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Professora suspeita da fuga no exame de Português já foi notificada do processo disciplinar

A confirmarem-se os indícios apurados pela Inspeção-Geral de Educação, a presidente da Associação de Professores de Português, Edviges Ferreira, arrisca ser expulsa do ensino.

A presidente da Associação de Professores de Português (APP), Edviges Ferreira, já foi notificada do processo disciplinar que lhe foi instaurado pela Inspeção-Geral de Educação e Ciência (IGEC) por suspeita da autoria da fuga de informação no exame nacional de Português do 12º ano, que permitiu a um número ainda indeterminado de alunos saber antecipadamente parte do conteúdo que ia sair na prova.

Na quinta-feira da semana passada, dia em que o Ministério da Educação anunciou a instauração de um processo disciplinar "a uma docente" para "apuramento de responsabilidade na fuga de informação", Edviges Ferreira garantiu desconhecer a existência de qualquer procedimento deste tipo. "Não fui até hoje notificada de qualquer tipo de processo em que seja visada", afirmou então a professora, num esclarecimento enviado à TSF.

O Expresso sabe, no entanto, que a professora, que leciona na secundária Rainha Dona Leonor, em Lisboa, dá explicações a vários estudantes, nomeadamente do ensino privado, e preside há vários anos à APP, foi entretanto notificada do processo disciplinar instaurado pela IGEC.

O jornal tentou várias vezes contactar a professora, mas não obteve resposta.

Foi na qualidade de presidente da APP que Edviges Ferreira foi chamada ao Instituto de Avaliação Educativa (IAVE) para emitir um parecer prévio sobre as provas de Português, tendo tido acesso às questões que iam sair, ainda que sem saber que perguntas constariam dos enunciados de cada fase.

Dias antes do exame de Português do 12.º ano, realizado a 19 de junho, circulou nas redes sociais e no WhatsApp uma gravação feita por uma aluna que não se identificava e que revelava o que iria sair na prova. Segundo a estudante, a informação partia da "presidente de um sindicato de professores" que tinha tido acesso ao exame.

"Ó malta, falei com uma amiga minha cuja explicadora é presidente do sindicato de professores, uma comuna, e diz que ela precisa mesmo, mesmo, mesmo só de estudar Alberto Caeiro e contos e poesia do século XX. Ela sabe todos os anos o que sai e este ano inclusive. Pediu para ela treinar também uma composição sobre a importância da memória e outra sobre a importância dos vizinhos no combate à solidão", dizia a gravação.

No exame da 1ª fase acabou por sair, de facto, um poema de Alberto Caeiro e um excerto de Vergílio Ferreira, não havendo questões sobre nenhum outro autor. Mais estranho foi o facto de o tema da composição que os estudantes foram chamados a fazer no exame ter sido precisamente a memória.

Além deste processo disciplinar, que pode levar à expulsão de Edviges Ferreira da Administração Pública, foi ainda instaurado um processo de inquérito ao Instituto de Avaliação Educativa, responsável pela elaboração das provas, para apurar se "os procedimentos estão a ser devidamente seguidos".

"No caso dos alunos, não tendo sido possível apurar que o conhecimento da informação se tenha traduzido em benefício mensurável, a IGEC propôs, e foi aceite, que se aguarde a conclusão do processo disciplinar à docente para a aplicação de eventuais medidas", refere o comunicado do Ministério da Educação divulgado na semana passada.

Paralelamente ao inquérito conduzido pela Inspeção-Geral de Educação, está a decorrer uma investigação a cargo do Ministério Público, pedida pelo IAVE, que na altura remeteu à Procuradoria-Geral da República "todas as informações sobre o caso para efeitos de averiguação disciplinar e criminal".