um bebé nos braços. No fim do dia, haveria de fazer o seu parto número 2941, de uma gravidez de gémeos que acompanhou.

Carolina e Sofia chegam, de parto vaginal, já a noite de inverno se instalou. Enquanto Margarida se habitua ao mundo fora do útero, Lucélia Leite vai ficando ansiosa por ver as filhas. “A Carolina é a mais reguila. A Sofia a mais calma”, conta, deitada numa das salas de partos da urgência. Ao seu lado, apenas um berço. Tal como em casa, por agora, “vão dormir juntas”. É a primeira vez para ela, a segunda para o marido, um médico dividido entre o conhecimento da ciência e o nervosismo de, em breve, ter duas vidas nos braços.

A maternidade promove o contacto do bebé com a mãe desde que ele nasce, mesmo que seja prematuro

A maternidade promove o contacto do bebé com a mãe desde que ele nasce, mesmo que seja prematuro

Nuno Botelho

Maternidade de referência

Inaugurada a 5 de dezembro de 1932, batizada em homenagem ao pioneiro da obstetrícia em Portugal, a MAC — sigla pela qual a Maternidade Alfredo da Costa é conhecida — está hoje adaptada a todas as fases da saúde sexual e reprodutiva da mulher, desde o diagnóstico pré-natal aos cuidados intensivos de prematuros, passando pela consulta da gravidez indesejada ou pelos cuidados maternofetais. São milhares de bebés sobre os quais recaem sonhos e expectativas. À espera deles estão 616 profissionais de saúde, entre médicos da especialidade, internos, enfermeiros, técnicos e assistentes.

Quando chegam à urgência, com porta direta para a rua, os casais carregam ansiedades e medos, que contrastam com a enorme calma dos funcionários da MAC. A calma típica de quem vê nascer todos os dias 10 a 12 crianças. São histórias que começam a desenrolar-se ali, primeiro nas mãos dos médicos e enfermeiros, logo depois na pele dos pais. “Defendemos que o parto deve ser o menos medicado possível e o mais vigiado possível”, explica Clara Soares, coordenadora da urgência. De facto, a maternidade promove o contacto do bebé com os pais desde que nasce.

Vestida com babygrow cor de rosa e barrete às riscas, Margarida segue nos braços de um pai eufórico para junto da mãe, ainda deitada na sala de operações. Já passaram os nervos. É o segundo filho, mas o primeiro a que Miguel Ferreira assiste. Sentado ao lado da mulher, não se apercebeu de como aquela extração foi difícil. O tamanho da bebé, em especial a cabeça, é grande, e foi preciso fazer força para a tirar. Quase sem olhar, na sala de apoio do bloco, a enfermeira que anota as horas dos nascimentos percebeu que o parto foi complicado. Soube-o quando a enfermeira do bloco, pronta a receber a bebé, perguntou à médica se era preciso ajuda para fazer força. E foi.

A pele de Margarida toca na da mãe enquanto Teresinha Simões faz as suturas, com a garantia do pai de não a perder de vista. Caem lágrimas de alegria de quem vê o significado de “coisas que não sabe explicar”. São 3,965 gramas, 51 centímetros, uma bebé grande que ao fim do dia, quando as gémeas estão a nascer, conhece o seu irmão Rafael, de 3 anos.

Nem todos os partos são como o de Sónia. Os vaginais em que não é necessário utilizar instrumentos, como fórceps ou ventosas, são feitos pelos enfermeiros especialistas em saúde materna e obstetrícia. Fernando Prada é, há 21 anos, um desses especialistas. Acaba de ver mais um bebé a nascer, um rapaz, o terceiro filho de uma grávida que preferiu trazer a mãe como acompanhante. Diego nasce em poucas horas, um dia antes de Margarida, com 3,180 gramas. “O nascimento é emocionante em qualquer situação, porque é o princípio da vida. Emociono-me mais com a emoção dos pais. Toca-me a relação dos três, que só se vê no ato de o bebé nascer”, confidencia Fernando. Nasce uma criança, nasce uma família e nasce um ‘novo’ casal.

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Maternidade de referência, a MAC junta várias realidades: os partos de alto risco, em que só as unidades de saúde reconhecidas como expoente máximo de competência são seguras; as mães que não têm recursos; e os que preferem abdicar da “hotelaria” dos hospitais privados a favor da qualidade dos serviços. “Este é o melhor sítio. Têm aqui resposta imediata”, defende António Leite, pai de Carolina e Sofia, menos de cinco horas antes de elas nascerem.

No puerpério — a enfermaria onde as mães descansam com os bebés ao lado — misturam-se mulheres imigrantes que mal falam português (vindas de sítios tão longe como o Nepal) com portuguesas de diferentes classes sociais. “Temos uma taxa de alto risco de 50%. Se quiserem um hospital de apoio perinatal em que só o alto risco terá lugar, então a diferenciação dos técnicos está orientada para isso, e os partos não serão mais de três mil e pouco. Se quiserem que a maternidade responda às necessidades da área onde está inserida, vão ter de lhe dar a possibilidade de ser uma área de baixo risco, que pode ser maior porque as instalações são deficitárias”, frisa Ana Campos, a diretora clínica adjunta.

A médica sabe que é preciso melhorar as enfermarias de puerpério e de gravidezes de alto risco. “Há pessoas que preferem estar bem instaladas, com o marido ao pé, do que ter a segurança de uma equipa experiente e que pode resolver problemas de maneira eficaz. São os diferentes paradigmas do parto”, continua Ana Campos. O risco, atualmente, é perder a equipa médica que tem feito da MAC uma unidade de referência. “Temos uma discrepância entre grupos etários. Há um próximo da saída, com mais de 50 anos, que é o dominante, e um recém-especialista, que é muito pequeno. A fatia entre os 40 e os 55 anos não existe nos hospitais públicos. Esse é o problema número um. Nos últimos anos, já com este ministério, temos conseguido contratar os novos assistentes que tinham obtido uma vaga na maternidade. Isto também porque os quadros dos privados e das parcerias público-privadas terminaram. O Estado, pagando o que paga aos médicos, não vai conseguir ter mão de obra facilmente”, sublinha Ana Campos. Até 31 de janeiro, a MAC abre mais uma porta para a rua, realizando uma série de debates, às quintas e sextas-feiras, no anfiteatro. A prematuridade, a amamentação e a atividade física são alguns dos temas para discutir com os utentes.

No edifício, inicialmente projetado pelo arquiteto Ventura Terra, os diferentes pisos e departamentos ligam-se por pilares hexagonais. Era bom que as enfermarias de oito camas dessem lugar a salas de duas. “Temos tentado que as camas não fiquem todas ocupadas”, diz Maria José Alves, responsável pela unidade maternofetal.

Apesar das limitações do espaço e do seguro da empresa, Carolina Lourenço, mãe de Madalena, não teve dúvidas na altura de escolher. “Não são condições de luxo, mas os cuidados são bons e são dois ou três dias”, confessa. Madalena nasceu no dia 12, e talvez nesse dia outras vidas tenham começado num estado mais embrionário.

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Ser feito na MAC

No centro de Procriação Medicamente Assistida (PMA), casais com problemas de fertilidade dão os primeiros passos que, esperam eles, os levarão ao bloco de partos. O novo centro abriu em 2009, com um equipamento que custou mais de meio milhão de euros, e tem capacidade para fazer 450 ciclos de tratamentos de fertilidade por ano. “Em 2015 fizemos 360 ciclos de segunda linha [fertilização in vitro e injeção intracitoplasmática de espermatozoides], 120 transferências de embriões congelados e 150 ciclos de tratamentos de primeira linha [inseminação artificial]”, explica Graça Pinto, diretora do serviço.

Mia, de 8 meses, é o fruto de um embrião feito em laboratório. Dulcelina Machado, a mãe, soube, aos 35 anos, que os seus óvulos não têm hormonas, cinco anos depois de o marido ser diagnosticado com um problema nos espermatozoides. “Somos os dois os últimos filhos, temos os dois problemas para engravidar, parecemos feitos um para o outro”, diz Dulcelina. E Mia, “a menina de ouro”, parece ter sido feita à medida. Menos de um ano depois de dar entrada na primeira consulta, o casal tinha a filha nos braços, nascida no mesmo bloco em que Margarida viu a luz. “A Mia é também deles, foi feita por eles.”

São 5665 consultas que representam um só desejo: ter um filho. “Muitas vezes trazem já uma suspeita, mas não uma investigação feita”, conta Graça Pinto. Desde 30 de dezembro, altura em que entrou em vigor a nova lei de PMA, começaram a chegar à MAC os casais de lésbicas e as mulheres solteiras. Dois médicos objetores de consciência recusam acompanhá-los, por não quererem promover este tipo de família, reduzindo assim a equipa.

Com uma taxa de sucesso de transferências de embriões a rondar os 40%, surgem também as candidatas a gestação de substituição, mais conhecida por ‘barriga de aluguer’. “Tive de dizer a uma utente que não era possível, não tinha um músculo saudável. Chorou ela, chorou o marido, chorei eu”, recorda a médica. No mesmo departamento, os casais seropositivos e sorodiscordantes (em que um parceiro tem o vírus e o outro não) podem recorrer às técnicas de PMA para ter filhos sem o vírus.

O objetivo final de todos é terminar a viagem no puerpério. Mas nem todas as mães chegam aqui com o bebé. Os que nascem prematuros ficam na neonatologia, dividida entre cuidados intensivos e intermédios. Carla Pereira, de 32 anos, mãe de Matilde, nascida a 13 de novembro, às 25 semanas e seis dias, está nos cuidados intensivos pela segunda vez. Um problema no útero trouxe-a, há três anos, para o mesmo lugar com o primeiro filho, que não resistiu. Como é natural de Benavente, os médicos do hospital da sua área de residência evitaram que ela fosse transferida para a MAC, para não ter de reviver a morte do primeiro filho. “Mas ainda bem que vim. Se ela tem hipóteses, é aqui”, confessa Carla.

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Uma árvore de Natal à entrada da unidade está decorada com fotografias dos bebés que entraram prematuros e são hoje crianças iguais às outras. Um quadro ao lado junta mais imagens enviadas pelos pais, numa vontade de não cortar o cordão umbilical com aquele lugar. A MAC é um espaço de luta pela vida e de medo. Porém, também é um espaço de sobrevivência e superação. Pegar num bebé prematuro ao colo não é só pegar num bebé ao colo. Ver crescer um bebé não é só vê-lo crescer. São gestos simples que sabem a vitória. Há 25 anos que a enfermeira Isméria Moreno vê os pais aproximarem-se, com um misto de medo e vontade, destes bebés para lhes tocar. “Sempre que é possível pomos os pais a fazer canguru [pele com pele]. Eles querem, mas têm medo”, conta Isméria. Conhecida como a enfermeira do cabelo cor de rosa (quando na realidade é ruiva), traz na ponta da língua os nomes das crianças que passaram pela neonatologia. “Estes meninos são para sempre nossos.”

Muitos tornam-se uma presença constante. Como o rapaz que, até a família emigrar, os ia visitar no dia do aniversário. Ou o jovem de 18 anos que nasceu com 500 gramas e foi lá agradecer, trajado a rigor, no dia em que acabou o curso. Ou os pais de um bebé que faleceu no ano passado, pelo Natal, e foram à MAC no Dia da Criança. “Costumamos receber bebés no Dia da Criança. E este ano vieram também os pais do bebé. A mãe fez um bolo”, conta Teresa Tomé, responsável pela neonatologia.

A unidade não acolhe apenas os bebés que nasceram na MAC. Muitos vêm de fora, de hospitais privados — onde os tratamentos são demasiado caros para serem suportados pelas seguradoras. Um dia antes de Margarida nascer chegou, de urgência, um bebé vindo do Hospital de Faro. Está ao fundo do corredor, num dos postos equipados com toda a tecnologia que lhe permite respirar e comer como se ainda estivesse no útero da mãe. Mobiliza um batalhão de médicos e enfermeiros. Se tudo correr bem, daqui a umas semanas estará a fazer canguru ao colo da mãe e do pai. “A princípio, mete medo tocar-lhes, mas depois as enfermeiras explicam como se deve fazer”, diz Carla Pereira.

A taxa de sucesso para estas crianças vai aumentando. É hoje de 50% para os bebés que nascem abaixo das 25 semanas. Os pais dos que não sobrevivem são preparados ao longo do caminho. “Há bebés que não têm morte imediata mas cuja qualidade de vida é baixa, e há que decidir se prosseguimos. A maioria dos pais não quer a sobrevivência a todo o custo”, frisa Teresa Tomé. Para esses pais, há apoio psicológico e um grupo de luto. Em março, haverá uma festa de primeiro aniversário de um prematuro da MAC.

As hipóteses de sobrevivência também são reforçadas pelo leite que os bebés recebem. Em 2009, a maternidade decidiu apostar num banco de leite materno que alimenta os prematuros ali internados e também os de hospitais como o Garcia da Horta, em Almada, e o Fernando Fonseca, na Amadora. “Agora enviamos leite para trigémeos que nasceram na Amadora”, conta Israel Macedo, o responsável. Atualmente está a funcionar com 12 dadoras, em diferentes fases, que têm de cumprir uma série de requisitos, como amamentar o bebé em exclusivo, não fumar e não tomar medicação. As suas doações vão diminuir riscos graves para os prematuros.

Mais conhecida pelos partos, a Maternidade Alfredo da Costa está também preparada para acompanhar todas as fases da vida sexual e reprodutiva da mulher

Mais conhecida pelos partos, a Maternidade Alfredo da Costa está também preparada para acompanhar todas as fases da vida sexual e reprodutiva da mulher

Nuno Botelho

Dar notícias difíceis

Antes do leite, do puerpério ou da neonatologia, as futuras mães podem passar pelos cuidados maternofetais, onde são acompanhadas as gravidezes de risco, e pelo diagnóstico pré-natal, o maior centro de patologia fetal do país. É a porta de entrada para muitas grávidas, mas onde só são seguidos os casos que apresentam riscos de complicações mais graves. É o sítio onde se aprende a dar as más notícias. “É ainda mais sensível, porque são notícias sobre um ser que não nasceu e sobre o qual recaem imensos sonhos”, diz Álvaro Cohen, o dirigente da área.

Também presidente da Associação Portuguesa de Diagnóstico Pré-Natal, Álvaro Cohen está habituado a adaptar-se à realidade dos casais que se sentam à sua frente. “Às vezes, é preciso desenhar”, confessa. É muitas vezes o saco de pancada. “Conseguimos fazê-los colocar os pés na terra. É importante perguntar-lhes se perceberam o que dissemos.” Álvaro recusou a hipótese de ficar no King’s College, em Londres, e tem-se tornado o rosto de cirurgias pioneiras em Portugal. E não quer instalar-se em hospitais privados, por considerar que não fazem todo o tipo de medicina. “Na altura em que estudei, não paguei propinas, e foi o Ministério da Saúde que pagou a minha especialidade. De alguma forma, é dar alguma coisa em troca”, explica.

Joana Lobo agradece-lhe o facto de estar viva e de ter o filho, Benjamim, de boa saúde. Grávida pela quarta vez, teve de ser internada às 35 semanas, com risco de placenta prévia total, e só no Serviço Nacional de Saúde poderia ser hospitalizada. “Tinha um preconceito social, mas depois percebi que estava a ir para o sítio onde me iam salvar a mim e ao meu filho. Trataram-me ao pormenor, fizeram-me coisas que nunca me tinham feito nas outras gravidezes. Se voltasse a ter mais filhos, ia para lá”, afirma Joana.

Benjamim cresce com saúde todos os dias. Tal como Margarida, Carolina, Sofia, Diego e Mia. Serão o centro das atenções amanhã, véspera de Natal. A mãe e o pai de Matilde vão levar bolo-rei para comer com a equipa da neonatologia. E no piso das urgências algumas mães estarão a ter a sua hora pequenina. Pode ser que no dia seguinte voltem a surgir raios de sol por entre o frio do inverno.