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Roza, a burlona de 90 anos que viveu num hotel em Cascais

Foto António Pedro Ferreira

A mulher mais velha presa em Portugal começou a ser julgada em Lisboa um ano depois de estar em preventiva. Gastou cinco mil euros em joias logo no dia seguinte a receber o dinheiro da burla pela qual está detida. Em tribunal esclareceu muito pouco

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

Podia ser confundida com a dona de uma retrosaria centenária. Cabelo branco, corpo franzino, ar encolhido, talvez pelo frio, entra na sala de audiências ao lado do filho, com quem troca palavras em voz baixa. Chama-se Roza Vegele, é brasileira, tem 90 anos e é a mulher mais velha presa em Portugal.

A viúva carioca de olhos presos no chão, que é tratada carinhosamente pelo advogado como “a menina mais bonita”, vivia há pouco mais de um ano no hotel Baía, em Cascais. Mas uma burla milionária alegadamente engendrada por “dona Roza” e pelo filho, que também está detido, obrigou-a a mudar de morada. É reclusa em Tires desde novembro do ano passado.

Foi o filho, José Eduardo, que em 2016 estava detido por outras fraudes e por tráfico de droga, que terá contactado a mãe para ganharem alguns milhares de euros com a venda fraudulenta de um prédio devoluto situado no centro de Lisboa. É pelo menos o que suspeita o Ministério Público.

O recluso terá aproveitado uma saída precária da cadeia de Pinheiro da Cruz no verão do ano passado com a missão de angariar clientes para a compra do imóvel. E para convencer a mãe a ir do Rio de Janeiro para Lisboa, no final desse ano.

Roza, que começou a ser julgada esta segunda-feira no Campus da Justiça, em Lisboa, juntamente com os restantes cinco arguidos do caso, acusados de burla qualificada entre outros crimes, ficou alojada em casa de um dos cúmplices deste esquema e depois no já referido hotel em Cascais. E assumiu as funções de gerente da Green Earth, a empresa criada de propósito para o negócio ilícito.

Em tribunal, mexe-se devagar, costas curvadas. Fala pausadamente. Parece não ouvir logo à primeira o que lhe pergunta a juiz-presidente, Helena Pinto. Mas faz questão de prestar declarações. “Fui fazer uma hipoteca... Pensei que os papéis que tive eram legítimos”, declarou. As frases saem-lhe confusas. A magistrada não percebe à primeira nem à segunda vez e pede para a idosa repetir e esclarecer o que vai dizendo. “Como foi isso? Quem fez? Onde conheceu? Não estou a perceber. Ouça lá”... vai perguntando a juíza.

Roza não se lembra bem de nomes, de pessoas nem de locais. E quanto mais fala menos se torna percetível o que conta. Em menos de 15 minutos, a juíza perde a paciência e levanta a voz: “Vamos falar a sério. Deixemos esse discurso tontinho!”. Apesar da ameaça da magistrada, Roza não se torna mais assertiva. Continua a não se recordar de muitos pormenores. A juíza não fica satisfeita. “Tenho consideração sobre a sua idade mas peço-lhe também que tenha consideração pelo tribunal.” A memória da idosa parece melhorar um pouco mas por escassos momentos. E apenas para frisar que não estava a par do alegado esquema. “Quanto mais pergunto mais confusa fico”, suspira a juíza no final do interrogatório à arguida.

À procura das joias

A idade avançada seria o disfarce ideal para não levantar suspeitas nas Finanças, bancos e registos notariais, onde se deslocou com frequência no final de 2016 para forjar os papéis da escritura. De acordo com a acusação, Roza e os cúmplices falsificavam documentos e assinaturas, conseguindo comprovar que eram sócios gerentes da empresa, junto da Conservatória do Registo Predial, e abrir contas bancárias. Atas com assembleias gerais extraordinárias fictícias criadas pela Green Earth eram outros dos truques do grupo para criar a ilusão aos burlados de que se tratava de uma empresa idónea. E de que aquele prédio pertencia aos falsos proprietários.

Depois de um primeiro negócio falhado, Roza e o filho acabaram por convencer um cliente a comprar o prédio por 450 mil euros, recebendo a viúva 300 mil euros adiantados pelo negócio imobiliário. De acordo com o Ministério Público, logo no dia seguinte a receber o dinheiro, a brasileira comprou uma lupa por 25 euros que usou para avaliar e depois comprar dezenas de joias em lojas de luxo da Avenida da Liberdade. Gastou 5 mil euros nesse dia. E só não gastou mais dinheiro porque não pôde.

É que o esquema imobiliário foi rapidamente descoberto por uma brigada da Polícia Judiciária que já seguia o rasto ao grupo de portugueses e brasileiros. A 17 de novembro do ano passado, a PJ fez várias rusgas em apartamentos dos arguidos. No quarto duplo do hotel em Cascais onde Rosa estava alojada, os inspetores encontraram os recibos das transferências monetárias que tinham sido feitas nas últimas horas, algumas delas para o Brasil. A mulher de 90 anos e os cúmplices foram imediatamente detidos.

Segundo uma fonte do processo, apesar da idade avançada, Roza fica em prisão preventiva por receio de fuga para o Brasil. De acordo com a acusação, a que o Expresso teve acesso, “os arguidos agiram de acordo com um plano previamente gizado entre todos, movidos pelo mesmo propósito de obter um beneficio económico a que sabiam não ter direito, a saber: vender um imóvel propriedade de terceiros de modo a receber o produto da respetiva venda”. Esta brasileira que alegadamente liderava o grupo criminoso é acusada de burla, branqueamento e associação criminosa na venda de um imóvel que não lhe pertencia.

O julgamento prossegue no próximo dia 11.