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Quando foi preciso recorrer às armas para salvar o Natal: os 90 comandos portugueses que libertaram uma cidade

Foto DR

Eles vão passar o Natal fora do país para que outros consigam por sua vez regressar a casa no Natal: os militares portugueses na República Centro-Africana realizaram este ano a única operação ofensiva levada a cabo pela força da ONU naquele país, libertando a cidade de Bocaranga e permitindo que centenas de cristãos pudessem retornar às suas habitações a tempo do Natal. Há dias, os militares foram novamente projetados numa nova missão, para outro ponto remoto do país

João Santos Duarte

João Santos Duarte

Texto

Jornalista

Carlos Paes

Carlos Paes

Infografia

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O silêncio é subitamente interrompido por um barulho que se começa a ouvir ao longe, primeiro baixinho, depois cada vez mais intenso. Não demorará muito até eles se aperceberem que se trata de helicópetros de combate, que em poucos minutos já estão por cima das casas e começam a disparar. Alguns elementos do grupo armado terão batido logo ali em retirada, outros ainda resistem. Quando os portugueses entram em ação, já os helis MI-35 tinham feito um ataque aéreo inicial, mas os aparelhos senegaleses irão manter-se sempre no ar como os olhos dos militares que estão cá em baixo no terreno. A partir dali serão precisas sete horas até que a operação de libertação esteja concluída. E os portugueses serão forçados a abrir fogo.

A cidade chama-se Bocaranga e fica na noroeste da República Centro-Africana, já bem perto da fronteira com o Chade e os Camarões. Tinha sido ocupada por um grupo armado muçulmano autodenominado 3R (que significa “Retorno, Reclamação e Reabilitação”), e liderado pelo general Sidiki. Os cristãos foram obrigados a abandonar as suas casas, levando consigo tudo o que puderam, do pouco que ainda têm. Estavam a viver num campo de deslocados situado a alguns quilómetros dali. Era aí que provavelmente passariam este ano o Natal, não tivesse sido a intervenção das forças portuguesas que estão destacadas no país.

As negociações para a libertação da cidade entre o líder do grupo armado e o governo, e mediadas pelos representantes da Nações Unidas, prolongaram-se por várias semanas, mas foram infrutíferas.

Entre eles estava também o homem responsável pela Força Portuguesa destacada neste momento na República Centro Africana, Tenente-Coronel Alexandre Varino. “Participei na última negociação. Pude ver que, à excepção do centro, onde estavam concentrados os elementos do grupo armado, a cidade estava completamente deserta. O governo ainda se comprometeu a ceder a algumas reivindicações, mas o grupo não abandonou a cidade dentro do prazo que lhe foi dado”. A força era o único recurso.

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Dos 160 portugueses destacados no país, 90 são Comandos. Constituem neste momento a QRF, Quick Reaction Force da MINUSCA (Missão das Nações Unidas para a Estabilização da República-Centro Africana). Ou seja, podem ser chamados a atuar em qualquer momento para resolver qualquer problema que surja no país. Coube-lhes a eles o planeamento e condução da operação Damakongo, uma ação até agora inédita na atuação da missão das Nações Unidas, que está no país desde 2014. “Tratou-se de uma operação ofensiva. Foi a primeira vez que aconteceu na República Centro-Africana, sob comando da MINUSCA. As outras têm sido mais operações de reação a determinadas ações por parte dos grupos armados”, explica ao Expresso o tenente-coronel Varino.

Os portugueses entraram de rompante e começaram a bater casa a casa. Foram encontrando uma cidade praticamente fantasma, até ao momento em que se aproximaram do centro. O fogo inimigo teve resposta imediata. Estima-se que cerca de 150 elementos do grupo armado estivessem na cidade, mas foram fugindo à medida que os portugueses iam avançando. Os militares ainda encontraram e libertaram um refém que estava preso num anexo junto à igreja. Apreenderam munições, motas e armamento que foram deixadas para trás pelo grupo 3R.

A operação demorou sete horas e foi um sucesso. Os portugueses libertaram a cidade e dali seguiram para norte numa nova missão para Bang, uma localidade mais pequena situada já mesmo na zona de fronteira com o Chade, que estava ocupada por um outro grupo, o MPC, liderado pelo general Bahar. O grupo ocupou este posto fronteiriço e cobrava entrada dos produtos e das pessoas que vinham do Chade e dos Camarães. O ataque demorou menos tempo, apenas 4 horas, mas a operação foi igualmente bem-sucedida.

No meio de um barril de pólvora

Esta operação decorreu já há várias semanas, mas foi contada agora em detalhe ao Expresso pelo comandante da força portuguesa. Os comandos permitiram a vários cristãos de Bocaranga regressarem às suas casas para passarem o Natal. Pelo contrário, os militares vão estar fora do país e longe das famílias este ano - além disso, vão passar esta quadra projetados para uma nova missão. como vão passar esta quadra projetados para uma nova missão. O Expresso sabe que saíram há dias de Bangui, a capital, para uma nova operação num outro ponto do país.

Para o próprio comandante da Força, esta é a primeira vez que o Natal é passado fora de casa. “Foi entendido que nossa presença era necessária noutra parte do país e não em Bangui, e por isso vamos ter de o fazer, preparar-nos para passar um Natal diferente e uma passagem do ano também diferente, longe da nossa base.

Em Bangui, felizmente, temos boas condições. Quando somos projetados não temos as mesmas condições, naturalmente. É um desafio grande, todos estão preparados mentalmente, com grande motivação para cumprir esta nova missão. Isto é encarado com naturalidade. Sabemos que podíamos ser chamados a intervir noutra parte do país a qualquer momento. Já estávamos preparados psicologicamente para isso.”

As famílias também foram avisadas antes de eles partirem. Em Bangui, o tenente-coronel Varino fala todos os dias com os filhos, inclusivamente por videoconferência, mas o mesmo não pode acontecer quando está projetado num ponto remoto do país. Ainda assim, apesar de as condições de comunicação não serem as mesmas de quando estão no Campo M´Poko, o comandante da força garante que, estejam onde estiverem, terão sempre forma de contatar os familiares no dia de Natal, nem que seja através de um simples telefonema ou mensagem.

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Quando estão em Bangui os portugueses participam também em várias missões de patrulhamento para manter a ordem numa cidade que é um autêntico barril de pólvora. Qualquer simples acidente no trânsito caótico pode servir de pretexto para o início de um conflito de maior escala entre grupos rivais, porque há anos que o país está mergulhado no caos.

Em outubro de 2013, o grupo muçulmano Seleka derrubou o governo, acusando-o de corrupção. O que se seguiu foram no entanto saques de cidades e aldeias, que levaram por sua vez à formação de milícias cristãs, conhecidas como “movimentos anti-Balaka”. Inicialmente proclamavam-se um grupo de defesa composto por cristãos. Mais tarde, a milícia caiu nas mãos de gangues de jovens armados.

Há agora pelo menos 14 grupos armados rebeldes ativos em todo o país. De acordo com a Human Rights Watch, só nos últimos três meses os confrontos entre os dois grupos étnicos fizeram 45 mortos, e cerca de 11 mil deslocados. No total, o número de pessoas deslocadas no país aumentou de 400 mil em janeiro para mais de 600 mil em agosto, segundo organizações não-governamentais. Os deslocados não são apenas cristãos, mas também milhares de muçulmanos, dependendo da religião dos grupos que dominam as diferentes partes do país.

A libertação da cidade de Bocaranga, e da localidade mais pequena de Bang, que ficou conhecida como a “Operação Damakongo”, foi louvada pelo comando das Nações Unidas, que em comunicado destacou mesmo a “iniciativa, liderança e profissionalismo” dos militares portugueses. Mas, mais ainda do que isso, ajudou a melhorar a imagem junto da população, que em muitos casos olha para os capacetes azuis como um invasor externo.

O tenente-coronel Alexandre Varino afirma que “a perceção das pessoas em relação à MINUSCA não é muito favorável, mas nós não sentimos essa animosidade quando fazemos patrulhamentos na cidade”. Sempre que a situação tática permite, procuramos fazer patrulhamentos apeados no meio das pessoas, para que possa haver contacto com a população, para que as pessoas nos reconheçam. Quando as pessoas reconhecem que somos portugueses, a postura é diferente. Quando andamos com os carros todos brancos é tudo igual, mas quando se apercebem que são os portugueses que estão a fazer a patrulha, a postura muda e não temos tido qualquer problema de animosidade.”