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Alunos portugueses pioraram a leitura mas continuam a ser os que mais gostam de ler

RICARDO ARDUENGO / AFP / Getty Images

Estudo internacional coloca estudantes portugueses do 4.º ano em 30.º lugar, num total de 50 países e regiões participantes. Descida do desempenho das raparigas motivou a queda face à última avaliação

Se o ano de 2016 terminou com boas notícias para o sistema educativo português, com o país a congratular-se com o facto de, pela primeira vez, a média dos alunos de 15 anos ter superado a da OCDE nos três domínios testados pelo PISA, 2017 fecha com uma notícia pior.

Na mais recente grande avaliação internacional na área da Educação e que incidiu sobre a compreensão da leitura entre os alunos que estão no 4.º ano, os resultados pioraram face ao estudo anterior. E Portugal passou da primeira metade da tabela (19.º lugar em 45 países participantes em 2011) para uma posição bem mais modesta – 30ª em 50 participantes na edição de 2016 da avaliação conhecida como PIRLS (Progress in International Reading Literacy Study).

O PIRLS, cujos resultados internacionais acabam de ser divulgados, é um estudo promovido por uma organização não-governamental — a International Association for the Evalutation of Educational Achievment (IEA) —, realiza-se de cinco em cinco anos e, ainda que não tenha a projeção alcançada pelo PISA (conduzido pela OCDE de três em três anos), funciona como mais um barómetro do nível em que os alunos de cada país se encontram, as fragilidades que apresentam, os pontos fortes e como se comparam uns com os outros.

Apesar de se realizar desde 2001, Portugal só participou nas duas últimas edições. Entre os 41 países que se submeteram ao teste em 2011 e em 2016, 18 melhoraram a sua média, 13 mantiveram e 10 desceram. Portugal foi um deles, ainda que os resultados alcançados tenham continuado acima da média internacional de 500 pontos.

A descida dos alunos portugueses foi bem mais acentuada entre as raparigas do que entre os rapazes. De tal forma que se em 2011 elas se saíram bastante melhor na compreensão da leitura do que eles — seguindo um padrão internacional que tende a persistir ao longo do tempo —, nesta última edição deixou de haver diferenças relevantes nos desempenhos por sexo. Em todos os 50 países participantes, acontece apenas em Portugal e na região de Macau.

Rússia e Singapura no topo

Globalmente, Rússia e Singapura conseguiram os resultados mais elevados. Nestes dois países, mais de um quarto dos alunos conseguiram atingir o nível mais avançado da escala PIRLS (são quatro ao todo) e demonstraram conseguir interpretar, relacionar e analisar informação contida em textos, literários e informativos, relativamente complexos.

No geral, quase todos os alunos demonstraram ter alcançado pelo menos um nível básico de literacia de leitura no final do ensino primário. As diferenças surgem depois na distribuição dos estudantes pelos outros patamares.

No caso de Portugal, apenas 7% atingiram o nível mais avançado e menos de 40% chegaram ao “elevado”. Ou seja, a maioria não vai além do patamar “intermédio”, o segundo mais baixo da escala.

Só 5% das crianças portuguesas não gostam de ler

Se os resultados na literacia de leitura dependessem apenas do gosto que as crianças têm em ler, Portugal não estaria no final da tabela mas nos lugares cimeiros. É que, mais uma vez, os alunos portugueses apresentaram o índice mais alto do gosto pela leitura (e até subiu face a 2011), com 72% a darem a indicação de gostam muito de ler. O valor quase duplica a média internacional (43%). Um quarto gostam medianamente e apenas 5% não apreciam, um dos valores mais baixos entre todos os participantes. A média internacional está nos 16%.

Outro indicador no qual o país se destaca pela positiva é no gosto que as crianças dizem ter pelas aulas dedicadas à leitura. Portugal apresenta o segundo valor mais alto, com 83% a mostrarem-se muito interessadas nas tarefas que têm de fazer e na apreciação que fazem do professor.

Quanto aos pais, o relatório constata que, apesar de uma diminuição do gosto em relação à leitura na maioria dos países (apenas dois Estados participantes registaram subidas), verificou-se, por outro lado, que tendem a envolver cada vez mais os filhos em atividades que promovem a literacia em leitura, mesmo antes de saberem ler. E este é um dos factores que tem mais impacto nos desempenhos quando chegam ao fim da escola primária. Tal como a frequência do pré-escolar.

Mais tempo, mais exames?

Mas será sempre muito difícil identificar as causas precisas de uma evolução positiva ou negativa. Em relação ao 1.º ciclo do ensino básico (primeiros quatro anos de escola), os últimos tempos ficaram marcados por medidas como a introdução, em 2013, de exames a Matemática e Português no final do 4.º ano (já não se fizeram em 2016, com o atual Governo) ou de novas metas curriculares, medidas tomadas pelo ex-ministro Nuno Crato.

No ano passado, através de um outro estudo internacional (o Trends in International Mathematics and Science Study, também organizado pela IEA , mas dedicado a outras áreas disciplinares), os alunos portugueses do 4.º ano, que tinham sido testados em 2015, mostraram progressos significativos a Matemática. O desempenho foi até superior ao dos colegas finlandeses.

Um ano depois, na Leitura, os resultados tiveram a evolução contrária.

Olhando para a variável tempo de aulas, total e dedicado a cada uma das disciplinas no 4.º ano, os dados do PIRLS indiciam que não há uma relação direta. Os alunos finlandeses passam menos horas na escola, dedicam menos tempo do currículo (26%) ao ensino da língua do que os portugueses (32%) e apresentam melhores resultados.

Já na Rússia, 41% do tempo curricular é dedicado à leitura, escrita e literatura, enquanto em Singapura se fica pelos 27%. Ambos apresentam excelentes resultados.

Além dos testes em papel, 14 países, incluindo Portugal, decidiram participar na extensão eletrónica desta avaliação (ePIRLS) e que envolvia consultar páginas da internet, lidar com itens interativos ou compreender informação gráfica.

Em sete países os alunos tiveram melhores resultados nos testes online do que em papel, em cinco saíram-se pior (incluindo Portugal) e em dois não houve diferenças.

Os testes PIRLS e ePIRLS decorreram em Portugal no início de 2016, envolveram a participação de 220 escolas e 5324 alunos do 4º ano, numa amostra representativa desta população. A nível internacional foram realizados por quase 320 mil estudantes e contaram com a participação de 310 mil pais, 16 mil professores e 12 mil escolas.