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Esta história tem barbas

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As barbas estão na moda, 
mas com novos preceitos 
e tratamentos para um estilo mais cuidado e menos selvagem

Esta é uma história com barbas. E sem barbas também. Ou seja, ao longo dos tempos, foram muitas as modas e as fases de mais ou menos pilosidade no rosto masculino desde que o homem descobriu no período Paleolítico que poderia remover os pelos com lascas de pedra afiada. Isto há 30 mil anos. Mais à frente, no Egito Antigo, os pelos no rosto eram considerados um sinónimo de posse entre os homens da sociedade, e quanto mais propriedades eles tinham mais barba deveriam exibir como status. No caso da Grécia Antiga, a barba era tida como um sinal de sabedoria, e como tal todos os filósofos eram barbudos. Já na Idade Média, com a separação da Igreja Ortodoxa e o crescimento da sociedade muçulmana, os católicos passaram a barbear-se para se diferenciarem.

Mas abreviemos esta parte e o que veio depois nos vários povos e culturas, apenas recordando a força que as barbas ganharam na sociedade portuguesa nos anos 60 do século passado, seguindo a moda hippie que veio da América, e mais ainda no período após o 25 de Abril, em que a pilosidade farta e rebelde no rosto passou a expressar uma nova fase de liberdade e de democracia. Depois, as barbas foram caindo aos poucos em desuso, até voltarem novamente em força como moda e tendência masculina há cerca de cinco anos, a acompanhar a abertura de dezenas de novas barbearias com traços de modernidade, por todo o país, introduzindo novos produtos, estéticas e preceitos. Mas sem menosprezarem a tradição.

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Comecemos primeiro pela sabedoria que vem de há séculos. Na Barbearia Campos (Largo do Chiado, nº 4) há 131 anos que se faz barba à navalha com ‘toalha quente’ ou que se aparam e modelam as barbas rijas à vontade do freguês. Naqueles cadeirões seculares, onde noutros tempos se sentaram figuras célebres como os escritores Ramalho Ortigão (que tinha uns bigodes revirados para cima e umas enormes suíças) e Eça de Queirós (também ele com um farto bigode), são agora muitos os clientes que ali chegam para tratar das suas barbas. De navalha afiada na mão, o barbeiro Filipe Carvalho, de 34 anos — que não é destas modas, dado que é careca e tem o rosto limpo de pelos —, aprendeu com os antigos a fazer o shaving. “Colocamos uma toalha quente para abrir os poros. Depois, a espuma. Passamos duas vezes a navalha. A primeira vez a favor do pelo, a segunda vez contra o pelo, que é o que nós chamamos escanhoar. Se se fizer assim, a barba feita dura mais um dia.” Palavra de barbeiro.

A grande maioria dos portugueses que agora ali vai pede quase sempre o mesmo. Quer manter a barba cuidada, mas relativamente curta, com um dedo e meio de tamanho. A chamada barba hipster ou da moda. “Mas muitos confessam-me que gostavam de a ter bem maior e que só não a deixam crescer mais por causa do preconceito que existe. Os patrões ainda não veem as barbas grandes com bons olhos. Associam-nas a desmazelo...”

O que já é destes tempos, e um discurso frequente entre os barbeiros da nova geração, é que os produtos cosméticos também são para os homens de barba rija e que para se manter uma barba apresentável e bem tratada (à parte do estilo náufrago, de sem-abrigo ou de bom selvagem) é necessário ter certos cuidados diários, tal como aplicar óleo hidratante, escovar e usar champô ou sabão apropriado. Para as barbas mais rebeldes é igualmente aconselhável usar cera ou gel apropriados para as moldar no rosto e criar a textura e o desenho ideais. Produtos agora à venda em todas as barbearias e perfumarias.

Modernices? Quem experimenta estes cuidados não quer outra coisa para as suas barbas, porque ficam mais suaves, brilhantes, desembaraçadas e cheirosas, ouvimos vezes sem conta pela boca de vários barbeiros. “Quem usa barba curta deve aplicar o óleo à noite, antes de se deitar, porque durante o dia as barbas vão agarrar a poluição e a poeira da rua”, aconselha Filipe. Outra dica, de outro barbeiro, Carlos Fernandes, de 27 anos, a dar uso à navalha há dois anos na Figaro’s Barbershop (Rua do Alecrim, nº 39), é o uso de um tónico de lavagem ou champô adequado para a barba no duche. Seguido do já referido óleo hidratante. “O champô ou o sabonete comuns são prejudiciais para a pele e para o pelo, secam-no.” Muito complicado? “Nada disso. Não há grande ciência para as barbas. Para se ter uma barba com bom aspeto bastam cinco minutos diários. Lavar, escovar e hidratar”, assegura. Mas como assegurar uma boa forma para a barba em casa? Para isso há máquinas de barbear de qualidade à venda, assim como lâminas e afins. Mas os profissionais da área desaconselham o seu uso sem a mão de profissionais. Claro que não o dizem de forma completamente desinteressada. “Pela minha experiência, quando a maioria dos homens apara a barba em casa o resultado é normalmente mau. Cortam daqui, tiram dali, e a barba sai irremediavelmente desacertada”, afiança Carlos, que todos as semanas recebe na sua barbearia rapazes e homens que decidiram deixar crescer a barba mas que não sabem o que fazer com ela. “Faço um aconselhamento personalizado, caso a caso. Por exemplo, se o cliente for bochechudo, proponho tirar mais a barba nas laterais e deixá-la mais comprida no queixo, para alongar a figura!” É esta a arte de um barbeiro.

Ainda sobre os estilos das barbas e o que mais se usa, o barbeiro Filipe da Barbearia Campos diz que os pedidos vão mudando de acordo com as nacionalidades e origens dos clientes. “Os espanhóis, italianos e alemães que entram aqui pedem o shaving, o barbear completo, rosto limpo sem barba. Os estrangeiros do Norte da Europa chegam com barbas maiores e querem mantê-las. Ou seja, querem arranjá-las, mas mantendo o tamanho e a estrutura. Algumas dessas vão até ao peito. Nesses casos entra mais a tesoura, e a navalha ou a máquina são só usadas para o contorno das bochechas e do pescoço. Para uma maior harmonia.”

À cadeira de Filipe acaba de chegar um francês que não quer o típico shaving. Tem uma barba de um mês e diz ter 15 minutos disponíveis para a aparar antes de um almoço combinado. Filipe mãos de navalha trata disso em três tempos, fazendo uso também da máquina, e o resultado é apresentado ao espelho. “Está bem?” O cliente debruça-se para a frente e não fica satisfeito de imediato. Alerta para o facto de ter uma falha natural na barba, no lado direito do rosto, e pede a Filipe que replique essa falha no lado esquerdo, para um resultado mais simétrico. A navalha acerta o assimetria, e o cliente agradece com uma pequena gorjeta. Cada rosto é um rosto, e o diabo (das barbas) está nos detalhes, para que assente bem a cada pessoa. “A quem não tem uma barba cheia ou a quem a tenha com muitas falhas talvez desaconselhe o seu uso”, comenta Filipe. Um dos seus patrões, José Lopes, recorda o político Jacinto Lucas Pires, cliente habitual da Barbearia Campos, onde ia regularmente aparar a sua barba, e sobre as modas que vêm e vão remata: “Tenho a impressão de que o pico desta moda das barbas já passou, mas desconfio que o número de homens que tomou o gosto a esta estética é maior do que noutros tempos e que muitos deles vão continuar a usá-las, mesmo quando deixar de ser uma tendência tão massiva.”