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#perseguidos. Albino não morre, só desaparece

Ricardo Carlitos, 23 anos, professor primário em Nampula, Moçambique. A irmã, Elidia, também albina, foi raptada e assassinada em setembro de 2015

Fotos Daniel Rodrigues

O cunhado de Electerio João, então com 22 anos, ligou-lhe numa manhã de outubro de 2015. Tinha um trabalho para ele, podia ganhar algum dinheiro. O jovem, então, com 22 anos, não hesitou. O dinheiro fazia-lhe falta, vivia com a mãe numa casa de argila em Namina, uma pequena aldeia no norte de Moçambique. Quando se encontrou com o cunhado naquele dia, Electerio foi amarrado por este e por três cúmplices, que pretendiam vendê-lo a traficantes que lucram com o comércio de órgãos humanos.

Electerio teve sorte. Depois dos captores esperarem várias horas com ele na berma da estrada, os alegados traficantes chegaram. Eram da polícia. O jovem foi libertado, o cunhado e o cúmplice acabaram presos. Elidia, a irmã de Ricardo Carlitos, um professor primário em Nampula, não teve a mesma sorte: foi raptada e assassinada um mês antes. Um dos seus sequestradores foi detido três dias mais tarde com uma parte de um osso dela. Ricardo acredita que o cunhado está por trás do crime. Chimwemwe Austin, quatro anos, vive com os pais em Lilongwe, a capital do Malawi. Desde que um vizinho sugeriu que a vendessem, a família não quer mandá-la para a escola.

O azar de Electerio, Elidia, Chimwemwe e milhares de outras pessoas em Moçambique, Malawi e Tanzânia é serem albinos. São perseguidos porque se acredita que um pedaço de albinismo – seja um osso ou um pouco de pele – pode trazer sorte e dinheiro à pessoa quem o tenha consigo. Desde o final de 2014, dezenas de albinos em Moçambique foram raptados ou assassinados, muitas vezes por familiares, para que os seus órgãos e partes dos seus corpos fossem vendidos. Em alguns casos, são profanados cadáveres para se retirarem restos mortais para rituais de curandeiros.

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"Somos perseguidos como animais", contou Ricardo ao fotógrafo português Daniel Rodrigues, que no outono de 2015 partiu para África para contar estas histórias. O trabalho deu origem à reportagem "The Hunted", publicada este ano no prestigiado diário "The New York Times", e já lhe valeu várias distinções internacionais. Depois, tornou-se uma exposição que está patente até ao dia 20 de janeiro na Galeria Colorfoto no Porto, com o apoio da Fuji. Vale a pena visitá-la, para que o problema dos albinos não seja esquecido.