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Zita Seabra: “Não sou uma crente clandestina, não escondo nada”

tiago miranda

A vida como editora, a militância no PSD, a dissidência comunista, o encontro com a fé. Conversa de longo curso com uma mulher de combate

Ana Soromenho

Ana Soromenho

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Jornalista

Tiago Miranda

Tiago Miranda

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Fotojornalista

Sabemos todos quem é. A mais mediática dissidente comunista portuguesa, que depois de duas décadas de militância enfrenta Álvaro Cunhal, ela, uma das ortodoxas do partido, linha dura, radical, ao sair definitivamente da Soeiro Pereira Gomes sem olhar para trás, um ano antes da queda do Muro de Berlim. Mas o que surpreende em Zita Seabra não são as histórias do trajeto comunista. O que surpreende nela é a capacidade de regeneração, o percurso de alternância política, o arco que vai de um lado ao outro, não porque os extremos obrigatoriamente se toquem, mas porque a radicalidade continua a ser uma marca que subitamente se atravessa e a rompe.

Assim continua a ser, aos 68 anos, esta mulher que nasceu no Porto, numa família burguesa de tradição democrata, que sonhou ser bailarina e estudar medicina, mas que tudo quebra aos 17 anos ao entrar na clandestinidade para se tornar uma revolucionária profissional. Quando foi expulsa do PCP, em 1988, vinte e dois anos depois, no momento em que travou o maior combate da sua vida com Álvaro Cunhal, o líder amado, e depois profundamente detestado, dedicou-se à profissão de editora de livros, que é o que continua a fazer. Numa destas tardes encontrámo-nos no jardim do Grémio Literário, para durante algumas horas percorrermos o seu trajeto de vida. Dos verdes anos até à conversão à fé católica, eis Zita Seabra, sem pejos nem arrependimentos.

Comemorou-se agora o centenário da Revolução Russa. Distanciando-nos do contexto da efeméride, que sentido pode ter hoje a palavra revolução? Consegue pensar em novos significados?
Não. A revolução é uma ideia de rutura resultado de uma ideologia revolucionária e é sempre muito perigosa porque leva a sistemas totalitários. Nunca pode ser um caminho. Por isso é que o 25 de Abril não foi propriamente uma revolução.

O que foi então?
Um golpe contra uma ditadura.

Substituir a palavra revolução por golpe não é a mesma terminologia usada pela direita que não gostou do 25 de Abril?
O partido comunista também a usava. Para o PCP, comparando com o que aconteceu na Rússia, o que se passou no 25 de Abril correspondia à revolução de fevereiro. Faltava ainda fazer a Revolução de Outubro e por isso sempre se entendeu o 25 de Abril como um golpe de Estado. A revolução perdeu-se no 25 de Novembro, felizmente. Mas para Cunhal faltava cumpri-la e até ao fim achou que ainda estava em curso.

Era assim que viviam em democracia os ortodoxos do PCP, onde também se encontrava?
É verdade, uma loucura. Mas não se pode ser comunista sem acreditar nos pilares do comunismo para uma sociedade sem classes: ditadura de Estado, controlo dos meios de produção...

Pensa que ainda haverá no Partido Comunista resquícios dessa cartilha?
Penso que não. O próprio Cunhal, quando o comunismo caiu na União Soviética, reformou-se e foi para casa tratar dos netos e escrever livros e o PCP transformou-se num partido estritamente sindical. É por isso que criará muitos problemas ao Partido Socialista.

Ainda é militante do PSD?
Sou.

Sempre foi próxima de Pedro Passos Coelho, chegou a admitir numa entrevista, após as eleições legislativas de 2015, que em breve ele regressaria ao Governo. Numa das análises que se fizeram sobre o resultado destas eleições, Pacheco Pereira, por exemplo, avançou com a tese de que o PSD entrou em declínio porque se afastou cada vez mais da sua matriz social-democrata. Concorda?
Não vou fazer comentários sobre comentários de comentadores... Obviamente que quanto à sua matriz social-democrata a questão é importante. Tenho a ideia de que após Pedro Passos Coelho, se o PSD caminhar para uma situação idêntica à do Partido Socialista não tem espaço político porque não há espaço para dois partidos de centro. É o que está a acontecer na Europa. Em França, por exemplo, o Partido Socialista desapareceu com o fenómeno Macron.

Que oposição pode o PSD fazer nos próximos anos?
Penso que se deve apostar precisamente na sua matriz de partido inovador e reformador. Neste momento o Estado está ao serviço da administração pública. Estamos todos a trabalhar para um Estado que não investe, está pura e simplesmente a pagar salários. E se esta brutalidade de impostos se mantiver não conseguiremos sobreviver. As empresas, os trabalhadores e os empresários estão asfixiados. Se não houver, simultaneamente, uma reestruturação e reformas de fundo em quem investe, andamos sempre à volta do mesmo. Devo dizer que apoio Pedro Santana Lopes. Do pouco que conheço de Rui Rio, não gosto nem me identifico com ele. É a velha guarda do PSD, uma das suas propostas mais estruturantes é a regionalização. Já deu o que tinha a dar.

E Santana Lopes?
Não faz parte do grupo dos barões e baronetes. Entra e sai da política, facilmente faz outra coisa.

Isso é uma vantagem?
É. Tem essa liberdade. Depender completamente da política, como dependem os barões, é não perceber que as gerações mudam. Santana Lopes nunca teve uma atitude de ressabiamento e tem um grande sentido político. Mas tudo depende de quem se vai rodear.

Em 2007, quando foi vice-presidente da bancada do PSD, foi precisamente a convite de Pedro Santana Lopes que voltou à política ativa.
Tinha saudades da vida parlamentar. Mas o Parlamento já não era nada do que tinha sido no tempo em que fui deputada do PCP e rapidamente me arrependi.

Num contexto de oposição e com o seu apelo de militância não sente vontade de regressar?
Não. Perdi esse apelo. Gosto de acompanhar a vida política, mas há gente muito mais interessante para o fazer. Já não é o meu tempo e gosto muito da minha atividade profissional.

Que está a passar por uma fase complicada.
É quase uma atividade em vias de extinção. O mercado mudou muito, tornou-se um trabalho cada vez mais difícil e complexo. As pessoas modificaram completamente o seu relacionamento com os livros. As grandes livrarias hoje são todas online.

O que é hoje um editor?
É a mesma coisa que sempre foi. Escolhe os títulos e edita.

O sonho do editor não é descobrir um bom livro e ajudar a construir um autor?
Claro. Mas autores de referência já não se editam facilmente. Houve um grande empobrecimento cultural, a maior parte dos livros que vendem são literatura light, não têm interesse nenhum, mas são fundamentais para a sobrevivência de uma editora. A verdade é que hoje as pessoas leem muito mais e escrevem mais, mas as grandes tiragens já não fazem sentido. O self-publishing, por exemplo, é uma realidade que entrou no mercado.

É o que faz na sua empresa de impressão de livros?
Funciona sobretudo para a edição limitada e foi precisamente uma das formas de me adaptar ao mercado. Fazemos tiragens pequenas e, em função da procura, reeditamos. Por exemplo, alguém fez uma tese que interessa muito a 100 pessoas, fazemos essa tiragem. Só quando vendemos mais de mil exemplares é que editamos em offset. É muito caro distribuir em livraria, onde o tempo de um livro é muito curto.

O que é que ainda lhe dá prazer nesta profissão?
É o que sei fazer. Muitas vezes falam comigo como se eu tivesse acabado de sair do PCP, mas passou quase uma vida. Há 30 anos que trabalho com livros.

Em 2007, escreveu um livro autobiográfico, “Foi Assim”, onde conta a sua história enquanto militante comunista, que foi um dos best-sellers da Alêtheia. Resolver escrevê-lo quase 20 anos depois foi também uma aposta enquanto editora?
E continua a vender. Mas não foi por isso. Senti que era injusto apagarem o meu passado antifascista. Só o escrevi quando já estava bem comigo própria e não tinha ressentimentos em relação ao partido comunista e escrevi-o quando o meu filho mais novo já tinha idade para o ler. Também quis deixar o meu testemunho para que os meus filhos pudessem perceber o que tinha sido a minha vida.

Como foi o processo de escrever? Tinha guardado cadernos, consultou arquivos?
Tinha cadernos com apontamentos, tive algumas conversas e recorri à memória. Todo o período da parte da clandestinidade, que foram oito anos mas ocupa um tempo grande do livro, foi quase escrito de memória. Essa memória estava, e ainda está, muito viva porque foi muito sofrida.

É sempre complicado quando a história é contada pelo próprio. Foi acusada disso.
É natural. Um testemunho foi sempre uma coisa muito mal vista no PCP, que tinha a tendência para apagar da sua história tudo aquilo que não era a versão oficializada por Álvaro Cunhal. Houve militantes que tiveram vidas terríveis, anos de prisão e de fugas de cadeias, que praticamente foram apagadas. Também tive necessidade de explicar que existiram outros heróis. A minha preocupação sempre foi escrever um livro de memórias. Não quis fazer a história do 25 de Abril.

Nesse testemunho, Álvaro Cunhal é a figura que sai mais maltratada. Não o poupa praticamente em nada. No entanto, durante todos aqueles anos, foi uma bolchevique profundamente fiel ao líder... Era quase um sentimento de amor.
Diria que era mais do que amor. Era um absoluto fascínio. De facto, era uma figura impressionante, com um carisma absolutamente determinante. Basta dizer que uma pessoa que vive oito anos no isolamento de uma cela e mantém toda a sua firmeza sem se ir abaixo psicologicamente não é uma pessoa qualquer. Agora, era de facto uma figura tremenda. Um estalinista, o verdadeiro líder comunista, e nunca deixou de o ser. Podia ser de uma crueldade terrível. Felizmente nunca foi poder.

A sua saída teve também que ver com um combate contra ele? Aí, sim, parece ter feito um de ajuste de contas.
E teve.
Teve o desejo de ganhar esse combate, de ser a líder da renovação do partido?
Ser líder não. Mas acreditei que ele poderia perceber que o comunismo estava próximo do fim e conseguiria ver que era importante renovar. Era um homem inteligente, tinha estado na União Soviética, onde tinha sido operado, e vinha entusiasmado com o início da perestroika ainda no tempo de Iuri Andropov. Achei que poderia dar esse passo e penso mesmo que houve ali uma altura em que ele hesitou. Depois percebeu que a única maneira de manter o PCP era exatamente não dar o passo da renovação.

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Escreveu sobre a sensação de medo que estava sempre presente em todas as relações que tinham com ele.
No meu processo de dissidência tive três expulsões. A primeira foi do Comité Político, a segunda do Comité Central e por fim do partido. Essa sensação de medo, que se sentia sempre perante Cunhal, perdi-a depois de ter sido expulsa do Comité Central... No primeiro julgamento, o mais terrível, depois de ter forçado todos os membros do Comité Central a falarem sobre mim, chamando um a um a dizer o que pensavam, depois de toda gente propor a minha expulsão do partido, Cunhal fecha dizendo: “Queria saber qual de vocês teria a coragem de sozinho enfrentar o Comité Central.”

Porque o fez?
Porque era Cunhal. Era ele quem mandava. E por isso mesmo, apesar de todos os votos contra, mantém-me no Comité Central.

É impressionante o seu relato desse julgamento. Ainda sente mágoa?
Acreditava que podia renovar o comunismo. Essa imagem, a ser julgada por uma série de gente já muito idosa, muito fora do mundo, só homens, todos cheios de tiques da clandestinidade, não foi fácil. Depois tornou-se caricato. Mas nesse dia em que fui expulsa do Comité Político, quando acabou o julgamento, deixei as chaves do carro do partido em frente a Cunhal, virei costas à mesa e saí da sala a chorar. Já era de madrugada, cá fora estava um batalhão de jornalistas à minha espera, disse que não ia fazer declarações e pensei: “E agora, como é que vou para casa?” Apanhei um táxi e o homem que estava a ouvir pela rádio o que se estava a passar ofereceu-me a viagem. O meu processo ocupou duas páginas inteiras do “Avante!”, foi tornado público. À boa maneira do PCP, as acusações não tinham nada que ver com a minha divergência das ideias políticas. Eram sobre ter-me emburguesado, começado a ir ao ginásio, ter um marido rico... [Ri-se]

O que na verdade aconteceu. O seu segundo casamento com o médico João Guimarães, que não tinha nada que ver com o partido, não teve influência?
Já estava numa vida normal e isso influenciou. Mas estava disponível para continuar no partido de alma e coração.

O que é uma vida normal?
No PCP eu tinha amigos que tinham uma vida normal, não me dava só com funcionários. A dissidência só começou quando se tornou óbvio que o país já não era aquilo que o PCP nos fazia crer e a nossa linguagem já não tinha nada que ver com a realidade.

A sua vida com Carlos Brito, pai de duas das suas filhas, era bastante fechada na cúpula?
Era totalmente centrada no partido, mas não era tão fechada como outros dirigentes que não tinham vida além da sede. E por uma razão simples. Apesar de ele ser um dirigente político, era parlamentar e dávamo-nos com deputados de outros partidos.

Como é que educou as suas filhas mais velhas quando era uma comunista ortodoxa?
Foram uma vez a uma reunião de pioneiros porque tinham curiosidade e quiseram ir. Mas nunca foram educadas para a militância.

Porquê?
Talvez já estivesse na minha maneira de ser. Eduquei-as como se educavam naquela época as crianças e andavam nas escolas onde andavam as crianças na altura. Nunca tiveram uma vida à parte.

Quando recorda esse tempo, é estranho pensar em si mesma nesse mundo fechado?
A minha vida era coerente com o que pensava na altura e essas eram as regras da casa. O que é estranho é pensar como é que não vi mais cedo. Nisso penso. Mas, repare, eu entrei muito nova para o PCP. Entrei com 15 anos e com 17 passei à clandestinidade.

Escreveu que não foi o comunismo que a encontrou, foi à procura dele por uma vontade de pertença.
E foi assim. Mas na minha geração era normal. Fui criada numa família da oposição, líamos todos os livros proibidos e desejávamos a liberdade.

Estava a referir-me à sua determinação.
Talvez não tenham sido tão dados como eu e quando dei por isso já estava na clandestinidade.

Houve um ímpeto romântico nessa vontade?
Tinha lido “Subterrâneos da Liberdade”, de Jorge Amado, e tal como Mariana, a personagem do romance, queria ser uma heroína. Pensei, já que vou para a luta vou mesmo para a luta. Mergulhei a sério.

Clandestinidade aos 17 anos é bastante radical. Essa ideia da entrega total tem que ver com a sua maneira de ser?
Provavelmente. Mas, como disse, tem sobretudo que ver com a época, que era terrível e havia a guerra colonial. O desejo era combater o regime e servir a causa comunista o melhor possível. A clandestinidade foi inevitável. Tinha dado uns papéis a uns estudantes para distribuírem no 1º de Maio de 1967. Foram presos e brutalmente torturados. Passei à clandestinidade para não ser presa. Vim a saber depois que não revelaram o meu nome.

Sabia que tinha essa capacidade de disciplina e de resistência?
Não, não sabia. Mas não tive muito tempo para pensar. Mal foram presos, tive de me esconder e o partido deu-me a escolher entre ir para a União Soviética tirar um curso qualquer ou entrar na clandestinidade. Não hesitei.

Além da identidade falsa, a preparação passava por construir uma espécie de nova personalidade?
Passava sobretudo por adquirir uma disciplina de vida a que não estava habituada. Uma vez, na rua, um amigo para o carro e chama-me. Ouvir “Zita!”e não reagir é uma disciplina que se treina.

O que conhecia sobre si própria que a levou a supor ser capaz de aguentar aquela prova?
A prova mais tremenda é a prisão e a tortura. Essa não vivi. A clandestinidade é brutal porque é um isolamento completo. Eu tinha uma vida normalíssima, tinha um grupo enorme de amigos, andava no ballet, queria ser bailarina, estava habituada a tudo o que era festa. De repente fiquei isolada. Nos dois primeiros anos praticamente não podia sair à rua. As pessoas que me conheciam dessa época acharam estranhíssimo como é que me adaptei à vida clandestina.

Foi a sua grande aprendizagem?
Foi.

O que lhe ficou?
Uma disciplina na organização do trabalho.

Quando saiu do partido, apesar de tudo foram 22 anos naquela estrutura, como viveu o fim da aventura?
Adoeci. Tinha dedicado uma vida inteira a uma causa e a minha vida não tinha sentido. Foi o mundo inteiro que me caiu aos pés. Pensar que tinha lutado por ideias que eram justas, mas que em todo o lado deram o resultado que deram, foi o primeiro choque. Só não vivi esse vazio de forma ainda mais brutal porque tinha um enquadramento familiar que era normal. Além disso tinha duas filhas pequenas e um bebé acabado de nascer para criar, isso foi muito importante para normalizar a vida. O mais difícil foi arranjar trabalho. Tinha sido revolucionária profissional, tinha 38 anos, e não sabia fazer nada. Mas ao mesmo tempo a sensação de liberdade era fantástica, rapidamente entrei em grande conspiração contra o PCP e foi muito divertido conspirar.

Devido ao seu percurso após a dissidência, sobretudo pela sua aproximação ao PSD, em muitas entrevistas que lhe fizeram perguntaram-lhe se não teve arrependimentos. Sente essa pergunta como uma estranheza?
Sinto porque tenho orgulho no meu passado. Gosto muito ter participado na luta pela liberdade e fi-lo com muito sacrifício da minha vida pessoal.

Uma das críticas que lhe fazem foi ter mudado tanto.
Não estou de acordo. Há muita coisa que me marcou e ficou para a vida. Agora, quando se parte para outra, parte-se mesmo para outra.

A perplexidade foi precisamente ter partido para outra como se tivesse abandonado quem era.
Nunca se abandona quem é. As características mantêm-se, não passei a ser outra pessoa. Passei é a ter outra vida e a poder fazer coisas que não podia fazer antes. De repente abre-se uma série de portas que estavam fechadas.

Mas em termos ideológicos a mudança foi enorme.
Como dizia Willy Brandt, o normal é ser-se revolucionário quando se tem 20 anos, para se ser um bom social-democrata quando se tem 50. Também conheço gente que era muito formal na juventude e até admirava Salazar ou Marcello Caetano e que hoje é progressista e de esquerda. É, é mais raro.

Uma das coisas que mais chocaram foi por exemplo a questão do aborto, quando em 2007 fez campanha pelo “Não”. Estava ainda muito presente a sua imagem em discursos inflamados na Assembleia da República quando, em 1982, apresentou o projeto de lei para a alteração da lei do aborto. A proposta para o PCP o fazer tinha sido sua.
Não foi minha. Havia uma proposta do Movimento Democrático de Mulheres (MDM), que teve uma reunião com Cunhal que logo lhes disse que o PCP nunca apresentaria um projeto de legalização do aborto. Nessa altura teve uma reunião comigo e pediu-me que fizéssemos um projeto de lei que abordasse a despenalização do aborto.

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Despenalizar não passa por legalizar?
Não é a mesma coisa. Nessa altura era considerado crime e propusemos que as mulheres que tinham de recorrer ao aborto clandestino não fossem presas. Esse foi o sentido da lei que apresentei. O aborto como último recurso perante um caso de violação, um caso de malformação do feto ou perante um caso que ponha em perigo de vida a mulher e que não fosse considerado crime o aborto clandestino. Nunca um processo de legalização do aborto como forma de contracetivo.

Considera que o aborto é uma forma de contracetivo?
A partir do momento em que se legaliza pode ser. É preciso considerar que estamos a viver um período completamente diferente daquele em que vivíamos quando apresentei a lei. Nessa altura, propusemos também que fosse legalizado o planeamento familiar a fim de torná-lo gratuito, ou acessível, assim como criar um plano para introduzir a educação sexual nas escolas. Era essa a preocupação e é isto que Cunhal aceita. Na altura, o Partido Socialista rejeitou a proposta e depois faz uma alteração que vem abrir a possibilidade de legalizar o aborto, que é permitir o aborto por razões de ordem psíquica. Na minha proposta de lei inicial isso não existe. Logo nessa altura, no meu discurso, faço uma diferença muito clara entre a legalização e a despenalização.

E é o que defende quando faz a campanha pelo “Não”, em 2007?
Quando voltei à Assembleia no grupo parlamentar do PSD, a questão que se colocava era uma alteração à lei da despenalização e transformá-la em lei de legalização, que permitiu, inclusive, o aborto sem limite de prazo.

Voltaria então a ser penalizado?
Penalizado não. Mas acho que não deve ser facilitado.

Como se traça essa fronteira?
Claro que o aborto é sempre uma coisa terrível na vida de uma mulher, mas é um crime interromper uma gravidez porque é interromper uma vida. Continua a haver toda a informação disponível e a ciência evoluiu. Não há nenhuma razão para se manter uma situação que era a situação do início do século XX. É uma negligencia. Os pais têm uma obrigação evidente na educação dos filhos de os preparar a fim de evitar uma situação destas.

E se acontecer numa gravidez adolescente, por exemplo?
A criança deve nascer. Não há o direito de cortar uma vida.

E em situações de risco?
Depende. Por exemplo, em relação à deficiência, já me levanta problemas de consciência. Já é eugenia.

Eugenia não será uma palavra muito forte?
Tenho dúvidas de que uma criança com trissomia 21 não tenha direito a nascer. Sou completamente contra a eugenia e a ideia de não podermos aceitar ter um filho deficiente está muito próxima disso. Esta discussão hoje levanta-se de uma forma muito mais pertinente. Graças à evolução da ciência há cada vez mais interferência em questões de ordem genética. Umas das coisas com que a ciência agora se depara é o transumanismo. É uma questão que me fascina porque levanta questões de ordem ética muito importantes. É urgente a sociedade discuti-las.

Com quem é parecida?
Fisicamente, com o meu pai. Embora o nome Seabra venha da família da minha mãe. O meu avô materno marcou-me muito. Tinha umas caves de espumante na Bairrada e passava uma grande parte do meu tempo livre em Sangalhos. Esse avô marcou-me muito até num sentido político. Era da oposição e um democrata. A família tinha dois lados. Um cunhado desse avô era presidente da Câmara da Anadia, muito católico e da União Nacional, com quem ele jogava todos os dias às damas no café. Esse cunhado tinha um filho que foi talvez um dos segundos padres da Opus Dei ordenados em Portugal. O meu avô, que era laico e militantemente ateu, era muito tolerante. Com oito anos fui à ordenação desse meu primo padre a Madrid com os meus avós. A família convivia bem com esses dois lados.

Não teve nenhuma raiz de educação católica.
Não. Pelo contrário.

A fé surge depois de sair do PCP?
Não. É muito posterior à minha saída do PCP e também não tem nada que ver com a minha entrada para o PSD. Um dia, tal como fiz com a minha história com o PCP, também escreverei sobre isso. Não sou uma crente clandestina, não escondo nada.

Como começa esse processo?
Acho que se começa sempre quando questionamos qual é o sentido da vida e da existência humana.

O sentido da sua vida foi a revolução e desapareceu. A sua natureza não é de propensão para a fé?
Percebo a pergunta e digo-lhe que não. Não foi para preencher esse vazio. Uma coisa é a fé, outra é a fé ideológica. Não são comparáveis. A minha vida estava preenchida com o que fazia e com o que faço. As questões que me ponho são exatamente as mesmas que qualquer pessoa que inicia um caminho se coloca. O que acho estranho é que essas questões não se coloquem. É muito curioso, porque uma das coisas que têm levado muita gente à conversão é a descoberta do ADN. Como é que é tão perfeito? Como é que um acaso dá um ser humano? Uns encontram esse sentido, outros não e continuam a viver com a dúvida.

Escreveu um livro que é uma entrevista ao padre Gonçalo Portocarrero de Almada.
As questões desse livro, que se chama “Auto-de-Fé”, têm precisamente que ver com o choque entre razão e fé. Foi muito bom ter tido oportunidade de discutir com um padre. É da Opus Dei, e quando decidi propor-lhe o livro achei que não ia aceitar. Primeiro hesitou e depois com a minha experiência política disse-me que sim.

Porque o escolheu?
Tive a oportunidade de o conhecer e de lhe fazer perguntas e ele respondeu-me logo com muita frontalidade.

Quais eram as suas questões?
A ciência e a fé são incompatíveis? É preciso ir à missa para se ser católico? O que é ser católico? O que é isso da confissão? Pode falar-se diretamente com Deus? Os protestantes, por exemplo, não têm a confissão. São as perguntas que qualquer pessoa faz quando está num processo de dúvida. Quando fizemos uma digressão para apresentar o livro percebi que muitos católicos, que sempre viveram nesse enquadramento e foram formados na fé, têm dúvidas.

Também editou uma biografia de Josemaría Escrivá. Fala-se que integrou a Opus Dei.
Também edito muitos livros de jesuítas, como o padre António Vaz Pinto, de quem gosto muito e com quem fiz uma viagem fantástica pelo percurso dos jesuítas no Brasil. Também sou muito amiga de dominicanas que têm uma obra notável no Convento dos Cardais. Ouviu isso, de eu ter integrado a Opus Dei, porque, provavelmente, é uma ousadia publicar livros com um padre da Opus Dei. Mas respondendo à sua pergunta: não, não sou. Aliás, se quisesse ser, não me deixavam entrar, sou demasiado indisciplinada [ri-se]. Mas gosto de muitos aspetos da Opus Dei.

Quais?
São grandes pregadores, têm padres muito bem preparados, são uma organização da Igreja extremamente interessante e é muito bom conhecê-los. Outra organização, de que ainda não falei, e da qual também gosto imenso, é a Comunhão e Libertação.

Do padre João Seabra?
Exatamente. A convite dele fui a um meeting em Rimini, onde estava uma série de políticos e foi um encontro fantástico com gente que tem carisma e intervenção na vida pública.

Essa organização é tida como um lado mais reacionário da Igreja. A sua aproximação à Igreja Católica foi feita pela via mais conservadora.
Não sei se é. O que me atrai na Igreja Católica, aquilo que faz a sua força, é a diversidade. Também gosto muito dos dominicanos. Mas a minha paróquia é a de São Nicolau, tem uma obra social notável.

O que diria na sua juventude desta Zita com quem estou a conversar?
Não faço ideia. Ninguém em jovem se imagina em adulto.

O seu discurso é em tudo contrário ao que era.
Não em tudo. Há muita gente que faz este percurso. Na dissidência dos comunistas há muitos. É um percurso normal. Sabe qual é a questão? Simbolizo a mudança para a direita e não me faz nenhuma diferença. Vivo muito bem com isso.